Vicentinho aposta em Ferrovia Norte-Sul, Porto Seco e Agro 5.0 para reduzir custos e ampliar força do campo no Tocantins

Vicentinho aposta em Ferrovia Norte-Sul, Porto Seco e Agro 5.0 para reduzir custos e ampliar força do campo no Tocantins
Crédito: Assessoria
Ricardo Fernandes AlmeidaPor Ricardo Fernandes Almeida 13 de agosto de 2026 0

O candidato ao Governo do Tocantins Vicentinho Júnior colocou logística, tecnologia e redução dos custos de escoamento entre os principais eixos de seu plano para o agronegócio. A proposta prevê investimentos em rodovias, maior integração das regiões produtoras com a Ferrovia Norte-Sul, implantação de um Porto Seco próximo à estrutura ferroviária e ampliação da conectividade no campo dentro do conceito apresentado pela campanha como Agronegócio 5.0.

O ponto central do projeto é atacar um problema que não termina dentro da porteira. Para a proposta apresentada por Vicentinho, aumentar a produtividade é apenas uma parte do desafio: depois da colheita, o produtor precisa conseguir transportar soja, milho, carne e outros produtos até armazéns, terminais ferroviários, indústrias e mercados consumidores com menor custo e maior previsibilidade.

Não basta produzir mais. Precisamos produzir melhor, transportar melhor e agregar valor àquilo que o Tocantins já produz”, afirma Vicentinho ao apresentar as diretrizes destinadas ao setor agropecuário.

Levantamento do Diário Tocantinense mostra que a discussão ocorre em um momento de expansão da produção brasileira. A Conab divulgou nesta quinta-feira, 13, estimativa de 360,8 milhões de toneladas de grãos para a safra 2025/26, com crescimento da área cultivada no país. Para estados produtores e em expansão como o Tocantins, esse avanço aumenta também a pressão sobre armazenagem, rodovias e corredores de exportação.

No plano de Vicentinho, uma das prioridades seria identificar e executar pavimentações, melhorias e duplicações em eixos considerados estratégicos para o escoamento da produção, procurando conectar áreas produtoras às grandes rodovias e aos terminais ferroviários.

A Ferrovia Norte-Sul aparece como peça fundamental nessa estratégia. A malha ferroviária atravessa o território tocantinense e permite conexão com outros corredores nacionais, oferecendo uma alternativa ao transporte exclusivamente rodoviário para grandes volumes de carga. Documentos da Agência Nacional de Transportes Terrestres confirmam a operação de transporte ferroviário de cargas a partir do Tocantins e do Maranhão pela estrutura da Norte-Sul.

A intenção apresentada no plano é fazer com que as rodovias estaduais e os corredores de produção funcionem de maneira cada vez mais integrada com a ferrovia. Na prática, o caminhão continuaria sendo essencial para retirar a produção das propriedades e levá-la até os terminais, enquanto a ferrovia poderia assumir parte dos percursos de longa distância.

O projeto ganha relevância principalmente em regiões de forte produção de grãos. Porto Nacional, por exemplo, tornou-se um dos símbolos da expansão do agronegócio tocantinense. Dados oficiais do município apontam que, em 2025, as exportações chegaram a US$ 552,2 milhões, com mais de 1 milhão de toneladas de grãos comercializadas no exterior. A soja respondeu por 65% das exportações municipais, seguida por resíduos de soja e milho.

Somente no primeiro trimestre de 2026, Porto Nacional exportou cerca de US$ 106,1 milhões, resultado da comercialização externa de aproximadamente 273 mil toneladas de soja, resíduos de soja e milho. Os números ajudam a dimensionar o volume de mercadorias que depende de uma estrutura eficiente de transporte e armazenamento.

Outra proposta que chama atenção é a criação de um Porto Seco junto a um pátio da Ferrovia Norte-Sul. A ideia apresentada pela campanha é estruturar um terminal capaz de concentrar serviços relacionados à movimentação e ao despacho das mercadorias, aproximando parte da estrutura logística e aduaneira das áreas produtoras e reduzindo etapas no caminho até os mercados externos.

Um Porto Seco não é um porto marítimo. Pela definição da Receita Federal, trata-se de um recinto aduaneiro de uso público localizado fora da zona portuária primária, onde podem ser realizados serviços como movimentação, armazenagem e despacho aduaneiro de mercadorias. Sua instalação e funcionamento dependem de procedimentos federais de autorização e alfandegamento.

Por isso, embora a criação do terminal apareça como proposta estadual, sua eventual implantação exigiria articulação com a Receita Federal e demais órgãos federais, além de estudos de demanda, viabilidade econômica, localização, infraestrutura, licenciamento e definição do modelo de exploração. A própria Receita estabelece requisitos formais específicos para o alfandegamento desses recintos.

