Glória Menezes, a gigante das novelas: da estreia ao lado de Laura Cardoso ao amor com Tarcísio Meira, relembre a trajetória de uma lenda da TV
A televisão brasileira perdeu uma de suas maiores estrelas. Glória Menezes morreu nesta terça-feira, 18 de agosto de 2026, aos 91 anos, no Rio de Janeiro, encerrando uma trajetória de mais de seis décadas no teatro, no cinema e, sobretudo, na televisão. Um levantamento feito pelo Diário Tocantinense (DT) mostra que falar da história de Glória é também percorrer parte significativa da própria construção da teledramaturgia brasileira.
A despedida se tornou ainda mais simbólica porque aconteceu apenas um dia depois da morte de Laura Cardoso, aos 98 anos. Mais do que duas contemporâneas, Glória e Laura tiveram suas histórias profissionais entrelaçadas desde os primeiros anos da televisão. Quando Glória apareceu pela primeira vez na TV, em 1959, Laura já estava lá: as duas integraram o elenco de “Um Lugar ao Sol”, da TV Tupi.
Era o início de uma trajetória extraordinária para Glória e também um encontro entre duas mulheres que, décadas depois, seriam reconhecidas entre as grandes damas da dramaturgia nacional. Em 1990, elas voltaram a integrar o mesmo elenco em “Rainha da Sucata”: Glória como a inesquecível Laurinha Figueroa e Laura Cardoso como Yolanda Maia. Anos mais tarde, ambas também participaram de “Senhora do Destino”, de 2004.
A relação de admiração entre as atrizes ultrapassou a ficção. Em 2002, quando Laura Cardoso se tornou a primeira personalidade homenageada com o Troféu Mário Lago, foi justamente Glória Menezes quem entregou a premiação à colega. Em 2018, as duas voltariam a participar juntas da cerimônia, desta vez entre os artistas escolhidos para homenagear outros veteranos da televisão.
Antes de ser Glória Menezes, ela era Nilcedes Soares de Magalhães. Nasceu em 19 de outubro de 1934, em Pelotas, no Rio Grande do Sul. Seu nome de batismo foi formado a partir dos nomes dos pais, Nilo e Mercedes. Ainda criança, aos seis anos, mudou-se com a família para São Paulo, cidade onde cresceria e descobriria a paixão pelos palcos.
Ao iniciar a carreira, decidiu adotar um nome artístico. Escolheu Glória por considerar um nome de compreensão universal e Menezes como referência às raízes portuguesas da família. A partir dali, aquele nome se tornaria conhecido por milhões de brasileiros e atravessaria diferentes gerações da televisão.
Apaixonada por teatro, ingressou na Escola de Artes Dramáticas em São Paulo e participou da criação do grupo amador Jovens Independentes. Em 1959, logo em um dos primeiros trabalhos, recebeu o prêmio de atriz revelação em um festival de teatro amador promovido por Antunes Filho. A ascensão foi rápida. No mesmo ano veio a estreia na televisão em “Um Lugar ao Sol”, justamente ao lado de Laura Cardoso.
Outro encontro mudaria sua vida definitivamente. Depois do destaque nos palcos, Glória participou de “As Feiticeiras de Salém”, trabalho durante o qual conheceu Tarcísio Meira. O encontro profissional se transformaria em uma história de amor que atravessaria quase seis décadas e faria dos dois um dos casais mais conhecidos da cultura brasileira.
Antes mesmo de consolidar sua presença nas novelas, Glória já havia deixado sua marca no cinema. O cineasta Anselmo Duarte a convidou para “O Pagador de Promessas”. Ela interpretou Rosa no longa que estreou em 1962 no Festival de Cannes e conquistou a Palma de Ouro, tornando-se um dos maiores marcos internacionais do cinema brasileiro.
A televisão, entretanto, seria o espaço onde Glória alcançaria milhões de pessoas. Em 1963, protagonizou ao lado de Tarcísio Meira “2-5499 Ocupado”, da TV Excelsior, considerada a primeira telenovela diária da televisão brasileira. A produção também marcou um momento decisivo na relação dos dois, que iniciaram o romance e posteriormente se casaram.
Da união nasceu Tarcísio Filho, que também seguiria a carreira artística. Glória já era mãe de Maria Amélia e João Paulo, filhos de seu primeiro casamento. Ao longo dos anos, a família passou a acompanhar uma das mais famosas histórias de amor da televisão brasileira.
