Editorial: Acabou a Copa, começou a eleição: Brasil e Tocantins entram na fase mais pesada da disputa de 2026
A bola parou de rolar na Copa do Mundo, mas a partir desta segunda-feira, 20 de julho, começa uma disputa ainda mais pesada no Brasil: a definição oficial dos candidatos que estarão nas urnas em outubro. O prazo das convenções partidárias segue até 5 de agosto e será nesse período que alianças, candidaturas, vagas de vice e chapas ao Senado serão confirmadas ou desmontadas.
No Brasil, o cenário nacional continua concentrado entre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o senador Flávio Bolsonaro, principal nome apresentado pelo campo bolsonarista. A pesquisa Quaest realizada entre os dias 10 e 13 de julho mostra Lula com 40% no primeiro turno e Flávio Bolsonaro com 28%. Ronaldo Caiado aparece com 4%, Renan Santos com 3% e Romeu Zema com 2%. Em uma simulação de segundo turno, Lula marca 45% contra 37% de Flávio.
Outro levantamento, produzido pela AtlasIntel/Bloomberg, também coloca Lula na frente: 46,3% contra 36,6% de Flávio Bolsonaro no primeiro turno. Renan Santos aparece com 7,8%, Ronaldo Caiado com 2,9% e Romeu Zema com 2%. Em eventual segundo turno, Lula teria 48,8%, diante de 42,3% de Flávio. As diferenças entre os institutos mostram que a eleição ainda poderá oscilar, mas a polarização nacional já está estabelecida.
VOPE coloca Dorinha na frente no Tocantins
No Tocantins, a pesquisa VÓPE/Jornal Primeira Página divulgada nesta segunda-feira apresenta a senadora Professora Dorinha Rezende, do União Brasil, na liderança da corrida pelo Governo do Estado.
Dorinha aparece com 32% das intenções de voto, seguida pelo deputado federal Vicentinho Júnior, do PSDB, com 29%. O vice-governador Laurez Moreira, do PSD, ocupa a terceira posição, com 15%. O ex-senador Ataídes Oliveira, do Novo, registra 7%, enquanto o Professor Witer, do PSOL, tem 1%.
Portanto, no placar divulgado pelo Instituto VÓPE, Dorinha está na frente. O resultado não foi apresentado como empate: Dorinha tem 32%, Vicentinho 29% e Laurez 15%. Outros 11% dos entrevistados estão indecisos e 5% afirmaram que votariam branco, nulo ou não responderam.
A pesquisa foi realizada entre os dias 11 e 16 de julho, com 1.250 eleitores de 34 municípios distribuídos pelas regiões do Bico do Papagaio, Norte, Central, Vale do Araguaia, Sul e Sudeste. A margem de erro informada é de 2,8 pontos percentuais e o nível de confiança é de 95%. O levantamento está registrado no TSE sob o número TO-07990/2026.
Na rejeição, Vicentinho Júnior aparece com 21%, Dorinha tem 19%, Laurez registra 16%, Ataídes Oliveira soma 8% e Witer chega a 7%. A rejeição será uma das principais armas da campanha, porque Dorinha e Vicentinho já ocupam praticamente todo o espaço da primeira colocação, enquanto Laurez tenta sobreviver politicamente e impedir que a eleição se transforme em uma disputa apenas entre dois projetos.
Dorinha carrega o governo, Wanderlei e uma aliança misturada
Dorinha entra na fase decisiva como candidata da continuidade. O governador Wanderlei Barbosa, presidente estadual do Republicanos, já a apresentou publicamente como sua sucessora e assumiu a responsabilidade de conduzir o grupo governista pelas regiões do Tocantins.
A chapa de Dorinha reúne antigos adversários e partidos que, no plano nacional, não caminham necessariamente juntos. De um lado está o Republicanos de Wanderlei Barbosa; de outro, o União Brasil da própria Dorinha e de Carlos Gaguim; e, no mesmo bloco, aparece o PL do senador Eduardo Gomes, que disputa a reeleição e representa o campo bolsonarista no Tocantins.
É uma verdadeira salada política: Dorinha tenta manter a identidade própria, o Republicanos quer preservar o comando estadual e Eduardo Gomes precisa defender o bolsonarismo nacional sem romper com uma candidata apoiada por integrantes de diferentes correntes políticas.
A vantagem de Dorinha é carregar a estrutura do governo, prefeitos, parlamentares e lideranças regionais. O risco é ter que responder por tudo aquilo que o Governo Wanderlei Barbosa realizou, deixou de realizar ou ainda não conseguiu concluir.
Vicentinho tenta transformar oposição em onda de rua
Vicentinho Júnior aparece com 29% e confirma que não entrou na eleição para apenas marcar posição. Ele conseguiu ultrapassar Laurez, aproximou-se da liderança e construiu uma chapa com o presidente da Assembleia Legislativa, Amélio Cayres, do MDB, como pré-candidato a vice-governador.
