E se a voz acabar no meio do show? Maestro revela riscos enfrentados por cantores

E se a voz acabar no meio do show? Maestro revela riscos enfrentados por cantores
Maestro Cláudio Elísio revela os desafios da preparação vocal e os riscos enfrentados por cantores profissionais (Foto: Acervo pessoal)
Fernanda CappellessoPor Fernanda Cappellesso 18 de outubro de 2026 4

Cláudio Elísio explica por que artistas experientes enfrentam exaustão vocal, perdem resistência entre apresentações e precisam adaptar a maneira de cantar ao longo da carreira.

Imagine pagar ingresso para assistir ao show de seu cantor preferido e descobrir que ele já subiu ao palco com dificuldades para cantar. O artista começa a apresentação, alcança as primeiras notas e tenta manter o desempenho que o tornou conhecido. O que o público nem sempre percebe é que, por trás daquela voz, podem existir cansaço, limitações técnicas e uma preocupação constante com a próxima apresentação.

A situação não é apenas hipotética. Em entrevista à jornalista Fernanda Cappellesso, o maestro e preparador vocal Cláudio Elísio relatou experiências com cantores profissionais que enfrentaram dificuldades para manter o desempenho entre shows.

Com atuação na preparação vocal de artistas como Marcelo Martins, Fred & Fabrício, Henrique & Diego e integrantes da banda Malta, o maestro afirma que uma voz potente não significa necessariamente uma voz preparada para suportar longas apresentações.

“Tem cantor que me procura porque eles estão cansados, eles já estão sentindo fadiga crônica”, relatou.

A questão também merece atenção no mercado de shows do Tocantins, onde apresentações de sertanejo, forró e outros estilos musicais integram a programação de eventos públicos, festas regionais e apresentações particulares.

Segundo Cláudio, a rotina profissional exige que os artistas compreendam os limites da própria voz e adaptem suas técnicas ao longo dos anos.

Cantor pode perder a voz mesmo depois de anos de carreira

O maestro lembra que experiência e sucesso não impedem o surgimento de limitações vocais.

Um dos episódios relatados envolve Luiz Cláudio, da dupla Luiz Cláudio & Juliano. Segundo o preparador, o artista enfrentava dificuldades para manter a resistência vocal entre apresentações.

“Ele estava tendo algumas dificuldades em relação à manutenção da sua voz”, contou.

Cláudio explicou que o cantor se cansava rapidamente e, em algumas ocasiões, já apresentava dificuldades no dia seguinte a um show.

O público, entretanto, não percebia a situação.

Para o maestro, casos como esse demonstram a necessidade de adaptar o treinamento ao longo da carreira.

A técnica utilizada por um artista aos 20 anos pode precisar de ajustes quando ele chega aos 40, 50 ou 60. A resistência, o repertório e a maneira de executar determinadas notas exigem atenção.

“A voz é um instrumento de manutenção contínua”, afirmou.

O erro que pode transformar potência em desgaste

Um dos principais equívocos apontados por Cláudio está na tentativa de confundir força com potência vocal.

Segundo ele, alguns cantores pressionam excessivamente a musculatura envolvida na produção da voz para alcançar notas agudas ou reproduzir o timbre de outros artistas.

O resultado pode ser uma voz aparentemente forte, mas produzida com esforço desnecessário.

Cláudio utiliza a expressão “menos massa, mais timbre” para explicar sua proposta de treinamento.

O objetivo é obter o timbre desejado com o menor esforço possível, respeitando as características individuais de cada cantor.

O maestro explica que a sobrecarga pode provocar cansaço, rouquidão e limitações durante uma apresentação.

Em determinados casos, o artista consegue executar uma música, mas encontra dificuldades para manter o mesmo desempenho nas seguintes.

A preparação vocal busca desenvolver controle sobre esses recursos e permitir que o profissional reconheça os próprios limites.

O sofrimento que o público não vê

A pressão sobre os cantores não se limita à resistência física. Segundo Cláudio, o desconhecimento sobre a própria voz pode provocar insegurança e medo de falhar.

Muitos artistas desenvolvem a carreira com base na intuição. Conseguem cantar, alcançam notas difíceis e conquistam o público, mas nem sempre compreendem os mecanismos utilizados para produzir determinados sons.

Quando surgem dificuldades, a falta de conhecimento técnico pode ampliar as preocupações.

O maestro relata que alguns profissionais chegam às aulas depois de experiências negativas, críticas e tentativas frustradas de aperfeiçoamento.

Em determinadas situações, o medo de errar dificulta a aprendizagem de novas técnicas.

