Leonardo Mendonça morreu envenenado? Corpo do “Barão do Tráfico”, ex-aliado de Beira-Mar, é sepultado e Justiça apura morte em presídio federal

Leonardo Mendonça morreu envenenado? Corpo do “Barão do Tráfico”, ex-aliado de Beira-Mar, é sepultado e Justiça apura morte em presídio federal
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Ricardo Fernandes AlmeidaPor Ricardo Fernandes Almeida 31 de agosto de 2026 19

A morte de Leonardo Dias de Mendonça, de 63 anos, conhecido nacionalmente como “Barão do Tráfico” e apontado em investigações como ex-aliado de Fernandinho Beira-Mar, ainda não teve todas as suas circunstâncias esclarecidas. O corpo já foi liberado, levado para Goiânia, velado e sepultado, mas a principal pergunta permanece aberta: o que provocou a morte de Leonardo Mendonça dentro do contexto de sua custódia na Penitenciária Federal de Campo Grande?

Leonardo morreu em 20 de agosto de 2026, depois de passar mal enquanto estava preso no sistema penitenciário federal em Campo Grande, Mato Grosso do Sul. Ele havia sido encaminhado à Santa Casa da capital no dia 17 de agosto em estado gravíssimo e permaneceu internado até a confirmação da morte.

A princípio, as informações divulgadas apontavam para um quadro médico grave. Relatos chegaram a mencionar a possibilidade de acidente vascular cerebral e parada cardiorrespiratória. Posteriormente, porém, a defesa tornou pública uma informação que mudou o rumo do caso: familiares teriam sido informados verbalmente sobre uma possível suspeita de envenenamento.

Isso não significa que Leonardo tenha sido envenenado. Até esta segunda-feira, 31 de agosto, não foi divulgado resultado oficial dos exames que comprove envenenamento, intoxicação criminosa ou participação de terceiros na morte.

A suspeita, entretanto, foi considerada suficientemente relevante para provocar uma intervenção da Justiça Federal.

No dia 21 de agosto, o juiz federal Luiz Fiorentini determinou que fossem realizados necropsia, exames toxicológicos e análises de tecidos para esclarecer tecnicamente a causa da morte de Leonardo. A decisão também determinou uma inspeção extraordinária na Penitenciária Federal de Campo Grande.

A Justiça quer esclarecer não apenas a causa médica do óbito, mas também as circunstâncias que antecederam a retirada do preso da unidade e o atendimento de saúde oferecido enquanto ele estava sob custódia do Estado.

Também foi determinada a preservação integral das imagens do circuito interno de monitoramento da penitenciária referentes ao período considerado relevante para a investigação. Essas gravações podem ajudar a reconstruir os últimos dias e horas de Leonardo dentro da unidade federal.

Um dos pontos que deverão ser esclarecidos é quando exatamente começaram os sintomas, quais queixas Leonardo apresentou, quais providências foram adotadas dentro do presídio e por que ele somente foi levado para atendimento hospitalar no dia 17.

A defesa informou que Leonardo já vinha apresentando problemas de saúde anteriormente. Também relatou que, durante uma visita virtual realizada na sexta-feira, 14 de agosto, ele teria apresentado sinais de mal-estar. A investigação agora precisa estabelecer uma cronologia precisa dos acontecimentos.

A pergunta sobre possível envenenamento ganhou força porque, segundo a defesa, essa hipótese teria sido mencionada verbalmente durante os procedimentos posteriores à morte, embora inicialmente não aparecesse formalmente na documentação necessária para encaminhar o corpo aos exames médico-legais.

A situação provocou um impasse entre o hospital, os serviços responsáveis pela verificação do óbito e o Instituto de Medicina e Odontologia Legal de Mato Grosso do Sul.

A família queria que o corpo passasse por exames capazes de identificar eventual presença de substâncias tóxicas antes que fosse liberado para o funeral. Sem os procedimentos, uma eventual prova poderia ser perdida depois do sepultamento. A intervenção judicial resolveu o impasse.

Com a determinação expressa para a realização da necropsia, dos exames toxicológicos e das análises complementares, o corpo foi submetido aos procedimentos necessários antes da liberação. No sábado, 22 de agosto, o corpo de Leonardo Dias de Mendonça foi oficialmente liberado pelo Instituto de Medicina e Odontologia Legal de Campo Grande.