A aposta da proposta é que uma estrutura dessa natureza, integrada à ferrovia, poderia ajudar a organizar cargas destinadas ao comércio exterior, aproximar serviços logísticos dos produtores e estimular a instalação de empresas ligadas ao armazenamento, beneficiamento e distribuição.

O plano não fica restrito às grandes obras. Vicentinho também propõe utilizar diferentes modelos para financiar a infraestrutura, incluindo a busca de recursos junto ao BNDES, Banco Mundial (BIRD) e Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), além de concessões e parcerias para corredores com maior volume de tráfego.

A efetivação dessas propostas dependeria, entretanto, da capacidade de contratação de crédito, aprovação dos projetos, condições fiscais do Estado e interesse da iniciativa privada nos trechos eventualmente destinados a concessões.

Outro eixo apresentado é o acompanhamento digital das obras públicas. O plano prevê mecanismos tecnológicos para monitorar cronogramas, execução financeira e andamento físico das intervenções, com o objetivo declarado de reduzir paralisações e permitir maior controle sobre os recursos destinados à infraestrutura.

No campo, a proposta é avançar para aquilo que Vicentinho chama de Agronegócio 5.0.

A estratégia envolve ampliar a conectividade rural, levar cobertura de 5G aos principais corredores de produção e escoamento, estimular agricultura de precisão e aproximar produtores de universidades, centros de pesquisa e instituições de formação profissional.

A conectividade é apresentada como infraestrutura tão necessária quanto estrada e energia. Com internet de maior qualidade nas propriedades, produtores podem utilizar máquinas conectadas, acompanhamento climático, gestão remota, mapas de produtividade, sistemas de rastreabilidade e ferramentas que auxiliam na aplicação de insumos.

A proposta também busca aproximar a produção agropecuária da pesquisa científica. O objetivo declarado é estabelecer maior conexão entre produtores, universidades, pesquisadores e programas de qualificação, permitindo que tecnologias desenvolvidas ou adaptadas para o Cerrado cheguem mais rapidamente ao campo.

O Diário Tocantinense verificou que infraestrutura e tecnologia já apareciam entre as áreas apontadas por Vicentinho durante a elaboração de seu plano de governo. Em março, ainda na pré-campanha, ele havia colocado produção agropecuária, inovação, tecnologia, desenvolvimento econômico e sustentabilidade entre os temas prioritários do documento.

O desafio será transformar as diretrizes em projetos executáveis. Rodovias exigem definição dos trechos prioritários e orçamento; duplicações demandam estudos de tráfego e engenharia; o Porto Seco depende de participação federal; e a expansão do 5G rural envolve operadoras, infraestrutura de telecomunicações e cobertura em áreas onde a densidade populacional é baixa.

Ao mesmo tempo, a localização geográfica do Tocantins é um dos argumentos utilizados para defender investimentos em integração logística. Situado entre importantes regiões produtoras e cortado pela Norte-Sul e pela BR-153, o Estado possui condições para funcionar não apenas como produtor, mas também como corredor para mercadorias de outras regiões.

O plano de Vicentinho procura justamente utilizar essa posição para aproximar produção, ferrovia, rodovias, armazenamento, tecnologia e industrialização. A intenção declarada é que parte maior da riqueza gerada pelo campo permaneça no próprio Tocantins por meio de beneficiamento e agregação de valor antes da saída dos produtos.

A discussão vai além do tamanho da safra. Para o produtor, a receita obtida com soja, milho, pecuária ou outras atividades é influenciada também pelo valor necessário para levar a mercadoria até seu destino. Quanto maior a distância e pior a estrutura logística, maior pode ser a participação do frete no custo final.

É nesse ponto que Vicentinho concentra o discurso apresentado para o agro: produzir mais, segundo ele, precisa caminhar ao lado da capacidade de transportar melhor e agregar valor.

O plano coloca, portanto, a logística como uma das peças de uma estratégia maior para o campo tocantinense. Caso eleito, o desafio de Vicentinho será sair da proposta e definir quais rodovias receberiam prioridade, onde seria estudada a implantação do Porto Seco, quanto cada intervenção custaria e quais projetos poderiam efetivamente ser financiados ou concedidos.

Com o agronegócio ocupando espaço relevante na economia tocantinense, a disputa eleitoral também passa pela discussão sobre qual será o próximo salto do setor. No projeto apresentado por Vicentinho, a resposta está em conectar estrada, ferrovia, tecnologia, armazenamento e mercado, com a proposta de fazer do Tocantins não apenas um grande produtor, mas um território com maior capacidade de transformar e escoar aquilo que produz.

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