Escoliose vai muito além da “postura torta”: ombros desnivelados, assimetria nas costas e quadril podem indicar alteração na coluna

Escoliose vai muito além da “postura torta”: ombros desnivelados, assimetria nas costas e quadril podem indicar alteração na coluna
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Ricardo Fernandes AlmeidaPor Ricardo Fernandes Almeida 11 de agosto de 2026 0

Um ombro aparentemente mais alto que o outro, uma escápula mais evidente, o quadril desnivelado ou uma diferença na altura da cintura podem parecer apenas características da postura. Em alguns casos, porém, esses sinais podem indicar escoliose, uma alteração da coluna vertebral que merece avaliação médica, principalmente durante os períodos de crescimento de crianças e adolescentes.

Conforme apurado pelo Diário Tocantinense, a escoliose é caracterizada por uma curvatura lateral anormal da coluna acompanhada, em muitos casos, por rotação das vértebras. Em vez de permanecer alinhada quando observada de frente ou de costas, a coluna pode apresentar uma curva semelhante às letras “C” ou “S”. A condição pode atingir pessoas de diferentes idades, embora uma das formas mais comuns seja identificada durante a adolescência.

E há um ponto importante: escoliose não deve ser resumida simplesmente a uma pessoa que “anda torta” ou que tem má postura. Na escoliose idiopática do adolescente, que está entre as formas mais frequentes, a medicina não consegue identificar uma causa específica na maioria dos pacientes. Ou seja, não é correto atribuir automaticamente o problema ao jeito de sentar, carregar mochila ou usar celular.

Os primeiros sinais podem ser discretos e, justamente por isso, passar despercebidos dentro de casa. Entre as alterações que podem chamar atenção estão ombros em alturas diferentes, uma escápula mais saliente que a outra, cintura assimétrica, um dos quadris mais elevado e inclinação do tronco para um dos lados.

Outro sinal pode aparecer quando a pessoa se inclina para frente. Em pacientes com escoliose, uma parte das costelas ou das costas pode ficar mais elevada do que a outra devido à rotação associada à deformidade. Esse tipo de observação faz parte da avaliação clínica utilizada pelos profissionais de saúde diante da suspeita da doença.

A assimetria não significa, entretanto, que qualquer diferença corporal seja necessariamente escoliose. O diagnóstico depende de avaliação clínica e, quando existe suspeita, pode envolver exames de imagem.

A Scoliosis Research Society, entidade internacional especializada em deformidades da coluna, explica que a radiografia realizada em pé permite avaliar toda a coluna e medir a curvatura pelo chamado ângulo de Cobb. Uma curvatura superior a 10 graus é utilizada como critério para definição de escoliose.

Isso também significa que o diagnóstico não pode ser feito apenas olhando uma fotografia ou observando a maneira como alguém caminha.

A idade do paciente, o tamanho da curva, a localização da deformidade, o estágio de crescimento e a possibilidade de progressão são fatores considerados para definir a conduta.

Em muitas crianças e adolescentes, a escoliose é leve e pode não precisar de tratamento ativo naquele momento. Nessas situações, o especialista pode optar pelo acompanhamento periódico para observar se a curvatura permanece estável ou aumenta durante o crescimento.

Esse acompanhamento ganha importância porque uma criança ou adolescente ainda em fase de crescimento pode apresentar maior risco de progressão da curva do que uma pessoa que já alcançou a maturidade esquelética.

Quando a curvatura apresenta características que indicam maior possibilidade de progressão e o jovem ainda está crescendo, o colete ortopédico pode fazer parte do tratamento. Seu objetivo principal não é simplesmente “deixar a coluna reta” imediatamente, mas tentar impedir ou reduzir a progressão da deformidade durante o crescimento.