A advogada Ana Cláudia Alves da Silva confirmou naquele momento que o corpo seria trasladado para Goiânia, em Goiás, onde Leonardo possuía seus principais vínculos familiares. O corpo seguiu para Goiânia para a realização do velório. Informações divulgadas naquele momento não detalharam publicamente horário e local exatos da cerimônia familiar.

Posteriormente, a Record Goiás confirmou que Leonardo foi sepultado em um cemitério de Goiânia. O enterro ocorreu em 24 de agosto.

Com isso, uma parte do caso foi encerrada: houve realização dos procedimentos médico-legais determinados pela Justiça, liberação do corpo, traslado para Goiás, velório e sepultamento. Mas a investigação sobre como Leonardo Mendonça morreu permanece aberta.

Até agora, portanto, é possível separar claramente o que já foi resolvido daquilo que continua sem resposta.

Está confirmado que Leonardo passou mal enquanto estava custodiado na Penitenciária Federal de Campo Grande, foi encaminhado para a Santa Casa no dia 17 de agosto, permaneceu em estado gravíssimo e morreu no dia 20.

Também está confirmado que a defesa levantou uma suspeita de possível envenenamento, que a Justiça Federal determinou uma investigação específica, que materiais foram coletados para exames e que imagens da penitenciária deveriam ser preservadas. O que não está comprovado é que Leonardo tenha sido envenenado.

Não há, até o momento, divulgação pública de laudo toxicológico conclusivo apontando a presença de veneno ou outra substância relacionada à morte.

Também não existe informação oficial divulgada indicando que alguém tenha colocado qualquer substância em alimento, bebida, medicamento ou outro produto utilizado por Leonardo dentro da penitenciária.

Da mesma maneira, não existe até agora anúncio público de investigação criminal apontando uma pessoa específica como responsável pela morte. Esse cuidado é fundamental porque uma suspeita apresentada pela defesa e submetida à apuração judicial não equivale a uma conclusão policial ou pericial.

A ausência de respostas ganhou ainda mais repercussão pelo personagem envolvido. Leonardo Dias de Mendonça ocupou durante décadas espaço de destaque nas grandes investigações sobre narcotráfico no Brasil. A Polícia Federal já o apontou como um dos grandes nomes do tráfico internacional de cocaína, e ele chegou a integrar a lista de procurados da Interpol.

Sua trajetória foi associada a operações envolvendo Brasil, Colômbia e outros países da América do Sul.

O nome de Leonardo também ficou marcado pela ligação atribuída pelas autoridades com Luiz Fernando da Costa, o Fernandinho Beira-Mar, um dos criminosos brasileiros mais conhecidos e apontado como importante liderança do Comando Vermelho.

Investigações relacionaram Leonardo ao comércio internacional de cocaína e a contatos com fornecedores colombianos. Reportagens e documentos de investigações anteriores também o associaram à negociação de cocaína proveniente de áreas controladas na época pelas Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia, as Farc.

Esse período marcou uma das fases de maior expansão das organizações brasileiras dentro das rotas internacionais da cocaína.

O tema permanece atual. O Diário Tocantinense já mostrou como o Brasil ocupa posição estratégica nas rotas internacionais do narcotráfico e como o Tocantins se tornou corredor entre as regiões Norte e Centro-Oeste.

Leonardo já havia sido condenado, em processo relacionado ao tráfico internacional, a 23 anos e quatro meses de prisão. A investigação estava ligada à apreensão de 327 quilos de cocaína encontrados em um avião em Cocalinho, Mato Grosso, em 1999.

Ao longo dos anos, outras condenações e investigações aumentaram seu tempo de prisão.

Autoridades também investigaram a utilização de propriedades rurais, criação de gado, aeronaves e outras estruturas como instrumentos para movimentação e eventual lavagem do dinheiro obtido com o tráfico.

O uso de aviões continua sendo uma das estratégias identificadas em organizações que movimentam grandes volumes de cocaína pelo Brasil. Em outra investigação, o Diário Tocantinense mostrou uma operação da Polícia Federal que identificou aeronaves utilizadas no transporte internacional de drogas e cumpriu ordens judiciais em vários estados.

