Comunicação vira ativo de poder para mulheres empreendedoras no sul do Tocantins

Comunicação vira ativo de poder para mulheres empreendedoras no sul do Tocantins
RicardoPor Ricardo 24 de março de 2026 1

Evento do Sebrae em Gurupi coloca linguagem, autoridade e posicionamento no centro do debate sobre liderança feminina nos negócios, em um estado onde mulheres já comandam mais de 40% das empresas.

A discussão sobre empreendedorismo feminino no Tocantins passou, nos últimos meses, a incorporar um elemento que antes aparecia como habilidade acessória e agora ocupa posição estratégica: a comunicação. Em Gurupi, essa mudança de chave ganhou forma concreta no evento Protagonismo Feminino, promovido pelo Sebrae Tocantins, que levou a escritora e palestrante Cíntia Chagas ao sul do estado para uma fala centrada em oratória, posicionamento profissional e presença executiva. O encontro ocorreu em 19 de março, no Palacius Real, e integrou uma agenda estadual voltada ao fortalecimento da atuação feminina no ambiente de negócios.

O dado que ajuda a explicar o interesse por esse tipo de debate é objetivo. Segundo levantamento divulgado pelo Sebrae Tocantins em fevereiro deste ano, mulheres lideram mais de 40% das empresas do estado. Outro recorte, também divulgado neste ciclo, aponta 76.313 empresas tocantinenses sob gestão feminina, o equivalente a 41,8% dos negócios locais, além de 67.340 mulheres à frente de empresas, o que corresponde a 42,2% do universo empresarial do estado. Em 2025, o próprio Sebrae já havia informado que havia 62 mil mulheres à frente de seus negócios no Tocantins. A diferença entre os números decorre dos critérios usados em cada levantamento, mas a tendência é a mesma: a presença feminina no comando empresarial cresceu e ganhou densidade econômica.

Nesse contexto, o evento realizado em Gurupi não se resume a uma palestra motivacional. O que ele expõe é uma mudança no próprio repertório exigido de quem empreende. Em mercados mais saturados, digitalizados e competitivos, saber vender, negociar, liderar equipe e sustentar uma marca pessoal passa, cada vez mais, pela capacidade de formular discurso, ocupar espaços de fala e construir autoridade pública. Foi esse o ponto central ressaltado na cobertura do próprio Sebrae Tocantins sobre o encontro: a ideia de que a palavra não opera apenas como ferramenta de expressão, mas como instrumento de liderança e transformação nos negócios.

A escolha de Cíntia Chagas para conduzir esse debate ajuda a entender a linha do evento. Ao anunciá-la, o Sebrae destacou sua atuação nas áreas de comunicação, liderança e posicionamento profissional, com ênfase em comunicação assertiva, desenvolvimento da oratória e construção de presença executiva. Em outras palavras, o foco não estava apenas em inspirar mulheres a empreender, mas em tratar comunicação como competência de gestão, de influência e de permanência no mercado.

Esse recorte é relevante porque o empreendedorismo feminino costuma ser narrado apenas em termos de acesso a crédito, formalização, renda e abertura de empresas. Esses fatores seguem centrais, mas não esgotam o problema. O próprio Sebrae, ao divulgar a programação de 2026 em Palmas e Gurupi, reconheceu que o avanço das mulheres no empreendedorismo continua atravessado por barreiras estruturais, como acesso restrito a crédito, redes de apoio pouco consolidadas e baixa presença em espaços de decisão. Quando a comunicação entra na agenda, ela aparece como resposta a uma dimensão menos mensurável, mas decisiva: a disputa por legitimidade, visibilidade e autoridade.

No plano nacional, essa leitura encontra respaldo em séries históricas do Sebrae. Um dos levantamentos da instituição mostrou que o número de mulheres donas de negócios no Brasil alcançou 10,3 milhões, com participação de 34,4% no universo total de empreendedores. O mesmo material indicou que 9 em cada 10 mulheres empreendedoras ainda tocam seus negócios sozinhas. Esse dado ajuda a dimensionar o peso da comunicação: quando a empresária acumula operação, atendimento, vendas, negociação e presença digital, a linguagem deixa de ser um detalhe e passa a ser parte da própria estrutura do negócio.