Tarcísio e Glória formaram uma parceria rara. Eram marido e mulher, amigos e colegas de trabalho. Dividiram novelas, teatro, televisão e projetos próprios. O público passou a associar um ao outro de forma tão intensa que se tornaram um dos casais-símbolo da dramaturgia brasileira.
Em 1967, Glória chegou à Globo protagonizando “Sangue e Areia”, de Janete Clair, como Doña Sol. Foi o começo de uma relação de décadas com a emissora, onde atuaria em mais de 40 telenovelas. Na sequência vieram “Passo dos Ventos”, “Rosa Rebelde” e tantos outros trabalhos que consolidaram seu nome entre as grandes protagonistas da época.
Em 1970, viveu um de seus maiores desafios em “Irmãos Coragem”, de Janete Clair. Glória interpretou Maria de Lara e as diferentes personalidades Diana e Márcia, modificando comportamento, gestos e expressão para dar vida às três faces da mesma personagem. O trabalho se tornou uma das interpretações mais lembradas de sua carreira.
A parceria com Tarcísio continuou em produções como “O Homem que Deve Morrer”, “Cavalo de Aço”, “O Semideus” e “Espelho Mágico”. A química do casal diante das câmeras era tamanha que eles se transformaram em uma referência popular de romance também fora da ficção.
Em 1979, Glória viveu outra transformação importante. Em “Pai Herói”, interpretou Ana Preta, dona de uma casa de samba, mãe solteira, independente e dona de sua própria vida. A personagem conquistou o público e influenciou comportamento e moda, mostrando uma faceta mais popular e descontraída da atriz.
Nos anos 1980, Glória continuou provando sua versatilidade. Passou por “Jogo da Vida”, “Guerra dos Sexos”, “Corpo a Corpo” e “Brega & Chique”**, trabalhando com autores importantes e transitando entre drama e comédia sem perder a força de protagonista.
Em 1988, ela e o marido ganharam um projeto que levava os próprios nomes: “Tarcísio & Glória”. Além de protagonistas, participaram da produção do seriado. Glória interpretava Ava Becker, uma extraterrestre, enquanto Tarcísio vivia o empresário Bruno Lazzarini. O programa reforçou ainda mais a parceria artística do casal.
Dois anos depois viria uma das personagens definitivas de sua carreira. Em “Rainha da Sucata”, de 1990, Glória abandonou definitivamente qualquer limitação ao papel de mocinha e viveu a socialite decadente Laurinha Figueroa, sofisticada, obsessiva e uma das grandes vilãs da teledramaturgia. Na mesma novela estava Laura Cardoso, reencontrando artisticamente Glória três décadas depois da estreia das duas juntas na televisão.
A morte de Laurinha na novela causou enorme repercussão na época e transformou a personagem em uma das imagens mais marcantes da carreira de Glória. Depois vieram “Deus nos Acuda”, “A Próxima Vítima” e “Torre de Babel”**, consolidando uma fase em que a atriz explorou personagens cada vez mais complexas.
Já no século XXI, Glória conseguiu aquilo que poucos artistas alcançam: conquistar também crianças e jovens que não haviam acompanhado seus primeiros sucessos. Em “O Beijo do Vampiro”, de 2002, viveu a feiticeira Zoroastra, personagem que fez sucesso especialmente com o público infantil.
Em “Senhora do Destino”, de 2004, Glória interpretou a Baronesa de Bonsucesso, personagem acometida pelo Alzheimer. Mesmo não sendo uma das personagens com maior tempo de tela da novela, a interpretação teve forte repercussão. Foi também mais uma produção em que sua trajetória voltou a cruzar com a de Laura Cardoso, que fez uma participação especial como Luzitana, mãe de Nazaré Tedesco.
Depois vieram “Páginas da Vida”, em 2006, e “A Favorita”, em 2008. Em ambas, voltou a contracenar com Tarcísio Meira. Em “A Favorita”, viveu Irene Fontini e protagonizou momentos de grande intensidade dramática, inclusive cenas praticamente sem diálogos nas quais precisava sustentar a emoção apenas com expressões e gestos.
Glória ainda esteve em produções como “Cama de Gato”, fez participação em “Joia Rara” e, em 2015, interpretou Stelinha em “Totalmente Demais”, sua última novela. Em 2018, apareceu no humorístico “Tá no Ar: a TV na TV”, interpretando a si mesma.
O teatro nunca deixou de fazer parte de sua história. Ao longo da carreira, esteve em montagens como “Tudo Bem no Ano Que Vem”, “Navalha na Carne”, “Um Dia Muito Especial” e “Jornada de um Poema”. Para Glória, a formação nos palcos foi fundamental para tudo o que posteriormente realizou diante das câmeras.
