Machismo na política: pesquisas reforçam debate sobre mulheres, poder e coerência no Tocantins

Machismo na política: pesquisas reforçam debate sobre mulheres, poder e coerência no Tocantins
Imagem ilustrativa. A fotografia representa o impacto emocional vivido por mulheres após episódios de violência familiar e debates públicos que reforçam julgamentos e estigmas sociais.
Ricardo Fernandes AlmeidaPor Ricardo Fernandes Almeida 27 de outubro de 2026 8

Mulheres de diferentes idades, profissões e posições políticas enfrentam violência doméstica, ameaças e tentativas de silenciamento no Brasil. Algumas histórias alcançam repercussão nacional, como a de Maria da Penha; outras permanecem restritas às famílias, aos serviços de atendimento e aos registros policiais. No Tocantins, os relatos apresentados por Professora Dorinha durante a campanha e a divulgação de documentos referentes a Carina Leão Oliveira trouxeram situações distintas para o debate público sobre respeito, proteção e tratamento às mulheres.

A dimensão nacional do problema aparece na Pesquisa Nacional de Violência contra a Mulher de 2025, realizada pelo DataSenado em parceria com o Observatório da Mulher contra a Violência. O levantamento estimou que 27% das brasileiras de 16 anos ou mais já sofreram violência doméstica ou familiar provocada por um homem ao longo da vida. Além disso, 94% das entrevistadas consideraram o Brasil pouco ou muito machista.

A pesquisa ouviu 21.641 brasileiras, por telefone, entre 16 de maio e 8 de julho de 2025. A amostra é probabilística, com nível de confiança de 95% e margem de erro média de 0,69 ponto percentual para estimativas gerais. Esses números retratam uma realidade nacional e não devem ser apresentados como estatística específica do Tocantins.

Entre as trajetórias que transformaram o enfrentamento à violência no país está a de Maria da Penha Maia Fernandes. Em 1983, ela sobreviveu a duas tentativas de assassinato praticadas pelo então marido. Um tiro enquanto dormia a deixou paraplégica. Sua longa busca por justiça, somada à mobilização de organizações de mulheres, contribuiu para a criação da Lei nº 11.340, sancionada em 7 de agosto de 2006 e conhecida como Lei Maria da Penha.

A história demonstra por que ouvir mulheres, investigar denúncias e oferecer proteção são responsabilidades permanentes. Também recorda que uma mudança legal, por mais importante que seja, precisa ser acompanhada de atendimento, prevenção e resposta efetiva das instituições.

No Tocantins, a campanha eleitoral terminou, mas deixou questões que precisam ser examinadas. Dorinha afirmou ter enfrentado desrespeito e intimidação nos debates. Em outro episódio, a Secretaria da Segurança Pública confirmou a autenticidade de dados documentais de 2009 referentes a Carina Leão Oliveira, então esposa de Vicentinho Júnior. Os registros e a manifestação da SSP repercutiram no portal LeoDias e em diferentes veículos de comunicação.

Esses episódios não são equivalentes e não permitem uma conclusão única sobre seus envolvidos. O relato de constrangimento de uma candidata e uma denúncia de violência doméstica possuem circunstâncias e formas de apuração próprias. Sua presença neste editorial serve para discutir a necessidade de escuta, esclarecimento e respeito, preservando as diferenças entre os casos.

Na coletiva de 24 de outubro, Dorinha declarou: “Não tem ameaça nem pendrive que me faça calar”. A senadora se referia a menções que, segundo ela, o adversário havia feito à existência de um dossiê e de informações que poderiam ser divulgadas. Dorinha interpretou a postura como tentativa de intimidação.

No debate de 22 de outubro, ela também reclamou da maneira como vinha sendo tratada. “Como mulher, me sinto desrespeitada por muitas vezes nesse tratamento que recebo do candidato”, afirmou. Na ocasião, recordou que teria sido chamada de “ressentida, amargurada e agressiva” em um encontro anterior.

O confronto ocorreu em meio a cobranças sobre regularização fundiária e resultados administrativos. Questionar propostas, experiência e atuação parlamentar faz parte de uma disputa democrática. A reclamação de Dorinha, entretanto, alcançou a forma dessas cobranças e o uso de expressões que, em sua avaliação, desqualificavam sua postura como mulher.

Na coletiva, a candidata também afirmou que se sentia ignorada quando o adversário direcionava suas manifestações a integrantes do grupo político que a apoiava. Esse relato merece reflexão: uma mulher que disputa o comando do Estado precisa ser reconhecida como responsável pelas próprias propostas, decisões e posições.