Para Cláudio, compreender o funcionamento da voz representa uma maneira de desenvolver confiança e reduzir a dependência da intuição.

O profissional também critica a tentativa de reproduzir timbres de outros cantores sem respeitar as características individuais.

“Eu sou um tipo de professor que eu gosto que o aluno aprenda a gostar da própria voz”, declarou.

Por que cantores famosos continuam fazendo aulas?

Marcelo Martins, ex-integrante da dupla João Lucas & Marcelo, foi um dos primeiros artistas nacionais atendidos pelo maestro Cláudio Elísio (Foto: Acervo pessoal)
Marcelo Martins, ex-integrante da dupla João Lucas & Marcelo, foi um dos primeiros artistas nacionais atendidos pelo maestro Cláudio Elísio (Foto: Acervo pessoal)

O maestro explica que o sucesso profissional não elimina a necessidade de treinamento.

Mesmo artistas experientes precisam corrigir aspectos relacionados à afinação, respiração, timbre, interpretação e resistência vocal.

A diferença entre um iniciante e um cantor profissional está na complexidade dos ajustes necessários.

Enquanto um aluno pode apresentar dificuldades evidentes para alcançar determinada nota, um artista consagrado pode executar a mesma nota com precisão, mas utilizar esforço excessivo.

Nesses casos, o trabalho do preparador pode produzir mudanças pouco perceptíveis para o público.

A evolução aparece na capacidade de cantar com menos tensão e manter o desempenho durante apresentações consecutivas.

Cláudio compara a preparação vocal ao treinamento esportivo.

“O cantor é um atleta. Só que da voz, e todo atleta precisa de um treinador”, afirmou.

Segundo ele, músicos podem permanecer duas, três ou quatro horas no palco e precisam preparar a voz para suportar essa demanda.

Uma alteração vocal pode comprometer apresentações e exigir mudanças na agenda, especialmente quando existe uma sequência de shows.

O maestro explica que a preparação precisa considerar a demanda específica de cada artista. O treinamento para uma gravação em estúdio não é necessariamente igual ao necessário para uma apresentação prolongada.

Além disso, mudanças de repertório e de estilo musical podem exigir adaptações técnicas.

Cláudio relata que já trabalhou com cantores que migraram do rock para o sertanejo e com artistas que fizeram o caminho contrário.

Segundo ele, cada gênero apresenta características próprias de interpretação, timbre e emissão vocal.

De gago e desafinado a preparador de artistas nacionais

A trajetória de Cláudio Elísio também revela uma relação pessoal com as dificuldades da voz.

Criado em Pirenópolis, Goiás, ele convive com a gagueira desde a infância. Quando começou a estudar música, por volta dos 15 ou 16 anos, também apresentava problemas de afinação.

“Desde criança eu sofro com a gagueira, então eu sempre tive uma dificuldade de comunicação, e isso afetava profundamente a minha segurança”, contou.

O contato com a música ocorreu durante atividades de uma igreja evangélica.

Na adolescência, recebeu críticas de colegas por suas dificuldades para cantar.

“Nossa, mas você é ruim, hein? Você é ruim demais”, recordou.

O desejo de melhorar levou Cláudio a estudar técnica vocal. A professora Maria Ângela teve participação importante nesse processo ao ajudá-lo a reconhecer e reproduzir notas musicais.

Antes de consolidar a carreira, trabalhou como ajudante de pedreiro, serralheiro e gesseiro, vendedor e empacotador.

Em Itaberaí, chegou a reunir mais de 60 alunos ativos.

Posteriormente, ampliou sua atuação para a preparação de artistas com projeção nacional.

Entre eles está Marcelo Martins, cantor e compositor que integrou a dupla João Lucas & Marcelo, responsável pelo sucesso “Eu Quero Tchu, Eu Quero Tcha”.

Marcelo foi um dos primeiros artistas de alcance nacional atendidos pelo maestro.

“Com certeza, a partir do Marcelo Martins ali, as coisas foram ganhando outros rumos”, afirmou.

Atualmente, Cláudio também utiliza as redes sociais para compartilhar conhecimentos sobre técnica vocal e explicar diferenças entre potência, volume e esforço.

Para ele, o treinamento não deve modificar indiscriminadamente a identidade artística de um cantor, mas ajudá-lo a desenvolver controle sobre suas características.

A experiência de quem começou com dificuldades para falar e cantar se transformou em uma carreira dedicada ao aperfeiçoamento de outras vozes.

E o aprendizado que o maestro procura transmitir aos artistas é que alcançar uma nota alta pode impressionar o público, mas conseguir repetir esse resultado com controle é fundamental para manter uma carreira.

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