Editorial | Dorinha lidera levantamento no Tocantins, Lula aparece à frente no Brasil, mas a eleição não terminou

Editorial | Dorinha lidera levantamento no Tocantins, Lula aparece à frente no Brasil, mas a eleição não terminou
Foto Ademir dos Anjos
Ricardo Fernandes AlmeidaPor Ricardo Fernandes Almeida 3 de outubro de 2026 10

A véspera da eleição costuma produzir certezas que os dados ainda não autorizam. Campanhas anunciam vitórias, transformam adesões em demonstrações de força e apresentam pesquisas como confirmação de um resultado inevitável. Neste sábado, 3 de outubro, o Tocantins e o Brasil chegam ao primeiro turno com candidaturas competitivas, disputas concentradas e uma questão ainda aberta: quem conseguirá converter preferência declarada em voto neste domingo.

No Tocantins, o Paraná Pesquisas divulgado em 2 de outubro aponta Professora Dorinha com 42,3% das intenções no cenário estimulado, contra 35,9% de Vicentinho Júnior e 7,2% de Laurez Moreira. Contratado pela Fieto, o levantamento entrevistou 1.504 eleitores em 73 municípios entre 29 de setembro e 1º de outubro, tem margem de erro estimada de 2,6 pontos e registro TO-02116/2026. Dorinha está à frente nesse retrato. Reconhecer essa posição é uma obrigação jornalística; transformá-la em vitória consumada seria abandonar a análise.

A comparação com setembro oferece uma informação importante: Dorinha avançou 1,7 ponto, enquanto Vicentinho ganhou 1,8. A distância entre ambos praticamente não mudou. Há vantagem da senadora, mas a rodada mais recente não demonstra um afastamento adicional expressivo entre os principais concorrentes. É justamente nessa diferença entre o dado e a narrativa que o jornalismo precisa trabalhar.

Em votos válidos, Dorinha aparece com 46,4% e Vicentinho com 39,4%. Nenhum alcança, nesse levantamento, a maioria absoluta necessária para encerrar a eleição no primeiro turno. Laurez e os demais candidatos, embora em posições inferiores, não são figurantes: seus votos influenciam a possibilidade de uma segunda etapa e, caso ela ocorra, passam a integrar uma disputa diferente.

A rejeição acrescenta outra dificuldade. No mesmo estudo, Dorinha registra 24,1%, Vicentinho, 13,4%, e Laurez, 24,9%. Esses números não permitem prever a transferência de votos, mas mostram que liderança e capacidade de ampliar apoio não são a mesma coisa. Para quem está à frente, o desafio é preservar vantagem e reduzir resistência. Para quem vem atrás, é demonstrar que a menor rejeição pode se transformar em preferência efetiva.

No Brasil, o Datafolha divulgado em 1º de outubro apresenta Lula com 42% das intenções totais e Flávio Bolsonaro com 38%. Em votos válidos, são 45% e 40%. A pesquisa ouviu 2.506 eleitores em 152 municípios, entre 29 de setembro e 1º de outubro, com margem de erro de dois pontos e registro BR-08039/2026. A concentração nos dois nomes é evidente, assim como o obstáculo enfrentado por ambos: 45% dos entrevistados rejeitam Lula e o mesmo percentual rejeita Flávio.

É uma disputa que também mobiliza pelo receio da vitória adversária. Em reportagem do El País publicada em 2 de outubro, o motorista João Costa, de 28 anos, descreveu sua preferência por Flávio como a escolha do “mal menor”, em tradução da declaração. Já Elza Mendes, trabalhadora da limpeza no Rio de Janeiro, relatou dúvidas e afirmou que decidiria diante da urna. Os relatos não representam todo o eleitorado, mas expõem dois comportamentos que as campanhas precisam compreender: o voto defensivo e a decisão adiada.

No Tocantins, a competição também passou pelos tribunais. Registros publicados pelo Diário Tocantinense apontam decisões liminares sobre publicações que associavam uma escola em Natividade a recursos destinados por Dorinha e sobre o impulsionamento pago de conteúdo de Vicentinho contra a adversária. O desfecho posterior dessas ações não foi confirmado no material consultado. Não cabe apresentá-las como condenações criminais definitivas. Cabe reconhecer que a responsabilidade pela comunicação é parte da disputa democrática, não um detalhe externo à campanha.

Os registros policiais nacionais exigem o mesmo rigor. Em Roraima, a PF informou que a Operação Gubbio, de 2 de outubro, decorreu de uma ação que resultou na prisão em flagrante de 22 pessoas durante apuração de suposta compra de votos. Em Manaus, duas pessoas foram presas e R$ 1,64 milhão foram apreendidos após saques bancários, com origem e destinação dos recursos sob investigação. São ocorrências relevantes, mas não autorizam condenar antecipadamente envolvidos nem associar candidaturas tocantinenses a fatos registrados em outros estados.

Não foi obtido, para este editorial, um balanço policial consolidado e atualizado do Tocantins. Essa lacuna impede apresentar uma contagem completa, mas não deve ser confundida com inexistência de ocorrências. Informação responsável exige reconhecer o que está comprovado e o que ainda precisa de apuração.

A posição do Diário Tocantinense é clara: pesquisa merece atenção, denúncia exige investigação e decisão judicial precisa ser apresentada conforme seu alcance. Nenhum desses elementos deve ser convertido em instrumento para fabricar vencedores ou culpados.

O Tocantins chega à votação com Dorinha em posição favorável no levantamento examinado e Vicentinho mantendo uma base eleitoral relevante. O Brasil chega com Lula numericamente à frente no Datafolha e Flávio competitivo em uma disputa marcada por rejeição elevada. São posições de partida, não resultados. Neste domingo, o comparecimento e a escolha do eleitor definirão quais certezas da campanha resistem à apuração

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