A trajetória partidária de Dorinha também deve ser apresentada com precisão. Ela foi eleita deputada federal pelo Democratas e chegou ao Senado pelo União Brasil, criado pela fusão do DEM com o PSL. Essa continuidade não corresponde a uma troca individual de legenda por conveniência eleitoral. Já a afirmação de que uma liderança nunca mudou de lado exige examinar suas alianças, votações e compromissos ao longo do tempo.

Reduzir uma trajetória aos rótulos de petista ou bolsonarista empobrece a discussão quando substitui o exame dos fatos. O eleitor tem o direito de comparar posições, identificar continuidades e cobrar explicações sobre mudanças. Esse critério precisa alcançar homens e mulheres com o mesmo rigor.

Em relação a Carina Leão Oliveira, a SSP confirmou, em 23 de outubro, a autenticidade dos dados do Memorando nº 624/2009, de 3 de maio, e do Laudo de Exame de Corpo de Delito — Lesão Corporal nº 02.1079.05.09, de 4 de maio de 2009, emitido pelo IML de Palmas.

Os documentos registram um relato de agressão atribuído a Carina e lesões identificadas pela perícia. A Secretaria informou que os dados divulgados correspondiam aos registros originais mantidos pela instituição. A confirmação diz respeito à autenticidade documental, sem estabelecer, isoladamente, a autoria das lesões ou equivaler a uma condenação criminal.

Vicentinho negou a agressão, e Carina também contestou publicamente a acusação. Segundo o secretário da Segurança Pública, ao que constava nos dados disponíveis, não houve instauração de inquérito policial sobre o episódio. Esses elementos precisam ser apresentados juntos para permitir que o leitor compreenda o que foi confirmado, o que foi contestado e o que permanece sem conclusão.

A repercussão no portal LeoDias e em outros veículos ampliou a visibilidade do caso. A quantidade de publicações, contudo, não constitui prova adicional de autoria. O interesse público está nos registros, nas manifestações dos envolvidos e nos esclarecimentos das instituições.

A participação das mulheres na política tocantinense também tem sido objeto de pesquisa. Em dissertação apresentada à Universidade Federal do Tocantins em 2022, Célem Guimarães Guerra Júnior, sob orientação de Oneide Perius, analisou a sub-representação feminina nas eleições para vereador de 2012, 2016 e 2020.

O trabalho examinou estruturas partidárias, candidaturas fictícias e a aplicação das cotas de gênero. Concluiu que a representação feminina não avançou na velocidade e na qualidade esperadas e destacou a existência de múltiplas causas. Entre os caminhos propostos estão conscientização social, enfrentamento às candidaturas fictícias e maior responsabilidade dos partidos.

Essas pesquisas oferecem contexto, mas não explicam automaticamente o resultado de uma eleição. A derrota de uma mulher não demonstra que todos os votos contrários foram motivados por machismo. Da mesma forma, o resultado das urnas não torna irrelevantes os relatos de desrespeito apresentados durante a campanha.

Na mensagem encaminhada à redação e identificada como sendo de João Augusto, a avaliação de que o Tocantins é machista expressa uma opinião que merece debate. A contribuição deste editorial é aprofundar a discussão com registros e pesquisas, preservando a diferença entre manifestação pessoal, evidência documental e conclusão comprovada.

O Tocantins ganha quando mulheres podem disputar e exercer o poder com igualdade de condições. Ganha quando denúncias recebem tratamento responsável e quando trajetórias são avaliadas por propostas, decisões e resultados. Perde quando normaliza humilhações, silenciamento ou julgamentos diferentes conforme o gênero de quem ocupa a tribuna.

As pesquisas mencionadas são trabalhos publicados, sem representar entrevistas ou posicionamentos institucionais da UFT sobre a campanha de 2026. O compromisso é ouvir, verificar e permitir o contraditório, mantendo o respeito às mulheres como uma responsabilidade permanente.

O Diário Tocantinense mantém espaço aberto para manifestações de Professora Dorinha, Vicentinho Júnior, Carina Leão Oliveira, seus representantes e da Secretaria da Segurança Pública do Tocantins sobre os episódios abordados. Esclarecimentos, documentos e eventuais correções poderão ser incorporados ao texto, respeitando o contraditório, a privacidade e a decisão de cada envolvido de se pronunciar ou não. Pesquisadores, especialistas e representantes de movimentos de mulheres também podem contribuir para o debate.

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