Portelinhando Crônicas: Quando o Trabalho Não Basta

Portelinhando Crônicas: Quando o Trabalho Não Basta
João PortelinhaPor João Portelinha 12 de junho de 2026 0

Há textos que se apresentam como manifestos em defesa do país, mas que, lidos com atenção, revelam outra fidelidade. Não à nação concreta dos que acordam antes do sol, enfrentam ônibus lotados, máquinas, balcões e escritórios. A fidelidade é a uma velha lógica segundo a qual o crescimento econômico exige sempre mais sacrifícios dos mesmos de sempre.

Sob o argumento da competitividade e da modernização, reaparecem propostas que ampliam jornadas, flexibilizam direitos e reduzem garantias historicamente conquistadas. Como se o problema do Brasil fosse o excesso de proteção ao trabalho e não a persistência da desigualdade.

A história ensina que nenhuma sociedade se tornou mais justa transformando o trabalhador em peça descartável.
O desenvolvimento verdadeiro não nasce da exaustão humana, mas do equilíbrio entre produtividade, dignidade e tempo de vida.

Há uma ironia amarga em discursos que exaltam quem “acorda cedo” enquanto defendem modelos que deixam cada vez menos horas para o descanso, para a família, para o estudo e para a própria existência. Trabalhar é condição da cidadania; viver é o seu propósito.

A escravidão pertence ao passado como instituição, mas a tentação de extrair o máximo esforço pelo menor custo continua reaparecendo sob novas roupagens, novas justificativas e novos vocabulários técnicos. Mudam-se os termos; permanece a disputa entre o valor do trabalho e a lógica da exploração.

Por isso, o debate sobre jornadas, escalas e direitos não é apenas econômico. É uma discussão sobre o tipo de sociedade que desejamos construir. Uma sociedade que mede o progresso apenas pelos lucros acumulados ou uma sociedade que reconhece, no trabalhador, não apenas uma força produtiva, mas uma pessoa humana dotada de dignidade.

Toda época tem as suas encruzilhadas. E talvez a nossa consiste precisamente em decidir se o futuro será construído com mais direitos ou com menos humanidade.

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