Ceará chega à reta final com disputa acirrada pelo Governo e Senado em cenário de três nomes tecnicamente empatados
A pouco mais de uma semana do primeiro turno, Ciro Gomes e Elmano de Freitas aparecem tecnicamente empatados na corrida pelo Governo, enquanto Cid Gomes, Capitão Wagner e Luizianne Lins concentram a disputa pelas duas cadeiras do Ceará no Senado
A eleição de 2026 colocou o Ceará diante de uma das disputas mais movimentadas de sua história política recente. A pouco mais de uma semana do primeiro turno, marcado para 4 de outubro, a sucessão no Governo do Estado e a escolha de dois senadores passaram a concentrar uma combinação de antigas alianças, rompimentos, reaproximações e uma forte disputa entre grupos políticos que, durante décadas, estiveram em diferentes posições no tabuleiro estadual.
Na corrida pelo Palácio da Abolição, o cenário mais recente aponta para uma disputa praticamente aberta entre o ex-governador Ciro Gomes (PSDB) e o atual governador Elmano de Freitas (PT). No Senado, três candidaturas aparecem próximas nas pesquisas mais recentes: o senador Cid Gomes (PSB), candidato à reeleição, o ex-deputado federal Capitão Wagner (União Brasil) e a deputada federal Luizianne Lins (Rede). Como o Ceará elegerá dois senadores em 2026, a configuração da disputa é diferente daquela de uma eleição majoritária para apenas uma vaga.
Governo: uma corrida que mudou de patamar
A evolução das pesquisas ao longo de setembro mostra uma redução significativa da distância entre Ciro Gomes e Elmano de Freitas.
No levantamento Datafolha divulgado em 8 de setembro, Ciro aparecia com 46% das intenções de voto, contra 37% de Elmano. Na pesquisa seguinte, divulgada em 23 de setembro, o tucano tinha 47%, enquanto o petista alcançava 40%. A diferença, portanto, havia caído de 19 pontos no levantamento de agosto para sete pontos.
A fotografia mais recente, porém, mudou novamente. Pesquisa Datafolha divulgada em 25 de setembro apontou Ciro com 44% e Elmano com 43%, configurando empate técnico dentro da margem de erro de três pontos percentuais. Vera Lúcia e Delegado Huggo apareceram com 1% cada, enquanto os demais candidatos não chegaram a 1%. Brancos, nulos ou nenhum somaram 6%, e 5% dos entrevistados não souberam ou não responderam.
O levantamento foi realizado presencialmente entre 22 e 24 de setembro, com 1.204 eleitores de 16 anos ou mais em municípios do Ceará. A margem de erro é de três pontos percentuais, com nível de confiança de 95%.
Outro levantamento recente mostra como diferentes metodologias podem produzir fotografias distintas do eleitorado. Pesquisa Real Time Big Data divulgada em 26 de setembro, realizada com 1.600 eleitores entre 21 e 24 de setembro, registrou Elmano com 48% e Ciro com 41% no cenário estimulado. No segundo turno simulado, o governador apareceu com 49%, contra 43% de Ciro. A pesquisa tem margem de erro de dois pontos percentuais e está registrada no TSE sob o protocolo CE-00688/2026.
A pesquisa Atlas/Focus divulgada em 21 de setembro também encontrou uma disputa apertada no segundo turno: Elmano apareceu com 49,7% e Ciro com 49,4%, dentro da margem de erro de dois pontos percentuais.
Os levantamentos, portanto, não apresentam uma fotografia única da disputa. O ponto comum é a proximidade entre os dois principais candidatos e a importância da reta final da campanha.
A força do governo e o desafio da oposição
O desempenho de Elmano nas pesquisas ocorre paralelamente a uma avaliação majoritariamente positiva de sua administração no Datafolha. No levantamento divulgado em 23 de setembro, 56% dos entrevistados afirmaram aprovar o trabalho do governador, enquanto 40% disseram desaprová-lo. Na avaliação geral do governo, 40% o classificaram como ótimo ou bom, 29% como regular e 28% como ruim ou péssimo.
O mesmo levantamento mostrou, contudo, uma forte divisão territorial e social do eleitorado. A aprovação do governo chegou a 60% no interior e a 50% na Região Metropolitana de Fortaleza. Também houve diferenças importantes segundo religião, faixa etária, renda e intenção de voto para presidente.
Ciro, por sua vez, disputa a eleição apoiado por um arco oposicionista que ganhou corpo ao longo do ciclo eleitoral. O retorno do ex-governador ao PSDB e a construção de uma chapa de oposição alteraram a configuração política do Estado.
O movimento também produziu uma situação inédita dentro da própria família Ferreira Gomes. Ciro e Cid Gomes, irmãos que construíram juntos parte importante da trajetória política do grupo desde o final dos anos 1980, chegaram à eleição de 2026 em lados diferentes. Ciro disputa o Governo contra Elmano, enquanto Cid concorre novamente ao Senado integrado à aliança que apoia a candidatura do governador. O Diário do Nordeste classificou a configuração como a primeira eleição desde a década de 1980 em que os dois irmãos estarão em chapas opostas.
