Cerco internacional: Interpol entra no rastreamento da fortuna ligada ao caso Banco Master

Cerco internacional: Interpol entra no rastreamento da fortuna ligada ao caso Banco Master
Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, alvo de nova operação de busca e apreensão — Foto: Ana Paula Paiva/Valor
Ricardo Fernandes AlmeidaPor Ricardo Fernandes Almeida 29 de julho de 2026 1

O cerco sobre o patrimônio relacionado ao caso Banco Master ganhou dimensão internacional. O ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal, autorizou a Polícia Federal a iniciar o rastreamento de bens e recursos do ex-banqueiro Daniel Vorcaro e de outros investigados que possam estar mantidos fora do Brasil.

A decisão foi tomada na terça-feira, 28 de julho, no âmbito da Operação Compliance Zero, que investiga suspeitas de fraudes financeiras envolvendo o Banco Master e irregularidades na tentativa de aquisição da instituição pelo Banco de Brasília, o BRB. Com a autorização, a PF poderá ampliar o uso de mecanismos de cooperação jurídica e policial com autoridades de outros países.

Informações apuradas pelo Diário Tocantinense mostram que a investigação pretende identificar imóveis, contas bancárias, empresas, investimentos, embarcações, aeronaves e outros bens que possam estar registrados diretamente em nome dos investigados ou vinculados a pessoas e estruturas empresariais utilizadas para ocultar os verdadeiros proprietários.

A Interpol já havia sido acionada pela Polícia Federal para auxiliar na localização de bens e ativos atribuídos a Vorcaro na América do Norte, na Europa e em outras jurisdições. A suspeita dos investigadores é de que parte do patrimônio tenha sido pulverizada em diferentes países, inclusive por meio de empresas e estruturas financeiras instaladas em paraísos fiscais.

Entre os bens sob apuração está uma mansão localizada na Flórida, nos Estados Unidos, avaliada em aproximadamente R$ 180 milhões. Segundo informações atribuídas à investigação, Vorcaro declarou à Receita Federal um patrimônio de cerca de R$ 2,4 bilhões em 2024, mas a PF avalia a possibilidade de que o conjunto real de bens e ativos seja superior ao valor oficialmente informado.

Outra frente da apuração envolve transferências superiores a R$ 700 milhões em ativos ligados ao Banco Master para a Titan Capital Holding, empresa aberta nas Ilhas Cayman e da qual Vorcaro seria sócio. Os repasses teriam ocorrido durante 2025, período em que avançavam as negociações para a venda da instituição ao BRB. As movimentações passaram a ser analisadas para verificar a origem, a destinação e a eventual relação dos recursos com os crimes investigados.

A participação da Interpol poderá ocorrer por meio da chamada Difusão Prateada, instrumento de cooperação criado para identificar e rastrear patrimônio relacionado a suspeitas de fraude, corrupção, lavagem de dinheiro e outras infrações graves. O mecanismo permite o intercâmbio de informações entre autoridades sobre imóveis, veículos, contas, empresas e investimentos mantidos em diferentes países.

A inclusão nesse sistema, contudo, não provoca o confisco automático dos bens. A Interpol auxilia na identificação e no compartilhamento das informações. Após a localização dos ativos, o Brasil deverá encaminhar pedidos específicos de bloqueio, apreensão, confisco ou repatriação, respeitando a legislação do país onde o patrimônio estiver localizado.

A Polícia Federal já teria apresentado pelo menos dois pedidos de cooperação internacional às autoridades estrangeiras ao longo de 2026. O objetivo é obter dados sobre movimentações financeiras e patrimônio que possam ter ligação com Daniel Vorcaro e outros alvos da investigação.

Caso seja demonstrado que os bens foram adquiridos com dinheiro proveniente de atividades criminosas, as autoridades brasileiras poderão solicitar o bloqueio e posteriormente buscar a repatriação dos valores. Os recursos recuperados também poderão ser utilizados para reparar prejuízos, desde que haja decisão judicial definitiva autorizando a medida.

Daniel Vorcaro está preso preventivamente desde março e permanece no 19º Batalhão da Polícia Militar do Distrito Federal, conhecido como Papudinha. A prisão foi determinada no curso da Operação Compliance Zero diante de alegações de risco de interferência nas investigações. Até o momento, não há condenação definitiva no processo.

A Polícia Federal também rejeitou duas propostas de colaboração premiada apresentadas pela defesa. De acordo com os investigadores, as propostas não trouxeram fatos inéditos em relação às provas já reunidas nem o reconhecimento de participação em crimes, requisitos considerados necessários para a continuidade de uma negociação.

A defesa de Vorcaro tem negado as acusações e afirma que o empresário sempre esteve à disposição das autoridades. Em manifestação anterior, os advogados declararam que ele não tentou obstruir as investigações, defenderam a regularidade de sua conduta e disseram confiar no devido processo legal.

Com a autorização concedida por André Mendonça, a investigação deixa de se concentrar apenas no patrimônio localizado no Brasil e avança sobre uma possível rede internacional de ativos. A nova etapa deverá seguir o caminho do dinheiro para verificar onde estão os recursos, quem aparece formalmente como proprietário e se empresas, fundos ou terceiros foram utilizados para esconder bens dos verdadeiros beneficiários.

O Diário Tocantinense mantém o espaço aberto para manifestações da defesa de Daniel Vorcaro, do Banco Master, do BRB e dos demais investigados mencionados nas apurações.

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