Dorinha entre o poder, as rupturas e o respeito: o que a apuração revela sobre a disputa no Tocantins e a mulher como é vista

Dorinha entre o poder, as rupturas e o respeito: o que a apuração revela sobre a disputa no Tocantins e a mulher como é vista
Crédito: Assessoria
Ricardo Fernandes AlmeidaPor Ricardo Fernandes Almeida 25 de outubro de 2026 19

A apuração do segundo turno ainda estava em andamento na noite deste domingo (25), mas os números parciais já mostravam uma mudança expressiva em relação à primeira etapa da eleição para o Governo do Tocantins. Dorinha, que havia terminado o primeiro turno à frente, aparecia atrás de Vicentinho Júnior em uma disputa marcada por novas alianças, pesquisas favoráveis ao adversário e reclamações da senadora sobre o tratamento recebido durante a campanha.

No recorte registrado às 19h34, com 40,31% das seções totalizadas, Vicentinho somava 215.911 votos, equivalentes a 62,66% dos válidos. Dorinha tinha 128.690 votos, ou 37,34%. Os números eram parciais e não correspondiam ao resultado final da eleição.

A diferença contrastava com o primeiro turno, quando a senadora obteve 45,52% dos votos válidos, contra 43,94% de Vicentinho. Entre uma etapa e outra, a disputa passou por uma reorganização de apoios e por um crescimento do candidato do PSDB nas pesquisas.

Na véspera da votação, a Quaest apontou Vicentinho com 59% dos votos válidos e Dorinha com 41%. Contratado pela TV Anhanguera, o levantamento ouviu 2.154 eleitores nos dias 23 e 24 de outubro, com margem de erro de dois pontos percentuais e registro TO-03069/2026.

A AtlasIntel apresentou um cenário semelhante: 59,5% dos votos válidos para Vicentinho e 40,5% para Dorinha. Foram entrevistados 1.891 eleitores entre 18 e 23 de outubro, com margem de erro de dois pontos percentuais e registro TO-01088/2026. Os levantamentos indicavam vantagem do adversário antes da abertura das urnas; a confirmação do resultado dependia da totalização.

Dorinha chegou à disputa com uma estrutura política relevante. Reuniu o apoio do governador Wanderlei Barbosa, do senador Eduardo Gomes e do prefeito de Palmas, Eduardo Siqueira Campos. Também recebeu manifestações favoráveis de Flávio Bolsonaro e Michelle Bolsonaro. Sua candidatura estava ligada ao grupo que ocupa o governo estadual e contava com lideranças de projeção local e nacional.

Essa estrutura, porém, sofreu rupturas. Uma das mudanças concretas foi a de Eli Borges, que integrou o grupo de Dorinha no primeiro turno e anunciou apoio a Vicentinho na segunda etapa. A adesão reforçou o palanque adversário, mas não levou consigo todas as lideranças religiosas relacionadas à trajetória do deputado.

O primeiro suplente de Eli, Suelismar Caetano, manteve Dorinha. A Ciadseta também reafirmou apoio à senadora, assim como o pastor Amarildo Martins e o deputado federal Filipe Martins. A divisão mostrou que o posicionamento de uma liderança não representa transferência automática dos votos de seus eleitores.

É nesse ambiente que surgem as avaliações sobre lealdade e “traições” políticas. A mudança de Eli é uma ruptura documentada. Já afirmar que aliados permaneceram formalmente com Dorinha enquanto trabalharam contra ela exigiria evidências específicas. A análise do resultado precisa distinguir abandono público de uma candidatura, divergências internas e suspeitas ainda não comprovadas.

Além das alianças, a campanha deixou uma discussão sobre o espaço das mulheres no poder. Após o debate da TV Anhanguera, Dorinha afirmou sentir-se desrespeitada como mulher. Na véspera da votação, relatou ter interpretado referências do adversário a um dossiê e a possíveis divulgações como tentativa de intimidação.

A senadora também reclamou que manifestações eram dirigidas a outros integrantes de seu grupo, em vez de reconhecer sua posição como candidata. Na avaliação dela, esse comportamento refletia práticas de machismo enfrentadas também por vereadoras e deputadas.

Ao votar em Palmas, resumiu a cobrança: “Não é a Dorinha. É a mulher que precisa ser respeitada”. A declaração deslocou a discussão de sua experiência individual para as condições de participação feminina na política tocantinense.

Dorinha tem uma trajetória que ajuda a dimensionar sua influência. Foi secretária de Educação, exerceu três mandatos de deputada federal e chegou ao Senado em 2022. Na Câmara, relatou a proposta que tornou o Fundeb permanente, consolidando sua projeção na área educacional.

Esse histórico permite reconhecer sua força e cobrar suas escolhas, seus compromissos e suas alianças. Também exige examinar com seriedade os relatos de desrespeito. A votação parcial não demonstra, por si só, que o machismo determinou o desempenho eleitoral, assim como não apaga as questões levantadas durante a campanha.

Enquanto a totalização prosseguia, o Tocantins já tinha elementos para discutir o alcance das alianças, os limites da influência dos líderes e o tratamento dado às mulheres que disputam o governo. O resultado das urnas define um mandato; a avaliação da campanha exige compreender como cada candidatura buscou conquistá-lo.

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