Mas nenhuma parceria artística esteve tão ligada à sua vida quanto Tarcísio Meira. Durante décadas, os dois apareceram juntos em novelas, séries, peças, entrevistas e eventos. O relacionamento atravessou mudanças profundas na televisão e também no próprio país, mantendo-se como uma das uniões mais duradouras entre grandes estrelas brasileiras.
Essa história sofreu seu golpe mais duro em 12 de agosto de 2021, quando Tarcísio Meira morreu, aos 85 anos, vítima da Covid-19. Glória também havia sido internada com a doença, mas se recuperou. A morte do companheiro depois de quase seis décadas de vida compartilhada marcou profundamente seus anos seguintes.
Depois da perda de Tarcísio, Glória passou a levar uma vida mais reservada e próxima da família. As aparições públicas ficaram menos frequentes, mas as homenagens continuaram. Em 2025, sua vida e sua obra foram celebradas no programa “Tributo”, do Globoplay.
E houve uma última coincidência carregada de simbolismo. Em 12 de agosto de 2026, exatamente cinco anos após a morte de Tarcísio, Glória recebeu uma estrela na Calçada da Fama dos Estúdios Globo. Ela não compareceu pessoalmente e foi representada pelo filho, Tarcísio Filho. Na mesma cerimônia, Tarcísio Meira também estava entre os artistas homenageados postumamente.
Apenas cinco dias depois, em 17 de agosto, morreu Laura Cardoso, aos 98 anos. E no dia seguinte, 18 de agosto, o país receberia outra notícia difícil: Glória Menezes também havia partido. As duas mulheres que estiveram juntas naquele início de televisão em “Um Lugar ao Sol”, em 1959, despediram-se do público com apenas um dia de diferença, 67 anos depois daquele primeiro encontro profissional.
Glória morreu em casa, no Rio de Janeiro, ao lado de familiares, incluindo o filho Tarcísio Filho. Informações divulgadas por sua assessoria apontaram que a atriz estava debilitada em razão da idade avançada; veículos que receberam informações da assessoria também noticiaram a morte por causas naturais.
A notícia imediatamente provocou manifestações de colegas, artistas e admiradores. Depois de mais de 60 anos diante das câmeras, Glória havia se tornado não apenas uma atriz conhecida, mas parte da memória afetiva de gerações que cresceram acompanhando suas personagens.
Nesta quarta-feira, 19 de agosto, a família decidiu que a despedida seria feita de maneira reservada. A cerimônia não será aberta ao público e ficará restrita aos familiares e amigos mais íntimos. Em comunicado, a família agradeceu as manifestações de carinho e pediu respeito à privacidade neste momento.
Até a atualização desta matéria nesta quarta-feira, 19 de agosto de 2026, não foram divulgados publicamente pela família o local da cerimônia nem os detalhes sobre sepultamento ou cremação de Glória Menezes. Por isso, qualquer informação sobre onde a atriz será enterrada, neste momento, seria prematura.
A última despedida reservada contrasta com uma vida artística que foi inteiramente pública. Durante mais de seis décadas, Glória Menezes entrou nas casas dos brasileiros. Esteve presente quando a televisão ainda descobria como contar histórias, protagonizou a primeira novela diária do país, viveu heroínas e vilãs, fez cinema premiado internacionalmente, atravessou diferentes gerações e nunca deixou de ser reconhecida como uma das grandes damas da dramaturgia.
E existe algo especialmente emocionante na maneira como sua trajetória se fecha. Glória começou na televisão em 1959 ao lado de Laura Cardoso. Viveu quase seis décadas de amor e parceria com Tarcísio Meira. Em agosto de 2026, recebeu uma estrela ao lado da homenagem ao marido. Dias depois, Laura partiu. No dia seguinte, foi a vez de Glória.
A televisão brasileira perde, em poucos dias, parte de sua própria memória viva.
A menina Nilcedes que saiu de Pelotas e encontrou nos palcos sua vocação tornou-se Glória Menezes, protagonista de uma história que ajudou a transformar a televisão brasileira em uma das maiores produtoras de dramaturgia do mundo.
Nilcedes Soares de Magalhães se despede aos 91 anos. Glória Menezes, porém, permanece. Nas novelas, no cinema, no teatro, na história de amor com Tarcísio, na amizade e nos encontros profissionais com Laura Cardoso e, principalmente, na memória de milhões de brasileiros que a acompanharam durante mais de seis décadas.