Tarifas de Trump preservam carne, café e aeronaves, mas aumenta incerteza para exportadores brasileiros
Proposta de Donald Trump prevê tarifa adicional de 25% sobre parte dos produtos brasileiros; lista de exceções reduz impacto imediato sobre o agro, mas especialistas veem risco de incerteza comercial
A proposta do governo Donald Trump de aplicar uma tarifa adicional de 25% sobre parte dos produtos brasileiros acendeu alerta em Brasília, no mercado financeiro e entre exportadores, mas a lista inicial de exceções reduziu o impacto imediato sobre setores estratégicos da economia nacional.
Ficaram fora da nova taxação produtos como carne bovina, café, terras-raras, outros metais, energia e peças aeronáuticas. A exclusão desses itens foi destacada pela Reuters, que classificou a proposta como uma medida ainda sujeita a consulta pública antes de decisão final.
A tarifa é resultado de uma investigação aberta pelo Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos (USTR) com base na Seção 301 da legislação comercial norte-americana. O processo mira práticas brasileiras em áreas como comércio digital, serviços de pagamento eletrônico, tarifas preferenciais, propriedade intelectual, etanol, combate à corrupção e desmatamento ilegal.
Na prática, a medida ainda não entrou em vigor. O governo americano abriu prazo para manifestação do setor privado e marcou audiência pública antes da conclusão do processo. A decisão final deve sair até meados de julho.
Agro escapa do choque imediato das Tarifas de Trump
A principal leitura para o agronegócio brasileiro é de alívio parcial. Carne bovina e café, dois produtos de forte peso na pauta exportadora, ficaram fora da lista inicial. A exclusão evita, no curto prazo, um impacto direto sobre frigoríficos, produtores rurais, tradings e cadeias logísticas ligadas aos Estados Unidos.
Em entrevista ao Canal UOL, o ex-secretário de Comércio Exterior Welber Barral afirmou que o relatório preliminar traz uma lista longa de exceções, incluindo café, carne, alimentos, minerais e produtos para aeronaves. Segundo ele, o setor privado já se mobiliza, mas a discussão de mérito tende a ter pouco espaço nesta etapa.
Barral avaliou ainda que novas exclusões só devem ocorrer se empresas conseguirem demonstrar que determinados produtos são necessários ao consumidor ou à indústria americana e não possuem substitutos nos Estados Unidos.
A avaliação ajuda a explicar por que os produtos poupados são justamente aqueles com peso também para o mercado norte-americano. Taxar café, carne ou componentes aeronáuticos poderia elevar custos internos, afetar empresas dos EUA e pressionar preços ao consumidor.
Tocantins acompanha carne de perto
No Tocantins, o recorte mais sensível é a carne bovina. Dados do Sistema Faet/Senar apontam que, em 2024, o estado exportou US$ 73,8 milhões em produtos de origem animal para os Estados Unidos. O Tocantins aparece como o 9º maior exportador de carne bovina brasileira para o mercado americano e o segundo da Região Norte.
O mesmo levantamento mostra que a operação está concentrada em um frigorífico habilitado em Araguaína. Por isso, mesmo quando o impacto direto é limitado, qualquer mudança tarifária envolvendo os Estados Unidos tende a ser acompanhada com atenção por pecuaristas, frigoríficos e produtores rurais tocantinenses.
A permanência da carne fora da proposta inicial evita um choque imediato sobre a competitividade da proteína tocantinense. Ainda assim, o ambiente de incerteza pode influenciar contratos, planejamento de exportações e decisões de investimento.
Indústria segue exposta às Tarifas de Trump
Se o agro escapou do primeiro impacto, parte da indústria segue vulnerável. A Folha de S.Paulo informou que a tarifa pode atingir cerca de 21% do que o Brasil exporta aos Estados Unidos. O impacto maior tende a recair sobre produtos industriais e bens que não foram incluídos na lista de exceções.
A Câmara Americana de Comércio para o Brasil, a Amcham, afirmou à Folha que ainda vê espaço para negociação antes da aplicação de novas barreiras. A entidade avalia que tarifas ampliam custos, reduzem competitividade e criam obstáculos para empresas que operam nos dois mercados.
A Associated Press também destacou um ponto sensível para a narrativa americana: os Estados Unidos têm superávit comercial com o Brasil. Em 2024, segundo a agência, o saldo positivo americano foi superior a US$ 14 bilhões em bens e chegou a US$ 29,6 bilhões em serviços. Esse dado enfraquece o argumento de que o Brasil seria responsável por um desequilíbrio comercial contra Washington.
O próprio representante comercial dos Estados Unidos, Jamieson Greer, disse à Reuters que a proposta para o Brasil é “bastante diferenciada”, justamente por incluir exceções relevantes.
Incerteza vira principal efeito sobre as Tarifas de Trump
Mesmo sem atingir imediatamente carne, café e aeronaves, o tarifaço produz efeitos antes de entrar em vigor. Empresas passam a revisar contratos, exportadores recalculam riscos e governos tentam antecipar os próximos passos da relação entre Brasília e Washington.
Para o Brasil, a crise reforça a necessidade de diversificar mercados. A China, principal parceira comercial brasileira, ganha ainda mais peso nesse cenário, especialmente para commodities agrícolas, proteína animal e minerais estratégicos.
Para o Tocantins, a exclusão da carne bovina é uma boa notícia, mas não elimina o risco indireto. Em uma economia fortemente ligada ao agro, instabilidade no comércio internacional pode chegar ao campo por meio de preços, logística, câmbio e decisões de compra da indústria.
Mais do que uma disputa tarifária, o episódio mostra uma mudança no tom da relação entre Brasil e Estados Unidos. O tarifaço ainda pode ser negociado, alterado ou reduzido. Mas já deixou um recado claro: exportadores brasileiros terão de operar em um ambiente global mais instável, politizado e competitivo.