Ex-presidente do BRB preso pela PF: Paulo Henrique Costa, que esteve no Tocantins em 2025 para tratar de investimentos, volta ao centro da crise do Banco Master

Ex-presidente do BRB preso pela PF: Paulo Henrique Costa, que esteve no Tocantins em 2025 para tratar de investimentos, volta ao centro da crise do Banco Master
Fernanda CappellessoPor Fernanda Cappellesso 16 de abril de 2026 0

A prisão do ex-presidente do Banco de Brasília (BRB), Paulo Henrique Costa, pela Polícia Federal nesta quinta-feira (16), recolocou no centro do noticiário nacional um dos nomes mais ligados ao avanço da crise envolvendo o Banco Master, e reacendeu um ponto que interessa diretamente ao Tocantins: o alcance político e institucional de um caso que, até poucos meses atrás, ainda se conectava a agendas oficiais de expansão, obras e novos investimentos no estado. Costa foi preso em Brasília durante a nova fase da Operação Compliance Zero, que apura suspeitas de corrupção, lavagem de dinheiro, crimes financeiros e organização criminosa em operações entre o BRB e o Banco Master.

A nova etapa da investigação elevou o peso do caso porque a decisão que autorizou a prisão preventiva foi tomada pelo ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF), a partir de elementos apresentados pela PF sobre supostas irregularidades em negócios sem lastro entre o banco público e o Master. Segundo a investigação, Paulo Henrique Costa é suspeito de ter descumprido práticas de governança para facilitar operações consideradas irregulares, em um episódio que já vinha sendo tratado como um dos capítulos mais sensíveis do escândalo financeiro que atingiu o sistema bancário nos últimos meses. A defesa do ex-presidente do BRB contesta as acusações.

O caso ganhou ainda mais gravidade após a divulgação de detalhes da decisão judicial. De acordo com informações tornadas públicas nesta quinta-feira, a PF apontou ao STF que Costa teria acertado o recebimento de R$ 146,5 milhõesem vantagens indevidas vinculadas às operações com o Banco Master, por meio de transações imobiliárias de alto padrão. Até o momento, segundo a investigação, ao menos R$ 74 milhões teriam sido rastreados. A suspeita central é de que a suposta propina teria sido usada como contrapartida para liberar operações envolvendo ativos sem lastro ou com graves falhas de conformidade. A defesa nega irregularidades e afirma que o ex-presidente não representa risco à instrução do processo.

Para o Tocantins, a prisão não é apenas mais um fato nacional. Ela recoloca sob nova luz uma agenda que teve forte simbolismo institucional em outubro de 2025, quando Paulo Henrique Costa esteve no Palácio Araguaia, em Palmas, em reunião oficial com o então governador Laurez Moreira para discutir o fortalecimento da parceria entre o Governo do Tocantins e o BRB. Na ocasião, a pauta incluía novos investimentos estratégicos, com foco em industrialização, agronegócio e infraestrutura, além do acompanhamento de obras financiadas com apoio do banco. A reunião foi divulgada oficialmente pelo governo estadual como parte do esforço para ampliar a presença do BRB no estado e consolidar projetos considerados prioritários.

Naquele encontro, o governo destacou o interesse em ampliar a presença do banco nas principais cidades tocantinenses e em estimular investimentos especialmente ligados à agroindústria. Também foram citadas, como vitrine da parceria, a duplicação da Ponte Governador José Wilson Siqueira Campos, entre Palmas e Luzimangues, e a obra da TO-080, entre Luzimangues e Paraíso do Tocantins, ambas mencionadas como intervenções com apoio financeiro do BRB. O discurso institucional, naquele momento, era de expansão, aproximação e confiança na atuação do banco como agente de desenvolvimento regional. Hoje, com a prisão do então principal executivo da instituição, essa narrativa passa a conviver com um ambiente de incerteza política e reputacional.

