Marcola e Lulinha pressionam campanha de Lula; crise acende alerta nos estados às vésperas do início oficial da corrida eleitoral

Marcola e Lulinha pressionam campanha de Lula; crise acende alerta nos estados às vésperas do início oficial da corrida eleitoral
Crédito: Divulgação
RicardoPor Ricardo 7 de agosto de 2026 2

campanha do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) chega aos últimos dias antes do início oficial da corrida eleitoral enfrentando uma sequência de desgastes envolvendo duas pessoas diretamente ligadas ao seu entorno: Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, filho do presidente, e Marco Aurélio Santana Ribeiro, conhecido como Marcola, ex-chefe de gabinete pessoal de Lula e até esta semana integrante da coordenação da campanha à reeleição.

O momento é considerado sensível porque as novas informações vieram a público poucos dias antes do ato previsto para 16 de agosto, em São Bernardo do Campo, que deverá marcar o início da campanha de Lula nas ruas. Aliados passaram os últimos dias tentando medir até onde os episódios podem repercutir na disputa presidencial e procurando evitar que o assunto domine a largada eleitoral.

O caso mais imediato envolve Marcola. Ele havia deixado o Palácio do Planalto em julho justamente para integrar a estrutura responsável pela campanha presidencial, com atuação principalmente na organização da agenda de Lula.

Pouco depois, vieram a público informações de que a empresária Roberta Luchsinger havia feito pagamentos que totalizaram R$ 249 mil a Marcola. Ele confirmou que recebeu os valores, mas afirmou que se tratou de um empréstimo pessoal, de caráter privado, já integralmente quitado, e negou qualquer irregularidade relacionada às funções que exercia no governo.

Com o aumento da repercussão, Marcola pediu para deixar a campanha. A decisão foi interpretada dentro do grupo como uma tentativa de retirar rapidamente o episódio do núcleo eleitoral e reduzir a exposição de Lula no início da disputa.

O problema político aumentou porque Roberta Luchsinger também aparece em investigações relacionadas a Lulinha e ao empresário Antônio Carlos Camilo Antunes, conhecido como Careca do INSS.

Segundo informações das investigações divulgadas até agora, Roberta afirmou ter apresentado Lulinha a Antunes. A Polícia Federal apura suspeitas relacionadas à possível atuação para facilitar negócios junto a órgãos públicos, incluindo tratativas envolvendo produtos à base de cannabis medicinal.

É importante separar as investigações. As informações disponíveis não apontam que Lulinha e Marcola sejam investigados por participação direta nos descontos irregulares de aposentados e pensionistas apurados pela Operação Sem Desconto. Um dos novos inquéritos mira suspeitas de tráfico de influência relacionadas a negócios com o governo.

O Supremo Tribunal Federal já autorizou a abertura de três inquéritos envolvendo suspeitas relacionadas a Lulinha. Um dos procedimentos também alcança fatos relacionados a Marcola, segundo informações divulgadas sobre a investigação.

A defesa de Lulinha nega irregularidades e tem criticado a multiplicação das investigações. Os advogados sustentam que o filho do presidente não pode receber tratamento mais rigoroso simplesmente por sua relação familiar com Lula e classificaram parte das iniciativas investigativas como uma espécie de tentativa de encontrar elementos que sustentem suspeitas ainda não comprovadas.

Lula também decidiu enfrentar o assunto publicamente. O presidente afirmou que não haverá tratamento privilegiado para o filho e que qualquer pessoa que tenha cometido irregularidades deve responder por seus atos.

Ao falar sobre Lulinha, Lula afirmou que jamais utilizaria a Presidência para impedir o trabalho de delegados ou magistrados. A posição que a campanha pretende levar para as próximas semanas é a defesa da autonomia das instituições e a tentativa de separar as investigações da candidatura presidencial.

O impacto eleitoral, entretanto, é justamente o que preocupa o entorno político.

Analistas e integrantes da campanha avaliam que existe uma dificuldade objetiva: investigações dessa natureza dificilmente terão uma conclusão definitiva antes das eleições de outubro. Com isso, governo e oposição poderão disputar a narrativa durante toda a campanha sem que necessariamente exista uma resposta judicial final sobre os fatos investigados.

A oposição já percebeu o potencial político do tema. A campanha de Flávio Bolsonaro passou a explorar rapidamente os episódios nas redes sociais e já vinha preparando uma estratégia para associar Lula politicamente às investigações envolvendo o filho.

Para a campanha petista, o desafio é impedir que o debate sobre Lulinha e Marcola substitua temas que o presidente pretende colocar no centro da eleição, como economia, programas sociais, emprego, salário mínimo e comparação entre os governos Lula e Bolsonaro.

A preocupação também chega aos palanques estaduais.

Lula entra na campanha com alianças e estruturas eleitorais distribuídas pelos estados, e sua imagem será utilizada por candidatos a governador, senador e deputado que pretendem nacionalizar parte da disputa e associar suas candidaturas ao presidente.

Quanto maior a exposição dos casos nacionais, maior é o risco de candidatos estaduais serem obrigados a responder sobre assuntos que não fazem parte diretamente de suas campanhas locais.

Essa preocupação é especialmente relevante nos estados onde a disputa aparece apertada e onde candidatos aliados dependem do eleitorado de Lula para consolidar suas próprias chapas.

O efeito pode ocorrer também no sentido contrário. Em regiões onde Lula tem votação historicamente forte, a estratégia tende a ser preservar a agenda social e econômica e evitar que investigações ainda em andamento dominem os debates locais. Nos estados onde há maior resistência ao presidente, adversários devem tentar nacionalizar as disputas e transformar os casos em elemento de confronto.

O próprio desenho eleitoral mostra a importância desse cuidado. Antes das convenções, Lula e sua equipe trabalharam intensamente para organizar palanques nos estados e ampliar sua presença regional. A campanha chegou à reta final das convenções com estruturas encaminhadas nos 26 estados e no Distrito Federal, ainda que algumas alianças apresentassem dificuldades e diferenças locais.

Agora, a prioridade é evitar que uma crise surgida em Brasília se transforme em problema para essas estruturas estaduais.

Dentro da campanha, as avaliações estão divididas. Uma ala considera que o desgaste poderá ser limitado porque nenhum dos episódios envolve, até o momento, uma acusação direta contra o presidente. Outro grupo vê risco eleitoral justamente pela proximidade pessoal de Lulinha e pela posição de extrema confiança que Marcola ocupava ao lado de Lula.

Marcola não era um personagem secundário na estrutura presidencial. Além de ter chefiado o gabinete pessoal de Lula, deixou o governo para atuar diretamente na campanha e era considerado um dos homens de confiança do presidente na organização de sua rotina política.

Por isso, sua retirada rápida da coordenação foi vista como necessária para impedir que a campanha passasse os primeiros dias respondendo exclusivamente sobre o episódio.

A poucos dias da largada oficial, Lula agora tenta mudar o eixo do debate.

O ato em São Bernardo do Campo terá também essa função: colocar o presidente novamente diante da militância, apresentar o discurso central da campanha e tentar fazer com que a eleição volte a girar em torno da disputa política entre os projetos apresentados pelos candidatos.

Até lá, porém, Marcola e Lulinha permanecem como dois pontos de pressão sobre a campanha, e o tamanho do impacto não será medido apenas em Brasília. A reação dos eleitores e a capacidade dos adversários de levar os casos para os palanques estaduais serão acompanhadas de perto pelo PT nas próximas semanas.

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