Em maio de 2024, outra operação acompanhada pelo DT terminou com quatro prisões e a apreensão de aproximadamente 400 quilos de cocaína em uma pista clandestina no Tocantins.

Já em abril de 2025, uma ação integrada resultou na maior apreensão de cocaína dos últimos 15 anos no Tocantins, com mais de 565 quilos da droga.

O caso teve novos desdobramentos meses depois, quando a Polícia Federal deflagrou outra fase da investigação e cumpriu mandados de prisão e busca relacionados à apreensão.

Em agosto deste ano, outra grande ofensiva contra o crime organizado voltou a revelar a dimensão financeira dessas estruturas. A Operação La Máquina alcançou Palmas e mirou um esquema suspeito de movimentar mais de R$ 35 milhões por meio do tráfico interestadual.

No caso de Leonardo, depois de anos preso, ele chegou a progredir para o regime semiaberto em Goiás em 2018 e passou a utilizar tornozeleira eletrônica.

Em 2019, porém, voltou a ser alvo de uma investigação relacionada ao tráfico de cocaína e retornou à prisão. Mais tarde, passou a cumprir pena no sistema penitenciário federal.

A Penitenciária Federal de Campo Grande integra a estrutura de segurança máxima utilizada para custodiar presos considerados de elevada periculosidade, integrantes ou lideranças de organizações criminosas e detentos cuja permanência nos sistemas estaduais é considerada de risco.

O próprio Fernandinho Beira-Mar é um dos nomes que há anos circulam pelo sistema penitenciário federal. O DT já explicou o funcionamento dessa estrutura ao abordar as penitenciárias federais e transferências envolvendo Beira-Mar, Marcinho VP e integrantes do Comando Vermelho.

É justamente o fato de Leonardo ter adoecido enquanto estava sob custódia estatal que torna a investigação sobre sua morte especialmente relevante.

Uma pessoa presa permanece sob responsabilidade do Estado, inclusive no que diz respeito à preservação de sua integridade física e ao acesso à assistência médica.

Por isso, a inspeção determinada pela Justiça deverá analisar também como funcionou o atendimento prestado a Leonardo nos dias anteriores à internação.

A Secretaria Nacional de Políticas Penais, responsável pelo sistema penitenciário federal, ainda não apresentou publicamente todos os esclarecimentos solicitados pela imprensa sobre o episódio.

Nesta segunda-feira, 31 de agosto, o Campo Grande News informou que vinha tentando obter informações da Senappen desde a internação de Leonardo, no dia 17, sem receber respostas detalhadas sobre as circunstâncias do episódio.

Ou seja: onze dias depois da morte e uma semana após o sepultamento, ainda há uma parte importante da história sem resposta pública.

O resultado dos exames toxicológicos é justamente uma das peças capazes de determinar o próximo caminho da investigação.

Caso não sejam encontradas substâncias capazes de explicar uma intoxicação, a análise deverá se concentrar nas causas naturais ou clínicas do quadro que levou Leonardo à morte.

Se eventualmente forem encontradas substâncias incompatíveis com medicamentos e tratamentos realizados, será necessário investigar sua origem, a forma de contato e se houve participação de terceiros.

Só depois desse trabalho será possível afirmar tecnicamente o que aconteceu.

O caso, portanto, não terminou com o funeral.

Leonardo Dias de Mendonça foi enterrado em Goiânia, mas os últimos dias do homem que durante décadas esteve no radar da Polícia Federal, da Interpol e das grandes investigações brasileiras sobre tráfico internacional ainda estão sendo reconstruídos.

Conhecido como “Barão do Tráfico”, apontado como ex-aliado de Fernandinho Beira-Mar e um dos nomes históricos do narcotráfico brasileiro, Leonardo agora é personagem de uma última investigação.

A pergunta que permanece não é mais sobre onde está o corpo ou quando ocorreria o funeral. Essa parte está encerrada.

O corpo foi liberado, trasladado para Goiânia, velado e sepultado. O que falta saber é a causa definitiva da morte, o resultado dos exames toxicológicos, o que aconteceu dentro da penitenciária antes da internação e se a suspeita de envenenamento possui ou não qualquer fundamento científico.

Até que esses resultados sejam oficialmente apresentados, afirmar que Leonardo Mendonça foi envenenado seria antecipar uma conclusão que a própria investigação ainda busca responder.

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