“Vai retroalimentando a fila do especialista”: por que o atendimento no SUS demora?

“Vai retroalimentando a fila do especialista”: por que o atendimento no SUS demora?
Ricardo Fernandes AlmeidaPor Ricardo Fernandes Almeida 7 de outubro de 2026 9

A demora para conseguir consulta, exame ou cirurgia no SUS não tem uma única explicação. A oferta de profissionais e equipamentos, a capacidade de resolver problemas na atenção básica e a organização dos encaminhamentos interferem no tempo de espera. Para pacientes do Tocantins, o percurso pode envolver a unidade municipal, a regulação e um hospital regional antes da conclusão do tratamento.

O especialista em saúde coletiva e professor da Universidade Federal Fluminense Túlio Batista Franco chama atenção para o início dessa cadeia. “Se a atenção básica não é resolutiva, ela vai retroalimentando a fila do especialista”, afirmou em entrevista ao podcast Repórter SUS, da Escola Politécnica de Saúde Joaquim Venâncio, da Fiocruz. A avaliação foi registrada na entrevista publicada pela instituição.

Na avaliação do professor, ampliar consultas especializadas sem melhorar a capacidade de atendimento na atenção básica pode fazer a demanda voltar a pressionar a rede. Ele defende uma organização que conecte os diferentes níveis de cuidado e aproveite melhor a estrutura disponível. A análise ajuda a compreender por que a abertura de vagas isoladas não encerra, necessariamente, o problema.

A fila de uma cirurgia eletiva também é diferente da espera em uma unidade de urgência. No atendimento programado, o paciente depende da avaliação, do encaminhamento e da disponibilidade do serviço. Na urgência, a equipe considera o risco clínico. Comparar somente a ordem de chegada ou a quantidade de pessoas na sala de espera pode esconder critérios e dificuldades distintos.

Uma pessoa pode conseguir a primeira consulta e continuar aguardando exames, retorno ou procedimento. Por isso, avaliar a rede exige observar o percurso completo. O número de atendimentos realizados precisa ser acompanhado do tempo entre o pedido e a conclusão do cuidado, além da demanda que permanece pendente.

O Ministério da Saúde informou, em setembro, que as carretas do programa Agora Tem Especialistas ultrapassaram um milhão de procedimentos no país. O balanço apresenta 120 unidades móveis: 63 de saúde da mulher, 42 de exames de imagem e 15 de oftalmologia. Trata-se de produção nacional, sem equivalência automática com o número de pacientes ou com os atendimentos realizados no Tocantins. Os números constam no balanço divulgado pela pasta.

O resultado de uma ação desse tipo precisa ser observado no território. É necessário saber quais municípios receberam os serviços, quantos pacientes concluíram o atendimento e quanto o tempo de espera foi reduzido. Um balanço brasileiro, sozinho, não permite afirmar que determinada fila estadual foi zerada.

O financiamento também faz parte da discussão. O SUS é mantido por recursos públicos da União, dos estados e dos municípios. A cobrança por qualidade deve considerar como o dinheiro é aplicado em equipes, estrutura, contratos e regulação, além dos resultados entregues à população.

Para quem aguarda um procedimento, reunir o protocolo do pedido, a data do encaminhamento e as informações recebidas pela unidade facilita o acompanhamento. A rede responsável pode esclarecer se o pedido foi inserido, se faltam documentos e qual é o fluxo para atualização da situação.

No Tocantins, uma avaliação completa da demora depende de dados sobre filas por procedimento, disponibilidade de especialistas e tempo de espera. Sem esses indicadores, contar consultas realizadas mostra uma parte do atendimento, mas não revela quantas pessoas continuam aguardando nem há quanto tempo.

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