Duas folgas e jornada menor: como o fim da escala 6×1 muda a vida de quem trabalha e de quem emprega

Duas folgas e jornada menor: como o fim da escala 6×1 muda a vida de quem trabalha e de quem emprega
Ricardo Fernandes AlmeidaPor Ricardo Fernandes Almeida 16 de outubro de 2026 6

Ter dois dias de descanso por semana e trabalhar menos horas sem redução salarial é a mudança central do texto sobre o fim da escala 6×1 aprovado pelo Congresso. Para transformar a alteração em rotina, empregados e empresários terão de reorganizar horários, turnos, atendimento e distribuição das equipes.

A escala 6×1 corresponde a seis dias de trabalho para um de descanso. A alteração prevê dois dias de repouso semanal e uma transição para a jornada máxima de 40 horas, conforme o material explicativo publicado pela Câmara dos Deputados. A Agência Câmara informou, em 15 de outubro, que a sessão de promulgação estava marcada para esta sexta-feira, 16, às 9h. O início dos prazos depende da publicação da emenda, de modo que a confirmação desse ato precisa acompanhar a atualização das regras.

Segundo o quadro de transição divulgado pela Câmara, dois meses após a publicação passam a valer os dois dias de repouso e o limite de 42 horas semanais. Um ano e dois meses depois da publicação, a jornada máxima chega a 40 horas.

Na prática, dois dias de folga não significam que todos os trabalhadores descansarão necessariamente aos sábados e domingos. Atividades que funcionam durante toda a semana podem organizar o repouso por revezamento, observadas as regras aplicáveis.

Para quem trabalha no comércio, em restaurantes ou em outros serviços com atendimento diário, a principal mudança será a distribuição dos dias de presença e descanso. O empregado deverá conferir a escala comunicada pela empresa e as disposições coletivas de sua categoria.

Uma loja que abre sete dias por semana, por exemplo, não precisa fechar durante dois dias para permitir o descanso da equipe. Pode distribuir folgas entre os empregados, desde que preserve os direitos e os limites de jornada. Esse é um exemplo de organização, e não uma determinação única para todos os estabelecimentos.

Para o empregador, o primeiro passo é calcular quantas pessoas são necessárias em cada horário. A análise deve considerar os períodos de maior movimento, o intervalo de atendimento, as funções indispensáveis e a cobertura das ausências.

Em alguns negócios, a adaptação pode envolver contratação. Em outros, pode exigir redistribuição de atividades ou mudanças nos horários de funcionamento. Não há um efeito uniforme sobre empresas de portes e setores diferentes.

O economista Hélio Zylberstajn, professor da Faculdade de Economia, Administração, Contabilidade e Atuária da USP, avaliou em entrevista publicada pelo Jornal da USP, em junho, que a passagem de 6×1 para 5×2 pode produzir impacto maior que a redução isolada das horas. Ele defendeu negociação e um período de adaptação.

O debate também envolve evidências sobre saúde e bem-estar. Um estudo publicado em 2025 na revista Nature Human Behaviour acompanhou 2.896 empregados de 141 organizações em seis países durante uma experiência de redução do tempo de trabalho.

Assinada por Wen Fan, Juliet Schor, Orla Kelly e Guolin Gu, a pesquisa analisou uma semana de quatro dias sem redução salarial, precedida por reorganização das atividades. Os resultados apontaram melhorias em esgotamento, satisfação profissional e saúde física e mental.

A experiência estudada não é idêntica à mudança brasileira. Seus resultados ajudam a discutir a redução do tempo de trabalho, mas não garantem que todas as empresas ou categorias terão os mesmos efeitos.

A Organização Mundial da Saúde e a Organização Internacional do Trabalho também relacionaram jornadas muito prolongadas a riscos à saúde. Em comunicado de 2021, a médica Maria Neira alertou para o perigo de trabalhar 55 horas ou mais por semana. Esse recorte de horas não deve ser confundido automaticamente com qualquer escala 6×1.

Para o trabalhador, mais tempo de descanso pode abrir espaço para convívio familiar, estudo e cuidados pessoais. Para a empresa, o desafio é preservar o atendimento e a produção com uma organização compatível com os novos limites.

A aplicação deve observar o texto promulgado, a data de publicação, o calendário de transição e as regras específicas. A mudança de escala exige planejamento documentado, para que a redução da jornada se traduza em descanso efetivo.

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