Bastidor : Nota de Irajá vira recado atravessado a Kátia Abreu e expõe guerra política dentro do próprio grupo familiar no Tocantins

Bastidor : Nota de Irajá vira recado atravessado a Kátia Abreu e expõe guerra política dentro do próprio grupo familiar no Tocantins
Ricardo Fernandes AlmeidaPor Ricardo Fernandes Almeida 7 de abril de 2026 4

Filiação de Kátia ao PT, longe de pacificar o cenário, abriu tensão pública com Irajá, acendeu resistências internas no partido e recolocou a ex-senadora diante de adversários com mandato, estrutura e desempenho eleitoral mais robusto

A filiação de Kátia Abreu ao PT não produziu, no Tocantins, um efeito de unidade. Produziu barulho. E o primeiro estampido veio de dentro de casa. A nota divulgada pelo senador Irajá para comentar a entrada da mãe no partido do presidente Lula foi lida nos bastidores como um gesto político de contenção, e não de acolhimento. Embora tenha elogiado Kátia e dito que sua filiação ajudaria a consolidar um palanque para Lula no Estado, Irajá usou o mesmo texto para reafirmar apoio “incondicional” à pré-candidatura de Laurez Moreira ao governo, cravando publicamente que o PSD já tem rumo próprio.

A leitura de bastidor ganhou ainda mais temperatura com a interpretação pública feita por Luiz Armando Costa, que enxergou no movimento de Irajá um recado direto para Kátia procurar outro palanque. No texto publicado nesta segunda-feira, Luiz Armando sustenta que Kátia nem havia se lançado candidata e, ainda assim, recebeu uma resposta política antecipada, como se o espaço para ela no projeto regional já estivesse previamente limitado.

É aí que o fato deixa de ser apenas partidário e passa a ser pessoal e estratégico. Porque, na prática, o que se viu foi o seguinte: Kátia entrou no PT, mas o filho, principal nome do PSD no Estado, tratou de avisar ao mercado político que o partido dele não será extensão automática desse movimento. No mundo real da política, isso vale mais do que fotografia, mais do que cerimônia e mais do que gesto protocolar. Vale como aviso público de território.

A própria filiação de Kátia já nasceu sob atrito. No plano nacional, a entrada foi articulada com apoio de Lula e anunciada sem candidatura oficialmente confirmada; no plano interno, porém, integrantes do PT no Tocantins pediram à direção nacional a anulação da filiação, alegando incompatibilidade entre a trajetória da ex-senadora e os princípios do partido. A tendência, segundo a apuração publicada, era de manutenção da adesão, mas o dado político relevante é outro: Kátia não entrou no PT por aclamação nem por unanimidade. Entrou dividindo opiniões.

Esse ponto pesa muito. Kátia chega com nome nacional, experiência e acesso a Brasília, mas chega sem mandato e carregando uma derrota pesada de 2022. Na disputa ao Senado, ela ficou em segundo lugar com 145.104 votos, ou 18,5% dos válidos, muito atrás de Professora Dorinha, que venceu com 395.408 votos, ou 50,42%. Em termos políticos, não foi uma derrota apertada, de fotografia. Foi uma derrota larga, que reduziu muito seu poder de barganha local.

Quando se olha para Irajá, a conta também não é confortável para o grupo. Na eleição para o governo em 2022, o senador teve 63.048 votos, o equivalente a 7,61%, desempenho que o deixou distante do centro real da disputa majoritária. Ou seja: se a filiação de Kátia ao PT gerou expectativa de reposicionamento, a verdade numérica é que mãe e filho chegam a esse novo momento com pesos eleitorais bem menores do que já tiveram em outros ciclos.

E é exatamente por isso que o confronto entre os dois chama tanto a atenção. Porque ele explode no instante em que nenhum dos dois está sobrando politicamente. Kátia tenta reconstruir espaço. Irajá tenta preservar o seu. E, ao invés de atuarem como ativos complementares, aparecem em rota de atrito justamente no momento em que o tabuleiro exige soma, não divisão. A impressão que fica é a de que a disputa por espaço começou antes mesmo de a candidatura existir formalmente.

Depois desse choque inicial, entram os adversários de verdade. E aí o cenário fica ainda mais duro para Kátia. O primeiro deles é Dorinha, que não apenas derrotou a ex-senadora em 2022, como segue com mandato e aparece liderando cenários recentes para o governo do Tocantins em pesquisa Real Time Big Data divulgada em março. Além disso, levantamento citado pelo Jornal Opção, com base no Radar do Congresso, indica Dorinha como a senadora tocantinense mais alinhada ao governo Lula em 2023 e 2024, com 83% de governismo. Traduzindo: Dorinha tem mandato, densidade eleitoral recente e interlocução funcional com Brasília.

O segundo adversário é Eduardo Gomes. Ele entrou no Senado em 2018 com 248.358 votos, ou 19,48%, à frente do próprio Irajá, que teve 214.355 votos, ou 16,82%. No mesmo levantamento de governismo citado acima, Gomes aparece com 63% de alinhamento ao governo federal. Isso não significa identidade política com o PT, mas significa trânsito, voto útil em pautas de interesse do Planalto e presença institucional. Em política, quem tem mandato e ponte em Brasília larga na frente de quem tenta voltar ao jogo por fora.

O terceiro nome desse xadrez é Laurez Moreira, que ganhou peso extra justamente porque foi o escolhido por Irajá na nota pública. Ao reafirmar apoio “incondicional” ao vice-governador, o senador não apenas marcou posição partidária; ele também empurrou Kátia, simbolicamente, para fora desse eixo. Na prática, a mensagem foi simples: no PSD, a prioridade já tem nome.

Por isso, o bastidor hoje é menos sobre uma possível candidatura de Kátia e mais sobre a dificuldade de ela transformar sua filiação ao PT em projeto competitivo. Sem mandato, com resistência interna no novo partido, tendo contra si o peso eleitoral recente de Dorinha, a presença institucional de Eduardo Gomes e o alinhamento de Irajá com Laurez, a ex-senadora entra no debate de 2026 muito mais como fator de tensão do que como consenso.

No fim, o que mais chama atenção não é a ida de Kátia ao PT. É o fato de que a reação mais dura não veio da oposição tradicional, mas do próprio entorno político e familiar. O recado de Irajá, lido em conjunto com o texto de Luiz Armando, transformou um gesto de filiação em crise de posicionamento. E isso, para quem tenta voltar ao centro do jogo, pode custar mais caro do que qualquer adversário externo.

O espaço segue aberto para manifestações da ex-senadora Kátia Abreu, do senador Irajá, da direção do PT e dos demais citados.

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