TSE julga nesta quarta caso de postagens sobre Nossa Senhora Aparecida que abriu disputa entre ministros

TSE julga nesta quarta caso de postagens sobre Nossa Senhora Aparecida que abriu disputa entre ministros
Ricardo Fernandes AlmeidaPor Ricardo Fernandes Almeida 30 de setembro de 2026 9

O Tribunal Superior Eleitoral analisa nesta quarta-feira, 30, a decisão do ministro André Mendonça que determinou a retirada de publicações relacionadas à controvérsia envolvendo Nossa Senhora Aparecida e o candidato à Presidência Flávio Bolsonaro, do PL. O julgamento foi marcado pelo presidente do TSE, ministro Nunes Marques, em plenário virtual a partir das 10 horas.

A discussão começou após a circulação de conteúdos que associaram Flávio Bolsonaro à possibilidade de retirada do título de Padroeira do Brasil de Nossa Senhora Aparecida. Não há registro de que o candidato tenha apresentado proposta com esse objetivo. A controvérsia retomou referências a um projeto apresentado em 2007 por outro parlamentar e posteriormente arquivado. A campanha de Flávio procurou a Justiça Eleitoral argumentando que publicações estavam transformando essa discussão em uma informação falsa atribuída ao presidenciável.

André Mendonça acolheu parte dos pedidos e determinou a retirada de conteúdos, entre eles uma publicação feita pelo humorista Antonio Tabet. O entendimento foi de que havia divulgação de informação inverídica no contexto eleitoral.

O caso ganhou uma dimensão institucional depois que Tabet recorreu ao Supremo Tribunal Federal. O ministro Flávio Dino suspendeu a ordem de remoção, apresentando fundamentos relacionados à liberdade de expressão e ao fato de determinada publicação não mencionar diretamente o nome do candidato.

Posteriormente, o ministro Luiz Fux suspendeu a decisão de Dino, restabelecendo os efeitos da determinação eleitoral. Fux ressaltou em sua decisão a necessidade de preservar a competência da Justiça Eleitoral para julgar matérias diretamente relacionadas à campanha.

Na terça-feira, André Mendonça também reviu a situação de outra postagem, feita pela deputada Erika Hilton. O ministro entendeu que, naquele caso específico, o texto tratava de uma possibilidade futura e fazia referência ao projeto antigo sem afirmar como fato que Flávio Bolsonaro tivesse apresentado a proposta. Por isso, permitiu que a publicação permanecesse no ar.

A jurista Ana Laura Barbosa, professora da FGV, classificou o conflito surgido entre decisões individuais de diferentes ministros como uma “nova guerra monocrática”. Segundo a especialista, para além da discussão sobre o conteúdo das postagens, o episódio levanta questões sobre competência, distribuição dos processos e princípio do juiz natural.

O problema jurídico central envolve duas proteções importantes em uma democracia. De um lado está a liberdade de expressão e a possibilidade de crítica política, que possui proteção especialmente ampla durante períodos eleitorais. Do outro está o direito do eleitor de não ser submetido à apresentação deliberada de fatos objetivamente falsos como se fossem verdadeiros.

A própria jurisprudência eleitoral diferencia juízo de valor e crítica política de imputações factuais que podem ser objetivamente verificadas.

O julgamento desta quarta deverá mostrar como o colegiado do TSE pretende traçar essa linha no caso concreto e poderá produzir efeitos importantes para outros processos envolvendo desinformação e liberdade de expressão nos últimos dias da campanha eleitoral.

Notícias relacionadas