Da Ceasa ao supermercado: cenoura a R$ 6, feijão em alta e café oscilando expõem o novo mapa dos preços no Tocantins
Levantamentos da Ceasa-TO, Procon e Conab mostram que o preço muda do atacado à prateleira e revelam onde o consumidor sente mais pressão no bolso em Palmas e Araguaína
O preço que aparece na Ceasa nem sempre é o preço que chega ao carrinho do consumidor. E é justamente essa diferença entre atacado e varejo que ajuda a explicar por que itens básicos como cenoura, feijão, café, arroz e milho verde continuam funcionando como termômetro do custo de vida no Tocantins. Dados públicos recentes da Ceasa-TO, do Procon Tocantins e da análise da Conab em parceria com o DIEESE mostram que, enquanto alguns produtos recuam ou oscilam no atacado, outros seguem pressionando o bolso do consumidor nas gôndolas dos supermercados — e, em alguns casos, a distância entre origem e prateleira continua chamando atenção.
Na última cotação pública usada como referência na pauta, da Ceasa-TO/Palmas em 27 de março, a cenoura apareceu a R$ 6,00 o quilo, enquanto o milho verde constou como indisponível e o agrião não apareceu na planilha pública mais recente consultada. O dado, por si só, já revela um ponto importante: o mercado atacadista é sensível à oferta do dia. Quando um item some da planilha ou aparece sem cotação, isso normalmente indica falta de produto, baixa disponibilidade ou oscilação de abastecimento, o que pode pressionar o varejo nos dias seguintes. O próprio histórico público de cotações mostra que o milho verde em centrais atacadistas costuma variar com rapidez conforme safra, origem e volume ofertado.
Mas é no varejo que o impacto ganha rosto concreto. Em Araguaína, o Procon Tocantins realizou, entre 2 e 4 de fevereiro, uma pesquisa em oito estabelecimentos e encontrou uma fotografia clara da variação de preços dos alimentos básicos. O arroz tipo 1 (5 kg) apareceu entre R$ 12,49 e R$ 21,99. O café torrado e moído (250 g) variou de R$ 12,97 a R$ 17,59. O feijão carioca (1 kg) foi encontrado entre R$ 3,95 e R$ 9,19. O milho verde (170 g) ficou entre R$ 2,29 e R$ 4,89. E a cenoura, já na ponta do consumo, oscilou de R$ 4,49 a R$ 6,89. O próprio Procon informou que a variação geral dos itens pesquisados chegou a 231,10%, um retrato de como o mesmo produto pode custar muito diferente dependendo do ponto de venda.
A comparação entre os números expõe uma das distorções mais didáticas da pauta. A cenoura, por exemplo, apareceu a R$ 6,00/kg na Ceasa e, no varejo de Araguaína, foi encontrada entre R$ 4,49 e R$ 6,89. Isso mostra que o preço de atacado não é automaticamente menor do que o preço final em todos os casos. Dependendo do estoque, da origem do produto, do giro da loja, da margem aplicada e da data de reposição, o supermercado pode vender abaixo, em linha ou acima da referência do atacado consultada em outro momento. Em produtos perecíveis, especialmente hortifrúti, a lógica não é linear: ela depende de sazonalidade, perdas, transporte, armazenamento e até do poder de barganha de cada rede.
Já no caso do feijão, o movimento é mais claro do ponto de vista do bolso. Em Palmas, a análise da cesta básica de fevereiro, feita pela Conab e pelo DIEESE, mostrou que o feijão carioca subiu 2,25% em relação a janeiro. No mesmo levantamento, o arroz agulhinha caiu 4,55% e o café em pó recuou 0,67%. Ou seja: o trio mais sensível da mesa do brasileiro se comportou de forma desigual no Tocantins. O arroz deu algum alívio, o café oscilou levemente para baixo, mas o feijão voltou a subir — e isso importa porque é justamente o item que costuma ter peso simbólico e prático na percepção popular de inflação.