A divisão tem significado político maior porque os Ferreira Gomes participaram de diferentes ciclos de poder no Estado, incluindo os governos de Ciro e Cid e, posteriormente, a ascensão de Camilo Santana e a eleição de Elmano.
A disputa pelo Senado tem outra dinâmica
Enquanto a eleição para governador concentra-se principalmente em dois nomes, a disputa pelo Senado apresenta uma configuração mais pulverizada.
O Ceará elegerá duas pessoas para o Senado em 2026. Por isso, os institutos apresentam os resultados considerando conjuntamente as duas vagas. A Justiça Eleitoral registra oito candidaturas para o cargo no Estado.
Na pesquisa Datafolha divulgada em 25 de setembro, Cid Gomes aparece com 23%, Capitão Wagner com 20% e Luizianne Lins com 19%. Alcides Fernandes soma 9%, seguido por Catarina Matos, com 2%, Guilherme Theophilo, Lino Alves e Reginaldo Ferreira, com 1% cada. Brancos, nulos ou nenhum somam 13%, enquanto 12% não souberam responder. Cid, Wagner e Luizianne aparecem dentro de uma faixa de proximidade estatística, considerando a margem de erro de três pontos percentuais.
A pesquisa anterior do Datafolha, realizada em setembro, já mostrava a aproximação entre os três. Cid tinha 24%, Wagner 21% e Luizianne 18%. Na Região Metropolitana de Fortaleza, os três também apareciam próximos, enquanto no interior Cid apresentava vantagem maior.
A Quaest, divulgada em 23 de setembro, apresentou uma fotografia semelhante. Cid registrou 25%, Capitão Wagner 21% e Luizianne 19%. Considerando a margem de erro de três pontos percentuais, os três estavam tecnicamente empatados. Alcides Fernandes apareceu com 8%.
O levantamento da Real Time Big Data realizado entre 14 e 17 de setembro também apontou Cid numericamente à frente, com 26%, seguido por Capitão Wagner e Luizianne, ambos com 20%. Alcides Fernandes apareceu com 19%, configurando outra disputa bastante concentrada.
Luizianne amplia presença na corrida pelo Senado
Um dos movimentos observados nas pesquisas de setembro é o crescimento da intenção de voto em Luizianne Lins.
Na série do Datafolha, a candidata da Rede saiu de 14% em agosto para 17% no início de setembro, depois 18% e chegou a 19% no levantamento divulgado em 25 de setembro. Cid, no mesmo período, oscilou de 26% para 23%, enquanto Capitão Wagner passou de 22% para 20%.
Na Quaest, o movimento também foi registrado. Luizianne passou de 13% na pesquisa anterior, divulgada em 4 de setembro, para 19% no levantamento realizado entre 19 e 22 de setembro. Cid passou de 23% para 25%, enquanto Wagner foi de 20% para 21%.
Os números não permitem antecipar quem ocupará as duas cadeiras, mas demonstram que a disputa pela segunda vaga permanece particularmente aberta nas pesquisas.
Cid tenta transformar experiência eleitoral em novo mandato
Atual senador, Cid Gomes disputa a reeleição dentro da coligação governista que reúne uma ampla frente partidária. Segundo a relação de candidaturas divulgada pela CNN com base nos registros eleitorais, sua coligação reúne PDT, Podemos, PSB, PSD, a Federação Brasil da Esperança, Federação PSOL/Rede, Federação Renovação Solidária, Republicanos, MDB e Mobiliza. Luizianne também integra essa composição.
A presença de Cid na chapa de Elmano é um dos elementos mais relevantes da eleição de 2026. O senador havia rompido politicamente com o grupo governista durante o ciclo anterior, mas voltou a integrar a articulação eleitoral que sustenta a candidatura à reeleição do governador.
A trajetória de Cid também carrega um peso eleitoral construído ao longo de décadas. Foi governador do Ceará entre 2007 e 2014 e chegou ao Senado em 2015. Em 2026, disputa novamente uma das duas vagas disponíveis.
Capitão Wagner mantém presença no campo oposicionista
Capitão Wagner representa outra força consolidada na disputa pelo Senado. Ex-deputado federal e ex-candidato ao Governo do Ceará, ele chega à eleição integrado ao campo oposicionista.
Nas pesquisas de setembro, Wagner aparece de forma recorrente na faixa dos 20% a 21% nos levantamentos Datafolha e Quaest. Na pesquisa Paraná Pesquisas divulgada em 18 de setembro, porém, o cenário apresentou percentuais mais elevados: Wagner registrou 44,4% e Cid Gomes 43,3%, enquanto Luizianne apareceu com 35,1%. O levantamento entrevistou 1.352 eleitores em 58 municípios e teve margem de erro de 2,7 pontos percentuais.