O grupo também apresenta o deputado federal Alexandre Guimarães, do MDB, como principal nome ao Senado. Vicentinho, Amélio e Alexandre vêm percorrendo municípios, reunindo vereadores, prefeitos e lideranças e construindo um discurso de mudança em relação ao Palácio Araguaia. Em junho, os três passaram por 13 municípios do meio-norte tocantinense.
A composição também é misturada. Vicentinho comanda o PSDB no Tocantins, enquanto Amélio e Alexandre estão no MDB, partido que nacionalmente mantém setores próximos ao governo Lula e outros ligados à centro-direita. No estado, porém, o objetivo é claro: juntar os descontentes com Wanderlei e tentar transformar a força da Assembleia, do MDB e das lideranças municipais em votos.
Vicentinho também terá que lidar com a maior rejeição entre os cinco nomes testados pela VOPE. Seus 21% de resistência mostram que ele cresceu, mas igualmente passou a ser mais atacado e observado.
Laurez tenta sobreviver à guerra dentro do próprio grupo
Laurez Moreira vive a situação mais delicada. Ele é vice-governador de Wanderlei Barbosa, participou da chapa vencedora de 2022, mas hoje se apresenta como adversário do governo do qual ainda faz parte. Ao mesmo tempo, comanda o PSD estadual e tenta preservar uma aliança com o PT.
O projeto original de Laurez previa o ex-deputado Paulo Mourão, do PT, como candidato ao Senado. Entretanto, o senador Irajá Abreu lançou Ivanete Lima como outra pré-candidata ao Senado pelo PSD, abrindo uma crise dentro do próprio partido. Ivanete declarou que pretende lutar até o fim pela candidatura, embora a vaga já tivesse sido negociada por Laurez com Paulo Mourão.
A chapa de Laurez é a mais difícil de explicar ao eleitor. O PSD nacional apresenta Ronaldo Caiado como pré-candidato à Presidência, mas uma parte do PSD tocantinense mantém relação com Lula e com o PT. Irajá diz apoiar políticas do governo federal, Laurez procura preservar Paulo Mourão, enquanto Ivanete reivindica espaço na chapa.
Essa confusão pode produzir uma aliança ampla ou implodir o grupo nas convenções. Com 15% na VOPE, Laurez ainda tem capital eleitoral, mas precisa urgentemente organizar o próprio palanque.
Ataídes Oliveira, do Novo, com 7%, e Witer, do PSOL, com 1%, apresentam posições ideológicas mais claras. Ataídes tenta atrair o eleitor liberal e insatisfeito com os grupos tradicionais. Witer busca representar a esquerda que não se sente contemplada pelas alianças entre PT, PSD e antigos adversários.
Eduardo Gomes lidera corrida pelas duas vagas ao Senado
A eleição para o Senado será ainda mais embaralhada porque cada eleitor poderá votar em dois candidatos. Na soma do primeiro e do segundo votos, que totaliza 200%, Eduardo Gomes lidera a VOPE com 36%.
Alexandre Guimarães aparece em segundo, com 25%, seguido por Carlos Gaguim, com 20%, e Vanderlei Luxemburgo, com 19%. Eli Borges registra 13%, Ronaldo Dimas tem 12%, Irajá Abreu soma 11%, Paulo Mourão aparece com 8%, Pastor Carlos Velozo tem 7%, Professor Oswaldo registra 4% e Fábio Ribeiro, 2%.
Eduardo Gomes também lidera no primeiro voto, com 23%. Alexandre Guimarães possui 11% como primeira opção e 14% como segunda, chegando aos 25%. Gaguim tem 10% em cada voto, enquanto Luxemburgo registra 9% no primeiro e 10% no segundo. Somados os dois votos, há 28% de indecisos e 15% de brancos, nulos ou entrevistados que não responderam.
Na rejeição ao Senado, Irajá lidera com 16%, seguido por Gaguim, com 15%, e Paulo Mourão, com 12%. Alexandre apresenta 9% de rejeição e Eduardo Gomes, 8%. Esses números mostram que Eduardo começa na frente, Alexandre se fortalece e Gaguim e Luxemburgo permanecem competitivos.
O voto de 2022 e o recado das ruas em 2024
Em 2022, Wanderlei Barbosa foi reeleito governador no primeiro turno com 481.496 votos, equivalentes a 58,14% dos votos válidos. Ronaldo Dimas recebeu 186.361 votos, Paulo Mourão teve 88.143 e Irajá Abreu conquistou 63.048. Naquela eleição, Laurez estava ao lado de Wanderlei como candidato a vice-governador.
Dorinha foi eleita senadora com 395.408 votos, ou 50,42% dos votos válidos. O resultado explica por que ela começa 2026 conhecida em todas as regiões e com uma base eleitoral consolidada.
Não houve eleição em 2025. O termômetro de rua mais recente é a eleição municipal de 2024, cujos resultados alimentaram todos os burburinhos políticos de 2025 e a montagem das chapas atuais.
