Rubio pressiona China a agir sobre o Irã e leva crise do Estreito de Ormuz à mesa com Pequim
O secretário de Estado dos Estados Unidos, Marco Rubio, aumentou a pressão sobre a China para que Pequim use sua influência sobre o Irã e ajude a impedir que Teerã mantenha o controle do Estreito de Ormuz, uma das rotas mais importantes do comércio mundial de petróleo e gás.
A crise esteve no centro das discussões realizadas nesta quarta-feira, 22 de julho, durante a reunião de ministros das Relações Exteriores da Associação das Nações do Sudeste Asiático, a ASEAN, em Manila, nas Filipinas.
Rubio se reuniu por cerca de 90 minutos com o ministro das Relações Exteriores da China, Wang Yi. O encontro também abordou comércio, Taiwan, o Mar do Sul da China e a preparação de uma possível visita do presidente chinês, Xi Jinping, aos Estados Unidos em setembro.
A aproximação ocorre em meio a uma nova escalada militar entre Estados Unidos e Irã. Washington realizou a 11ª noite consecutiva de ataques contra alvos iranianos, enquanto Teerã mantém ações e ameaças contra embarcações e instalações ligadas aos Estados Unidos e seus aliados.
Dados do transporte marítimo mostraram uma nova queda no número de navios atravessando o Estreito de Ormuz. Apenas três embarcações de carga passaram pela região na terça-feira, sem registro visível de grandes petroleiros ou navios transportadores de gás natural liquefeito.
Rubio afirmou que o Irã não pode ser autorizado a controlar o estreito, cobrar tarifas para permitir a passagem de embarcações ou ameaçar navios que se recusem a aceitar as condições impostas por Teerã.
Segundo o secretário norte-americano, permitir que um país controle uma rota internacional e cobre pela passagem criaria um precedente perigoso, que poderia ser repetido em outras regiões do mundo.
A advertência foi direcionada principalmente aos países asiáticos, que dependem fortemente do petróleo e do gás transportados pelo Estreito de Ormuz.
Cerca de 20 milhões de barris de petróleo passam diariamente pelo estreito em condições normais, o equivalente a aproximadamente 25% do comércio marítimo mundial do produto. Cerca de 80% desse volume tem como destino os mercados asiáticos.
A passagem também concentra aproximadamente 19% do comércio mundial de gás natural liquefeito. Não existem rotas alternativas suficientes para substituir completamente o volume movimentado pelo local.
A China ocupa uma posição estratégica na crise por manter relações comerciais e diplomáticas com o Irã e por ser uma das principais potências consumidoras de energia do mundo.
Washington acredita que Pequim pode pressionar o governo iraniano a aceitar a liberdade de navegação e abandonar a tentativa de controlar ou cobrar pela passagem no estreito.
A pressão não significa que os Estados Unidos estejam acusando formalmente a China de participação direta nos ataques iranianos. A estratégia norte-americana é tratar Pequim como um canal capaz de influenciar Teerã e contribuir para uma solução diplomática.
Estados Unidos e China já haviam identificado um ponto de convergência: nenhum país deveria ter o direito de cobrar pedágio ou controlar unilateralmente o tráfego pelo Estreito de Ormuz.
A própria China já defendeu a rápida retomada da navegação normal. Wang Yi afirmou anteriormente que a reabertura do estreito era necessária para proteger as cadeias industriais e de abastecimento, além de defender negociações e um cessar-fogo.
Apesar dessa convergência, Washington e Pequim continuam separados por disputas comerciais, militares e territoriais.
Durante a passagem pelas Filipinas, Rubio também criticou as ações chinesas no Mar do Sul da China. Ele acusou Pequim de utilizar seu poder econômico e comercial como instrumento de pressão geopolítica contra países menores da região.
A China reivindica grande parte do Mar do Sul da China, incluindo áreas também contestadas por Filipinas, Vietnã, Malásia, Brunei e Taiwan. Os Estados Unidos rejeitam as pretensões chinesas e mantêm compromissos militares com Manila.
Ao comparar o Estreito de Ormuz com o Mar do Sul da China, Rubio tenta convencer os governos asiáticos de que o controle iraniano sobre uma rota internacional poderia abrir caminho para ações semelhantes em outras regiões.
Para o secretário, aceitar que Teerã imponha tarifas e condições aos navios significaria enfraquecer o princípio da liberdade de navegação.
Rubio também acusou o Irã de não cumprir compromissos assumidos em negociações anteriores. Ele afirmou que Washington permanece aberto ao diálogo, mas declarou que os Estados Unidos adotarão as medidas consideradas necessárias caso Teerã não demonstre disposição real para um acordo.
“Se eles forem sérios, nós somos sérios”, afirmou Rubio ao comentar a possibilidade de retomada das negociações.
O governo iraniano sustenta que o controle do estreito faz parte de sua estratégia de defesa diante dos ataques realizados pelos Estados Unidos e por Israel. Teerã também utiliza a rota como instrumento de pressão em negociações sobre sanções, programa nuclear, ataques militares e segurança regional.
A disputa provocou forte impacto no transporte marítimo. Navios reduziram ou suspenderam a passagem, seguradoras aumentaram os valores cobrados e empresas passaram a avaliar rotas alternativas, que são mais longas e caras.
A tensão também alcançou o Mar Vermelho. Petroleiros que transportavam petróleo saudita para a Ásia mudaram de direção após ameaças dos houthis, grupo do Iêmen alinhado ao Irã.
O risco é de interrupção simultânea em dois pontos estratégicos: o Estreito de Ormuz e o Estreito de Bab el-Mandeb. Uma crise nas duas rotas pode reduzir o fornecimento de energia, elevar o preço dos combustíveis e aumentar a inflação em diferentes países.
A China também enfrenta pressão econômica direta. O governo dos Estados Unidos aplicou sanções contra refinarias privadas chinesas acusadas de comprar petróleo iraniano.
Segundo o secretário do Tesouro norte-americano, Scott Bessent, as compras chinesas de petróleo do Irã diminuíram substancialmente. Ele afirmou ainda que as importações totais de petróleo bruto pela China recuaram nos últimos meses, aumentando a pressão financeira sobre Teerã.
Pequim, entretanto, evita aderir completamente à estratégia dos Estados Unidos. O governo chinês costuma defender uma solução negociada, rejeitar sanções unilaterais e criticar ações militares que considera responsáveis pelo agravamento da crise.
A reunião entre Rubio e Wang mostrou que os dois países tentam manter canais abertos apesar das diferenças. O secretário norte-americano afirmou que seria irresponsável permitir que as divergências entre as duas maiores economias do mundo saíssem de controle.
Para Washington, a China precisa transformar sua defesa pública da liberdade de navegação em pressão concreta sobre o Irã.
Para Pequim, o desafio é ajudar a preservar o fluxo de petróleo e gás sem parecer alinhada à ofensiva militar norte-americana contra Teerã.
A crise do Estreito de Ormuz passou, assim, a fazer parte de uma negociação mais ampla entre Estados Unidos e China. O que está em jogo não é apenas a relação com o Irã, mas o controle das rotas marítimas, a segurança energética da Ásia e o equilíbrio de poder entre Washington e Pequim.