A diferença entre os percentuais dos institutos reforça a necessidade de observar metodologia, período de campo e forma de apresentação das perguntas antes de comparar diretamente os resultados.
A geografia do voto pode ser decisiva
As pesquisas mais recentes também revelam que o Ceará não apresenta um eleitorado homogêneo.
Na pesquisa Datafolha de setembro, Ciro e Elmano apresentaram diferenças entre interior e Região Metropolitana, enquanto a disputa pelo Senado mostrou Cid, Wagner e Luizianne em faixas muito próximas na Grande Fortaleza. No interior, Cid apresentou vantagem maior em relação aos dois concorrentes.
Esse componente territorial ganha importância porque Fortaleza e sua região metropolitana concentram uma parcela expressiva do eleitorado estadual, mas o interior representa uma extensa rede de municípios onde prefeitos, lideranças locais e estruturas partidárias têm influência sobre a campanha.
A própria história política recente do Ceará mostra a importância dessas alianças municipais. O governador Elmano chegou à campanha com uma base ampla formada por partidos, prefeitos, deputados, vereadores e movimentos sociais, enquanto a oposição trabalha para reunir diferentes grupos em torno da candidatura de Ciro.
Uma eleição marcada por rearranjos
A eleição de 2026 também representa uma reorganização das forças políticas tradicionais do Ceará.
Durante anos, o cenário estadual foi marcado pela predominância de grupos associados ao ex-governador Tasso Jereissati e aos irmãos Ciro e Cid Gomes. A ascensão do grupo liderado por Camilo Santana e a eleição de Elmano pelo PT alteraram esse equilíbrio.
Em 2026, antigos adversários passaram a dividir palanques e antigos aliados aparecem separados. Ciro retornou ao PSDB e assumiu o papel central na oposição. Cid permaneceu no PSB e passou a integrar a composição governista. Tasso Jereissati, embora fora da disputa eleitoral, também assumiu papel relevante na articulação oposicionista e declarou prioridade à candidatura de Ciro.
A composição revela que as fronteiras partidárias da eleição cearense não reproduzem simplesmente a divisão nacional entre direita e esquerda. Existem alianças locais, trajetórias pessoais e disputas históricas que interferem diretamente na formação das chapas.
Reta final será marcada por voto útil, indecisos e transferência de votos
Com o primeiro turno marcado para 4 de outubro, a campanha entra em uma fase em que pequenas oscilações podem ganhar importância.
No Datafolha divulgado em 23 de setembro, 78% dos eleitores afirmavam estar totalmente decididos sobre o voto para governador, enquanto 22% ainda admitiam possibilidade de mudança. Entre os eleitores de 16 a 24 anos, essa parcela era maior.
Na disputa pelo Senado, a indefinição era ainda maior. No levantamento do Datafolha de 25 de setembro, 60% dos entrevistados não haviam indicado espontaneamente um candidato quando os nomes não eram apresentados.
Esse dado ajuda a explicar por que a eleição para as duas vagas permanece mais aberta nas pesquisas. O eleitor precisa escolher dois nomes, e as campanhas também trabalham com estratégias de associação entre candidatos, partidos e chapas.
Outro componente importante é a relação entre as disputas. A pesquisa Datafolha mostrou diferentes padrões de intenção para o Senado entre eleitores que declaravam voto em Ciro ou em Elmano para governador. Entre os eleitores de Ciro, Capitão Wagner aparecia com 32%, seguido por Cid, com 21%, enquanto entre os eleitores de Elmano, Cid tinha 33% e Luizianne 32%.
Isso evidencia que o chamado voto casado não é automático e que os eleitores podem combinar diferentes candidaturas para os cargos majoritários.
O que está em jogo no Ceará
A eleição não representa apenas a escolha do próximo governador e de dois senadores. O resultado definirá também a composição política que terá influência sobre o Estado durante os próximos anos e poderá reorganizar as forças partidárias para as eleições municipais seguintes.
No Governo, a disputa entre Ciro Gomes e Elmano de Freitas chegou à reta final em uma situação de forte proximidade nos levantamentos Datafolha, enquanto outros institutos também registraram cenários apertados, ainda que com resultados diferentes.
No Senado, Cid Gomes, Capitão Wagner e Luizianne Lins aparecem repetidamente próximos nas pesquisas recentes, enquanto Alcides Fernandes permanece como outro nome relevante na disputa.
A combinação entre uma eleição estadual polarizada, duas vagas ao Senado e uma profunda reorganização das antigas alianças faz do Ceará um dos estados onde o resultado de 4 de outubro terá impacto significativo sobre o mapa político regional.
Até lá, a principal característica do cenário é justamente a ausência de uma definição estatística consolidada. As pesquisas são fotografias de momentos específicos, realizadas com metodologias diferentes e sujeitas à margem de erro. A urna, por sua vez, ainda não foi aberta.