No caso tocantinense, os números reforçam essa guinada. Dados divulgados pela Junta Comercial do Tocantins em 2024 mostraram 79.733 mulheres empreendedoras, sócias ou administradoras no estado. Já em 2023, o Sebrae havia informado que mais de 58 mil mulheres eram donas de pequenos negócios no Tocantins, o equivalente a 28% desse universo, e que entre os MEIs elas representavam 41,47% dos registros. Comparando os levantamentos mais recentes, o que se observa é uma trajetória de ampliação da participação feminina, tanto em pequenos negócios quanto em estruturas empresariais mais amplas.

A palestra em Gurupi ganha peso justamente por ocorrer fora da capital. A interiorização dessa agenda sinaliza que o debate sobre liderança feminina deixou de ficar restrito a grandes centros e passou a dialogar com dinâmicas regionais mais amplas. Gurupi ocupa posição estratégica no sul do Tocantins, com influência econômica sobre municípios vizinhos e forte circulação de comércio e serviços. Quando o Sebrae leva para esse território uma discussão sobre protagonismo feminino ancorada em comunicação, ele não apenas promove formação, mas também reconhece que a disputa por espaço econômico no interior passa, cada vez mais, pela qualificação da presença pública das empreendedoras.

Há também um aspecto simbólico nessa escolha temática. Durante muito tempo, a comunicação feminina no ambiente profissional foi cobrada em chave disciplinadora: falar “menos”, ser “mais discreta”, evitar confronto, moderar presença. O movimento atual desloca essa lógica. A comunicação passa a ser trabalhada como técnica de liderança, não como adequação de comportamento. Ao colocar o tema no centro de um evento sobre protagonismo feminino, o Sebrae ajuda a reposicionar a linguagem como capital profissional, com impacto direto sobre negociação, comando de equipe, relacionamento com clientes e construção de reputação. Essa leitura é uma inferência analítica a partir do foco dado pelo evento às noções de oratória, presença executiva e posicionamento.

Outro ponto importante é que esse tipo de formação tende a dialogar de forma direta com o ambiente digital. Hoje, uma parcela crescente das micro e pequenas empresárias depende de redes sociais, atendimento on-line, produção de conteúdo, vídeos curtos e comunicação direta com consumidores. Nessa estrutura, saber se posicionar, escrever bem, falar com clareza e sustentar coerência narrativa se converte em vantagem competitiva. Embora o evento de Gurupi não tenha sido apresentado como capacitação digital, a ênfase em comunicação assertiva e presença profissional se conecta de forma evidente a esse ecossistema contemporâneo de negócios. Essa também é uma inferência sustentada pelo conteúdo programático divulgado pelo Sebrae.

A cobertura publicada pela Agência Sebrae de Notícias após o encontro resume esse diagnóstico ao afirmar que a comunicação esteve no centro do debate como instrumento de posicionamento e crescimento profissional. A fala atribuída à gerente do Sebrae Tocantins, Paula Alencar, reforça esse enquadramento ao associar o trabalho de comunicação ao fortalecimento da confiança, da capacidade de vender, negociar e ocupar espaços de decisão. O valor da iniciativa, nessa chave, está menos no evento em si e mais naquilo que ele revela sobre a nova gramática do empreendedorismo feminino: não basta abrir um negócio; é preciso construir voz, presença e autoridade.

No Tocantins, esse debate tem aderência concreta porque se cruza com um cenário em que o empreendedorismo feminino cresce, mas ainda convive com assimetrias persistentes. A expansão da presença de mulheres em cargos de comando empresarial não elimina os obstáculos ligados a crédito, visibilidade, carga doméstica desigual e redes de relacionamento menos consolidadas. Nesse ambiente, a comunicação aparece como ferramenta de compensação estratégica: ela não resolve sozinha as barreiras estruturais, mas amplia capacidade de influência, melhora posicionamento competitivo e fortalece poder de negociação.

O caso de Gurupi, portanto, permite uma leitura mais ampla. O que está em jogo não é apenas a presença de uma palestrante conhecida em um evento regional, mas a consolidação de um entendimento mais sofisticado sobre o que sustenta a liderança feminina nos negócios. Durante muito tempo, o empreendedorismo foi medido por abertura de CNPJ e volume de vendas. Hoje, ele também precisa ser lido pela capacidade de transformar linguagem em ativo econômico. No sul do Tocantins, esse debate já começou a ser formulado de forma explícita.

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