O Republicanos elegeu 56 prefeitos no Tocantins, enquanto o União Brasil conquistou 37 prefeituras. O PP venceu em 15 municípios, o PDT em oito, o PSD em seis, o MDB em quatro, o PL e o PT em três cada um e o PSDB em dois. Nas câmaras municipais, o Republicanos elegeu 301 vereadores e o União Brasil, 290.
No entanto, o mapa municipal produziu uma contradição. Apesar de comandar o partido com maior número de prefeitos, Wanderlei não conseguiu eleger seus candidatos diretamente apoiados nas cinco maiores cidades do estado: Palmas, Araguaína, Gurupi, Porto Nacional e Paraíso do Tocantins.
Em Palmas, Eduardo Siqueira Campos derrotou Janad Valcari no segundo turno, com 78.673 votos, ou 53,03%, contra 69.684 votos de Janad. A candidata derrotada tinha o apoio de Wanderlei, Dorinha, Eduardo Gomes e grande parte das bancadas estadual e federal.
Em Araguaína, Wagner Rodrigues foi reeleito com 78,38% dos votos válidos. Em Gurupi, Josi Nunes venceu com 25.533 votos, representando 55,47%. Em Porto Nacional, Ronivon Maciel foi reeleito com 23.988 votos, ou 65,34%. Os três pertenciam a grupos que, naquele momento, não estavam integralmente submetidos ao comando do Palácio Araguaia.
Isso significa que número de prefeitos não representa transferência automática de votos. Os prefeitos possuem estrutura, vereadores, secretários e lideranças, mas o eleitor mostrou em 2024 que pode separar a eleição municipal da escolha para governador.
Haverá novas mudanças nos cargos do Palácio Araguaia?
A possibilidade existe, mas ainda não há anúncio oficial de uma reforma ampla. O governo já passou por mudanças provocadas pela desincompatibilização de auxiliares que decidiram disputar as eleições.
Fábio Vaz deixou a Secretaria da Educação para concorrer a deputado federal. Atos Gomes saiu da Secretaria de Esportes e Juventude, e Márcio Barbosa deixou o comando-geral da Polícia Militar. Kátia Chaves, Pastor Wellington, Elenil da Penha, Adriano Rodrigues e Lázaro Botelho também deixaram funções estaduais para disputar vagas de deputado federal ou estadual.
Com as convenções e a definição das chapas, novas substituições políticas podem ocorrer. Entretanto, mudança de secretário não pode ser tratada apenas como distribuição de cargos eleitorais. A obrigação do Governo do Tocantins é manter os serviços funcionando, preservar a impessoalidade e impedir que a estrutura estadual seja transformada em comitê de campanha.
Desde o início de julho estão em vigor restrições eleitorais que limitam publicidade institucional, determinados atos de pessoal e repasses de recursos. As regras buscam impedir o uso da máquina pública para beneficiar candidatos e assegurar igualdade na disputa.
O que o governo conquistou e o que ainda precisa entregar
Na saúde, existem números que o governo poderá apresentar. O total de cirurgias eletivas realizadas pelo programa federal de redução de filas passou de 8.648 em 2023 para 11.581 em 2024. O Tocantins também ganhou 404 novos leitos públicos desde 2023, ultrapassando a marca de 3 mil leitos em funcionamento.
Entre janeiro e junho de 2026, foram divulgadas 6.287 cirurgias eletivas realizadas. Também foi autorizada a construção de dois hospitais da mulher e maternidades, com investimento federal de R$ 62,7 milhões.
Mas a saúde continua sendo uma fragilidade política. A Secretaria Estadual da Saúde reconheceu recentemente uma dívida de R$ 8.055.603,67 com a cooperativa dos anestesiologistas por serviços prestados sem cobertura contratual em períodos de 2023. A existência de um sistema estadual para consulta da posição de pacientes nas filas também confirma que o desafio das cirurgias e procedimentos ainda não foi encerrado.
O governo precisa acelerar a execução das obras, melhorar o atendimento nos hospitais, reduzir definitivamente as filas, garantir medicamentos, profissionais e regularidade nos pagamentos. Também será cobrado pela situação das rodovias, pontes, escolas, segurança e capacidade de fazer os investimentos chegarem aos municípios menores.
Dorinha terá que mostrar o que pretende continuar e o que fará diferente. Vicentinho precisará provar que a mudança prometida possui equipe, recursos e viabilidade. Laurez terá que explicar por que rompeu politicamente com Wanderlei, embora tenha participado do mesmo governo. Ataídes e Witer precisarão romper a barreira da polarização estadual.
Terminada a Copa, o eleitor volta a olhar para os problemas de casa. A partir de agora, não bastará reunir multidões, prefeitos ou partidos. Será necessário mostrar proposta, coerência e capacidade de governar.
Dorinha começa na frente. Vicentinho chega forte logo atrás. Laurez luta para reorganizar o próprio grupo. Eduardo Gomes lidera para o Senado, mas Alexandre Guimarães, Gaguim, Luxemburgo e os demais nomes tornam a disputa imprevisível.
A eleição mais pesada de 2026 começou. E, no Tocantins, ninguém poderá entrar em campo contando com vitória antecipada.