O impacto imediato para o Tocantins não é, por ora, de interrupção automática de obras ou de paralisação formal de contratos já estruturados. Mas a prisão de Paulo Henrique Costa reacende uma pergunta que tende a ganhar força nos bastidores: qual o tamanho do desgaste institucional sobre as agendas que estavam sendo desenhadas com o BRB e qual será a necessidade de reavaliação política dessas relações? Em casos desse tipo, o efeito costuma ocorrer em três níveis: reputacional, jurídico e operacional. O primeiro é imediato, porque toda parceria recente com o banco passa a ser relida à luz do escândalo. O segundo depende do aprofundamento da investigação e da eventual conexão entre operações específicas e os fatos apurados pela PF. O terceiro envolve a capacidade do próprio BRB de preservar governança, credibilidade e previsibilidade após a sucessão de crises.

O pano de fundo é um dos maiores abalos recentes do sistema financeiro nacional fora dos grandes bancos privados tradicionais. A Operação Compliance Zero, deflagrada inicialmente em 2025 e aprofundada em 2026, investiga um esquema bilionário envolvendo o Banco Master, com suspeitas de gestão fraudulenta, lavagem de dinheiro, corrupção e manipulação de mercado. O Banco Central já havia rejeitado, em 3 de setembro de 2025, a tentativa de compra do Master pelo BRB após meses de análise. Pouco depois, em novembro, o então presidente do BRB foi afastado pela Justiça na primeira fase da operação. Agora, com a prisão desta quinta-feira, a crise entra em um estágio mais agudo e passa a atingir diretamente a figura que conduziu a aproximação institucional do banco com diferentes estados e projetos regionais.

No plano político, o caso é sensível porque mistura banco público, relação com governos estaduais, financiamento de obras e narrativa de desenvolvimento regional. No Tocantins, onde agendas de infraestrutura e crédito institucional têm peso alto no discurso de gestão, qualquer associação com uma instituição sob investigação tende a ser observada com lupa por adversários, por órgãos de controle e pelo próprio mercado. Não se trata, neste momento, de afirmar irregularidade em projetos discutidos no estado — não há, até aqui, indicação pública de que a reunião no Palácio Araguaia ou as obras citadas estejam sob suspeita. Mas o simples fato de o principal articulador daquela agenda ter sido preso já muda o ambiente político e obriga o debate a sair do campo do anúncio e entrar no campo da cautela institucional.

Nos bastidores, a tendência é que o caso seja explorado em duas frentes. A primeira é a da oposição, que deve cobrar esclarecimentos sobre o estágio atual das tratativas e dos vínculos do estado com o BRB, especialmente em relação a novos investimentos que vinham sendo discutidos. A segunda é a da gestão, que precisará separar o que é relação institucional regular com a instituição financeira do que pertence ao universo das investigações federais envolvendo condutas individuais e negócios específicos entre o BRB e o Banco Master. Em política, esse tipo de distinção técnica existe — mas nem sempre resiste à disputa de narrativa.

A prisão de Paulo Henrique Costa também recoloca no debate uma questão mais ampla: o risco de estados e governos locais apostarem capital político em parcerias financeiras que, pouco depois, passam a enfrentar crise de governança. O problema não é apenas jurídico. É de timing, credibilidade e exposição pública. O mesmo banco que em outubro de 2025 aparecia em Palmas como parceiro de expansão e obras agora volta ao noticiário por causa de uma investigação que envolve suposta propina milionária, negócios sem lastro e decisão do STF.

No curto prazo, o que interessa ao Tocantins é menos o espetáculo da prisão e mais a resposta a uma pergunta objetiva: há algum projeto, contrato, obra, financiamento ou frente de expansão em andamento que possa sofrer revisão, atraso ou desgaste político por causa do novo capítulo da crise do BRB? Essa resposta ainda não veio de forma pública. Mas a partir desta quinta-feira, ela deixa de ser apenas uma curiosidade de bastidor e passa a ser uma questão de interesse direto para o estado.

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