Já as situações mais graves ou progressivas podem exigir cirurgia. A Scoliosis Research Society informa que a indicação cirúrgica costuma ser considerada, entre outros fatores, em curvas acima de aproximadamente 45 graus, principalmente quando continuam progredindo. A decisão, porém, é individualizada e cabe à equipe especializada após avaliação do paciente.

A atividade física também não deve ser encarada como inimiga automática de quem tem escoliose. Crianças com a condição geralmente podem praticar exercícios, salvo quando existe uma orientação específica do profissional responsável para restringir determinada atividade. Exercícios podem ajudar no condicionamento, fortalecimento e controle de sintomas, mas não devem ser tratados como substitutos universais das demais formas de acompanhamento.

Outro mito é imaginar que toda escoliose obrigatoriamente provoca forte dor nas costas.

Na escoliose idiopática do adolescente, por exemplo, a dor intensa não costuma ser a principal característica. Por isso, a ausência de dor não elimina a possibilidade de existir uma curvatura da coluna. Em crianças e adolescentes, muitas vezes são justamente as alterações visuais no corpo que chamam a atenção primeiro.

Por outro lado, dores intensas ou sintomas neurológicos merecem investigação médica, já que podem indicar outras condições associadas ou exigir uma avaliação mais aprofundada.

Nos casos mais acentuados, a escoliose pode deixar de representar apenas uma questão de alinhamento corporal. Curvaturas severas podem reduzir o espaço disponível para os pulmões e provocar comprometimento respiratório em determinadas situações.

A doença também não ocorre apenas na adolescência. Bebês, crianças e adultos podem desenvolver ou apresentar diferentes formas de escoliose. Existem casos relacionados a alterações congênitas das vértebras, doenças neuromusculares e processos degenerativos que aparecem ou se agravam na vida adulta.

Nos adultos, a abordagem também muda. Dor, limitações funcionais, desgaste da coluna e progressão da deformidade passam a fazer parte da avaliação, e nem todos os pacientes precisam de cirurgia. Tratamentos conservadores e acompanhamento podem ser utilizados dependendo do quadro clínico.

O diagnóstico precoce é particularmente importante durante a infância e adolescência porque permite acompanhar a coluna justamente durante o período em que o corpo está crescendo.

Por isso, pais e responsáveis podem observar mudanças aparentemente simples: um ombro ficando mais alto, roupas que parecem cair de maneira desigual, uma escápula mais projetada, diferença entre os lados da cintura, quadril desnivelado ou uma elevação maior de um lado das costas quando o jovem se curva para frente.

Identificar um desses sinais não significa confirmar uma doença. Significa que pode ser indicado procurar avaliação médica, preferencialmente com profissional habilitado para examinar a coluna e decidir se há necessidade de radiografia ou encaminhamento para um especialista.

A avaliação especializada é especialmente relevante porque o tratamento não é igual para todos. Duas pessoas com escoliose podem apresentar graus de curvatura, idades, sintomas e riscos de progressão completamente diferentes.

Também é importante evitar tratamentos improvisados ou a promessa de que um único exercício, equipamento ou técnica irá “desentortar” definitivamente qualquer coluna. As entidades especializadas reconhecem como pilares tradicionais do manejo da escoliose a observação, o uso de colete em pacientes selecionados e a cirurgia nos casos em que há indicação, sempre de acordo com as características clínicas de cada paciente.

A mensagem principal da apuração do Diário Tocantinense é que a escoliose pode começar de maneira silenciosa e não deve ser reduzida ao conceito popular de “postura torta”.

Principalmente durante o crescimento, pequenas assimetrias podem ser o primeiro aviso de uma alteração que precisa ser observada.

Perceber cedo não significa que o paciente terá de passar por cirurgia ou utilizar colete. Pelo contrário: muitos casos são leves e precisam apenas de acompanhamento. Mas descobrir a condição no momento adequado permite que médicos e familiares acompanhem sua evolução e tomem decisões antes que uma eventual progressão se torne mais difícil de controlar.

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