Rússia amplia ataques, Irã desafia potências e mundo volta a temer nova escalada global
O mundo voltou a olhar para dois pontos do mapa com preocupação crescente. De um lado, a Rússia intensifica ataques contra a Ucrânia e amplia ameaças direcionadas à Europa. Do outro, o Irã permanece no centro das tensões do Oriente Médio em meio a confrontos indiretos com Israel, disputas nucleares e uma região cada vez mais instável.
Separadamente, cada crise já seria suficiente para mobilizar governos, mercados financeiros e organismos internacionais. Juntas, elas formam um cenário que especialistas classificam como uma das maiores fontes de instabilidade global desde o início da guerra na Ucrânia, em 2022.
Nas últimas semanas, Moscou aumentou o volume de ataques com drones e mísseis contra cidades ucranianas. Ao mesmo tempo, Kiev passou a realizar operações cada vez mais profundas dentro do território russo, atingindo instalações militares, refinarias e estruturas estratégicas. A guerra, que entrou em seu quinto ano, deixou de ser apenas uma disputa territorial e se transformou em um conflito de desgaste entre duas nações que continuam longe de qualquer acordo de paz.
O endurecimento do discurso russo também preocupa líderes europeus. Segundo análises publicadas pelo jornal espanhol El País, autoridades e serviços de inteligência do continente observam um aumento da pressão militar e política exercida pelo Kremlin, incluindo ameaças direcionadas a países integrantes da OTAN.
O temor de uma guerra maior
Embora nenhum governo europeu fale abertamente em guerra direta entre Rússia e OTAN, o aumento dos incidentes próximos às fronteiras da aliança militar elevou o nível de alerta.
Drones, interferências eletrônicas, ataques cibernéticos e episódios de sabotagem passaram a integrar uma nova fase do conflito, conhecida como guerra híbrida. O objetivo não seria necessariamente invadir territórios, mas gerar instabilidade, testar respostas militares e aumentar a pressão política sobre adversários.
Para o cientista político e especialista em Relações Internacionais Gunther Rudzit, professor da ESPM, o cenário atual exige atenção porque reúne múltiplos focos de tensão ao mesmo tempo.
“Hoje não existe um risco imediato de uma guerra mundial nos moldes do século XX. O que existe é um ambiente internacional muito mais instável, onde conflitos regionais possuem capacidade crescente de produzir impactos globais, especialmente na economia e na segurança internacional”, avalia.
Segundo ele, a principal preocupação não está apenas nos combates, mas na possibilidade de erros de cálculo por parte das potências envolvidas.
“Quanto maior o número de atores armados atuando simultaneamente, maior também o risco de incidentes que escapem ao controle diplomático”, afirma.
Irã volta ao centro das atenções
Enquanto a guerra continua na Europa, o Oriente Médio permanece sob tensão.
O Irã segue envolvido em disputas que vão desde seu programa nuclear até o apoio a grupos armados que atuam na Faixa de Gaza, no Líbano, no Iraque e no Iêmen. A possibilidade de confrontos mais amplos envolvendo Israel e aliados iranianos continua sendo acompanhada por Washington, União Europeia e Nações Unidas.
O receio internacional não se limita à questão militar. O Oriente Médio concentra algumas das rotas energéticas mais importantes do planeta. Qualquer interrupção significativa no fluxo de petróleo pode provocar impactos imediatos sobre preços de combustíveis, transporte, alimentos e inflação.
Efeitos podem chegar ao Brasil
Embora os conflitos ocorram longe do território brasileiro, os reflexos econômicos podem ser sentidos diretamente.
A guerra na Ucrânia já provocou oscilações nos preços de fertilizantes, energia e commodities agrícolas. Uma nova escalada envolvendo Rússia ou Irã teria potencial para pressionar ainda mais os mercados internacionais.
“O Brasil não participa desses conflitos, mas está inserido na economia global. Quando petróleo, fertilizantes ou alimentos sofrem impacto, os efeitos acabam chegando ao consumidor brasileiro”, explica Rudzit.
Sem perspectivas concretas de paz na Ucrânia e com o Oriente Médio permanecendo como um dos principais focos de instabilidade do planeta, governos e mercados seguem atentos. O temor não é apenas a continuidade das guerras atuais, mas a possibilidade de que elas se conectem a disputas maiores entre as grandes potências globais.