Alimentos sob pressão: preços de hortaliças disparam nas centrais e acendem alerta sobre inflação regional
Dados atualizados da Conab mostram variação superior a 240% no valor da alface entre centrais atacadistas. Clima, logística e concentração de oferta explicam a volatilidade — que já pesa no bolso das famílias.
O retrato mais recente do sistema Prohort, da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), revela um mercado fragmentado. Atualizados em 3 de março de 2026, os dados apontam que a alface — produto básico da alimentação brasileira — apresenta média de R$ 12,39 em Juazeiro (BA), enquanto atinge R$ 42,63 em Bauru (SP). Em Presidente Prudente (SP), o valor médio é de R$ 42,00; em Piracicaba (SP), R$ 34,38; e em Marília (SP), R$ 24,82.
A diferença entre os extremos supera 240%.
O economista agrícola Renato Alvarenga, pesquisador independente do mercado hortigranjeiro, afirma que a oscilação não é pontual. “Hortaliças são altamente sensíveis a clima e logística. Quando há excesso de chuva em áreas produtoras ou interrupção no transporte, o efeito é quase imediato. Diferentemente de grãos, não há estoque regulador de alface. A oferta reage semana a semana”, explica.
Segundo ele, a matemática da volatilidade é simples: “Se a produção cai 15% e a demanda permanece estável, o preço tende a subir de forma proporcional ou até superior, porque o produto é perecível e não permite ajuste gradual”.
O peso do clima
Instabilidades atmosféricas recentes no Centro-Sul reduziram produtividade em parte das lavouras. Solo encharcado compromete qualidade e acelera perdas. Em regiões com menor escala produtiva, a dependência de fornecedores externos amplia a exposição a aumentos.
Dados históricos da Conab mostram que hortaliças podem registrar variações semanais acima de 20% em períodos de irregularidade climática.
A cadeia logística
Além do campo, o transporte pesa. O diesel impacta diretamente o frete. Uma alta de 10% no combustível pode elevar em até 3% o custo final do hortifrúti, segundo estimativas do setor.
Estados que dependem de abastecimento interestadual sentem o efeito com mais intensidade. O Tocantins, por exemplo, importa parte significativa das hortaliças consumidas nos centros urbanos.
O impacto na mesa
No supermercado da região sul de Palmas, a dona de casa Maria Lúcia Ferreira, 47 anos, faz contas diante da prateleira. “Semana passada eu paguei R$ 4,90 na unidade. Hoje está quase R$ 7. Parece pouco, mas quando soma tomate, cebola e verdura, pesa no fim do mês”, relata.
Para famílias de renda mais baixa, alimentos frescos representam parcela relevante do orçamento. Pequenas oscilações percentuais geram impacto direto na cesta básica informal.
Tendência ou pico temporário?
Renato Alvarenga avalia que o movimento pode ser parcialmente revertido se o clima estabilizar nas próximas semanas. “Hortaliça é ciclo curto. Se a produção se normaliza, o preço tende a corrigir rapidamente. O problema é quando eventos climáticos extremos se tornam mais frequentes. A volatilidade deixa de ser exceção e vira padrão.”
Relatórios internacionais sobre mudanças climáticas apontam aumento na intensidade de eventos extremos de chuva e calor em regiões tropicais, o que afeta culturas sensíveis.
O que observar
Especialistas indicam três sinais-chave:
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Normalização das condições climáticas nas áreas produtoras.
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Entrada de maior volume nas Ceasas.
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Estabilidade no custo do transporte.
O mercado de alimentos frescos funciona em tempo real. Não há estoque capaz de amortecer choques prolongados.
No centro da estatística está um item simples, mas essencial: a alface. O comportamento do seu preço expõe como clima, logística e renda caminham juntos — e como o equilíbrio da cadeia alimentar permanece delicado.