Após boom do Ozempic, novas drogas e terapias ganham espaço no combate à obesidade e ao diabetes no Brasil
O Ozempic, medicamento à base de semaglutida usado inicialmente para o tratamento do diabetes tipo 2, tornou-se uma febre global após estudos apontarem seu potencial para redução de peso. Mas, com a alta procura, que resultou em escassez e preços elevados, especialistas indicam que novas drogas e terapias estão ganhando espaço no Brasil para tratar obesidade e diabetes, tanto no setor privado quanto no Sistema Único de Saúde (SUS).
Entre as novidades, a mais destacada é a tirzepatida, vendida no país como Mounjaro (para diabetes) e Zepbound (para obesidade). Em junho de 2025, a Anvisa aprovou seu uso para controle crônico do peso em pessoas com índice de massa corporal (IMC) a partir de 30 ou de 27 com comorbidades, como hipertensão. Dados do estudo internacional SURMOUNT-1 mostraram uma perda média de 20,9% do peso corporal em 72 semanas, resultado superior ao de outras terapias disponíveis.
Outra aposta é o CagriSema, combinação experimental de cagrilintida e semaglutida, que está em fase 3 de testes no estudo REDEFINE. A droga alcançou redução média de 20,4% do peso em 68 semanas — contra 14,9% obtidos com semaglutida isolada — e deve ter pedido de registro submetido à Anvisa ainda em 2026.
No campo das alternativas orais, o orforglipron, desenvolvido pela Eli Lilly, promete resultados expressivos sem necessidade de aplicação injetável. Em testes clínicos, pacientes perderam até 12,4% do peso corporal em 72 semanas, com eficácia comparável aos medicamentos injetáveis da classe GLP-1. Sua aprovação pela FDA nos EUA é esperada para o fim de 2025, com posterior submissão ao órgão regulador brasileiro.
Além das novidades importadas, o mercado nacional se movimenta para ampliar o acesso. A farmacêutica EMS obteve autorização da Anvisa para produzir análogos de GLP-1 de uso diário, enquanto empresas como Hypera e Biomm S.A.preparam versões genéricas de semaglutida para lançamento antes da expiração da patente, prevista para 2026. A expectativa é reduzir significativamente o custo do tratamento.
No SUS, o uso de medicamentos como a semaglutida ainda é restrito, mas programas-piloto em alguns estados testam o fornecimento para pacientes com obesidade grave ou diabetes não controlado. Enquanto isso, nutricionistas e endocrinologistas reforçam que mudanças de estilo de vida — como alimentação balanceada, atividade física regular, sono adequado e manejo do estresse — continuam sendo pilares essenciais no tratamento.
Para o endocrinologista Dr. Paulo Andrade, do Hospital das Clínicas de São Paulo, a tendência é de diversificação: “Hoje não falamos mais apenas de um medicamento de referência, mas de uma gama de opções que pode ser adaptada ao perfil clínico, às comorbidades e às condições socioeconômicas de cada paciente”.
A corrida por novas soluções farmacológicas contra a obesidade e o diabetes reflete não só avanços científicos, mas também mudanças de mercado e desafios de saúde pública. E, no Brasil, o debate sobre preço, acesso e regulação deve se intensificar nos próximos anos.