“A linguagem daqui para frente é juros para cima”, diz Bruna ao Diário Tocantinense sobre bolsa, moedas e investimentos
A última semana trouxe novos sinais de pressão sobre os mercados globais e reacendeu o alerta para investidores brasileiros. Em análise exclusiva ao Diário Tocantinense, a especialista Bruna avaliou que o cenário internacional, puxado pelos Estados Unidos, pela perspectiva de juros mais altos e pelos efeitos do petróleo sobre a inflação, deve continuar influenciando diretamente a Bolsa de Valores, o dólar, as moedas internacionais e as decisões de investimento no Brasil.
Segundo ela, o ano de 2026 começou com expectativa de queda de juros, tanto no mercado brasileiro quanto no cenário externo. No Brasil, a redução da Selic era aguardada desde outubro do ano passado, mas o Banco Central adotou uma postura mais cautelosa diante da inflação. O primeiro corte veio apenas na reunião de março, em 0,5 ponto percentual.
O problema, segundo Bruna, foi que o cenário mudou rapidamente com o agravamento das tensões geopolíticas no Oriente Médio, que provocaram forte alta do petróleo Brent. Apenas em março, segundo a análise, o barril chegou a subir 22,5%, reacendendo preocupações sobre inflação no mundo.
“Quando a gente fala de petróleo, ele está diretamente ligado à inflação, porque é a matriz energética referencial e majoritária. Isso veio justamente no momento em que o Brasil esperava corte de juros e os Estados Unidos passavam por um movimento de transição”, afirmou Bruna ao Diário Tocantinense.
A especialista explicou que os Estados Unidos seguem como principal referência de precificação para os mercados globais. Por isso, quando os juros americanos permanecem elevados, a renda fixa dos EUA volta a se tornar atrativa, puxando fluxo de capital para fora de países emergentes, como o Brasil.
“Os Estados Unidos são donos da precificação no mundo inteiro. Se lá os juros seguem elevados, isso se torna um diferencial extremamente atrativo para o investidor”, destacou.
Esse movimento afeta diretamente a Bolsa brasileira. Com o capital global buscando segurança e rentabilidade nos Estados Unidos, o mercado local sofre pressão, especialmente em empresas mais sensíveis aos juros, como companhias de varejo, construção civil e setores que dependem mais de crédito.
Ao mesmo tempo, Bruna avalia que empresas mais sólidas, com menor endividamento e boa geração de caixa, podem continuar atraentes para investidores com visão de longo prazo.
Na avaliação dela, a Bolsa ainda pode oferecer oportunidades, mas exige mais seletividade.
“Para quem tem horizonte de longo prazo, é interessante olhar para empresas compradas, evitando ambientes mais cíclicos. Empresas que sofrem mais com o aumento dos juros tendem a enfrentar mais dificuldade, porque teremos juros ainda bastante esticados”, analisou.
No câmbio, a especialista afirma que o dólar segue em movimento lateral, mas com correções influenciadas pelas decisões do Federal Reserve, o Banco Central dos Estados Unidos. A manutenção de juros elevados nos EUA tende a fortalecer a busca por ativos americanos, o que pode pressionar moedas de países emergentes.
Esse cenário também afeta o real. A moeda brasileira pode enfrentar períodos de instabilidade conforme o mercado recalcula o diferencial de juros entre Brasil e Estados Unidos.
“O capital é finito. O mesmo investidor que aplica na Bolsa brasileira ou na renda fixa brasileira também olha para os Estados Unidos. Se lá a remuneração melhora, há uma reprecificação global”, explicou Bruna.
No Brasil, o Boletim Focus já começou a capturar parte desse movimento. A especialista destacou que as expectativas apontam para juros ainda elevados por mais tempo, com possibilidade de Selic em patamar alto até 2029.
Segundo ela, esse cenário reforça a atratividade da renda fixa, principalmente para investidores moderados ou conservadores.
“A renda fixa ainda será um carro-chefe muito atrativo para os próximos meses e anos. O mercado remunera à altura nos momentos de crise, justamente para continuar atraindo investimentos”, afirmou.
Bruna também chamou atenção para os títulos ligados à inflação, que podem ganhar relevância diante da combinação entre choque de petróleo, alimentos mais caros e incertezas climáticas.
Além do cenário internacional, a especialista citou fatores internos que podem pressionar os preços no Brasil. Entre eles, os efeitos climáticos associados ao El Niño, que podem afetar a produção agrícola, a qualidade das safras e os preços dos alimentos.
Segundo ela, o impacto pode ser diferente em cada região do país. Enquanto o Sul tende a registrar chuvas intensas, regiões do Norte e Nordeste podem enfrentar períodos mais secos e temperaturas elevadas. Já no Sudeste e Centro-Oeste, o cenário pode mesclar frentes frias com dias mais quentes.
“Agricultura e economia vão sentir. Quando há desequilíbrio entre oferta e demanda, isso bate na inflação e, consequentemente, no aumento de preços”, afirmou.
Para Bruna, o Brasil convive hoje com três pressões principais: inflação importada pelo cenário externo, efeitos do petróleo e risco climático sobre alimentos. Essa combinação reduz o espaço para cortes mais agressivos da Selic e mantém o mercado atento à postura do Banco Central.
Ela também lembrou que juros altos têm dois lados. Para quem investe, aumentam a remuneração da renda fixa. Para o governo e para a economia real, elevam o custo da dívida pública, encarecem o crédito e podem reduzir o ritmo de crescimento.
“O principal impacto é esse carrego maior da dívida pública. Juros altos remuneram o investidor, mas também aumentam o custo na ponta da dívida”, explicou.
Na prática, a análise indica que o investidor brasileiro deve continuar atento à renda fixa, ao comportamento do dólar, às decisões do Federal Reserve, à inflação de alimentos e aos próximos movimentos do Banco Central brasileiro.
A avaliação de Bruna ao Diário Tocantinense é que o momento pede cautela, carteira mais qualitativa e atenção ao perfil de risco. Para investidores que buscam estabilidade, a renda fixa permanece como destaque. Já para quem olha a Bolsa, a orientação é observar empresas mais sólidas e menos dependentes de ciclos de juros baixos.
“A linguagem daqui para frente é juros para cima. Isso não significa apenas coisa ruim. Em momentos de crise, o mercado também abre oportunidades, mas é preciso ter qualidade e segurança na carteira”, concluiu.