O número geral da cesta em Palmas reforça esse quadro. Em fevereiro de 2026, o custo da cesta básica na capital fechou em R$ 695,28, com queda de 0,74% na comparação com janeiro. À primeira vista, o dado sugere alívio. Mas a leitura detalhada mostra que essa redução não foi uniforme. Houve recuo em itens como banana (-9,96%), arroz agulhinha (-4,55%), açúcar cristal (-4,17%), óleo de soja (-1,16%), leite integral (-0,85%), café em pó (-0,67%), carne bovina de primeira (-0,42%) e pão francês (-0,11%). Ao mesmo tempo, outros itens subiram: tomate (4,57%), feijão carioca (2,25%), manteiga (0,94%) e farinha de mandioca (0,21%). Ou seja: a cesta caiu no agregado, mas isso não significa que o consumidor tenha sentido alívio em tudo.
É justamente essa contradição que torna a pauta forte. O consumidor ouve que a cesta caiu, mas vai ao supermercado e encontra produtos estratégicos ainda pressionados. Isso acontece porque o índice geral pode ser puxado para baixo por quedas relevantes em alguns alimentos, enquanto itens muito presentes na rotina seguem em alta. É o caso do feijão, que tem peso psicológico e alimentar maior do que seu percentual isolado sugere. Em um estado onde a renda média ainda é pressionada pelo custo de alimentos e transporte, pequenas altas em produtos básicos são sentidas com força.
O café é outro bom exemplo desse novo mapa de preços. Em Palmas, ele recuou 0,67% na cesta básica de fevereiro. Mas, no varejo de Araguaína, a pesquisa do Procon mostrou que o pacote de 250 gramas variava de R$ 12,97 a R$ 17,59. Isso significa que, mesmo quando o indicador aponta leve queda média, a experiência concreta do consumidor continua marcada por diferença entre redes, marcas e bairros. Na prática, a sensação de “café caro” permanece porque a variação entre pontos de venda segue alta, e o consumidor nem sempre acessa o menor preço.
No caso do milho verde, o contraste é ainda mais pedagógico. A ausência do produto na referência pública mais recente da Ceasa consultada para a pauta sugere uma janela de baixa oferta ou indisponibilidade naquele momento específico. No varejo de Araguaína, porém, ele apareceu nas prateleiras entre R$ 2,29 e R$ 4,89 na embalagem de 170 g. Esse tipo de descompasso mostra que o supermercado pode trabalhar com estoque anterior, fornecedor alternativo, produto industrializado ou outra cadeia de abastecimento. Ou seja: quando o item some ou encarece no atacado in natura, ele pode continuar aparecendo no varejo em formatos diferentes, muitas vezes com preço mais alto por unidade proporcional.
Do ponto de vista jornalístico, o que os números revelam é que o Tocantins vive hoje uma inflação de percepção fragmentada. Não há uma alta linear em tudo, mas há uma combinação de fatores que mantém o consumidor em alerta: grande variação entre estabelecimentos, oscilações entre atacado e varejo, sazonalidade em hortifrúti, alta pontual em itens sensíveis e uma cesta básica que até recua no agregado, mas não necessariamente alivia o cotidiano de quem compra semana a semana.
A principal lição para o leitor é simples: Ceasa não é supermercado. O preço do atacado é referência de origem e disponibilidade. O preço do varejo é resultado de logística, perdas, margem comercial, escala, estoque, embalagem, marca e localização. Entre um ponto e outro, entram frete, refrigeração, quebra de mercadoria, impostos, armazenamento e a própria estratégia de precificação de cada rede. É por isso que um alimento pode sair de um valor na central de abastecimento e chegar muito diferente à mesa do consumidor.
No caso do Tocantins, essa diferença se torna ainda mais relevante porque a geografia pesa. Distâncias logísticas, dependência de centros de distribuição, sazonalidade regional e custo de transporte ampliam a volatilidade dos alimentos. Em produtos perecíveis, isso aparece com força. Em itens industrializados, o peso maior costuma vir da estratégia comercial das redes e do repasse de custos.
O retrato mais honesto, portanto, é este: há algum alívio em parte da cesta, mas o bolso ainda não relaxou. A cenoura virou símbolo da oscilação entre Ceasa e supermercado. O feijão segue como sinal de pressão popular. O café recua no indicador, mas continua caro na percepção do consumidor. E o milho verde mostra como a oferta irregular pode distorcer o preço entre origem e prateleira.
No fim, a pauta não é apenas sobre números. É sobre como o tocantinense sente a inflação no cotidiano real: na compra pequena, no mercado de bairro, na ida ao supermercado, na comparação entre marcas e no susto de ver que, mesmo quando um índice cai, a sensação de aperto ainda continua.