CFM alerta para riscos em proposta de ampliação do aborto legal

CFM alerta para riscos em proposta de ampliação do aborto legal
Fernanda CappellessoPor Fernanda Cappellesso 10 de fevereiro de 2025 3

O Conselho Federal de Medicina (CFM) manifestou preocupação com a tramitação de uma Arguição de Descumprimento de Preceito Fundamental (ADPF) no Supremo Tribunal Federal (STF), que busca permitir a realização do aborto legal por profissionais não médicos. A entidade alerta para os riscos à saúde da mulher, caso a medida seja aprovada.

Atualmente, conforme o Código Penal Brasileiro (CPB), o aborto não é punido quando praticado por um médico, nos casos em que não há outro meio de salvar a vida da gestante ou quando a gravidez resulta de estupro, desde que a mulher ou seu representante legal consinta. Já no entendimento firmado pelo STF na ADPF 54, a interrupção da gravidez também foi autorizada em casos de fetos anencéfalos.

O CFM argumenta que a exigência de um médico para realizar o procedimento existe justamente para garantir a segurança da paciente e prevenir complicações médicas. A proposta que tramita no STF visa permitir que outros profissionais de saúde, sem formação médica, realizem abortos nos casos já previstos na legislação.

Diante desse cenário, a reportagem consultou especialistas em saúde e direito para analisar os impactos da proposta.

Saúde: riscos médicos do aborto sem assistência especializada

Para o ginecologista e obstetra Dr. João Silva, a proposta pode comprometer a segurança das mulheres que buscam o aborto legal no Brasil.

“Mesmo quando realizado dentro das normas legais, o aborto pode apresentar riscos, como hemorragias e infecções. O médico tem formação para lidar com essas complicações de forma adequada. Transferir essa responsabilidade para profissionais não médicos pode aumentar a mortalidade materna.”

A especialista em saúde pública Dra. Maria Oliveira reconhece que há uma necessidade de ampliar o acesso ao aborto legal, principalmente em regiões com escassez de médicos. No entanto, ela destaca que a mudança deve ser feita com planejamento.

“É essencial garantir que qualquer profissional que venha a realizar um aborto tenha treinamento adequado. Além disso, o acesso à infraestrutura de emergência é fundamental para evitar complicações graves.”

Segundo os dados do Ministério da Saúde, entre 2023 e 2024, mais de 250 mil mulheres foram internadas em hospitais públicos devido a complicações decorrentes de abortos realizados sem segurança. Para especialistas, essa estatística pode aumentar caso a regulamentação não seja feita com critérios rigorosos.

Impactos jurídicos: mudanças na legislação e insegurança jurídica

O advogado criminalista Dr. Pedro Almeida ressalta que, caso a ADPF seja aprovada, haverá um conflito jurídico com o Código Penal, que determina que apenas médicos podem realizar abortos nos casos permitidos.

“O Código Penal deixa claro que o procedimento só pode ser realizado por médicos. Se a decisão do STF for contrária a esse entendimento, será necessária uma mudança na legislação, o que pode abrir brechas para judicialização e questionamentos futuros.”

A advogada especialista em direitos humanos Dra. Ana Costa destaca que a questão vai além da segurança jurídica e envolve o direito das mulheres ao acesso ao aborto legal e seguro.

“A restrição do aborto legal a médicos muitas vezes inviabiliza o acesso em diversas regiões do Brasil, principalmente nas periferias e no interior. Ampliar a possibilidade para outros profissionais de saúde pode facilitar o atendimento a mulheres que já têm o direito ao aborto garantido.”

O relato de quem já passou pelo aborto

W.A.L., de 29 anos, que não quis se identificar, realizou um aborto na adolescência, em Palmas, antes de completar 18 anos. Na época, a gravidez foi resultado de um estupro, mas ela enfrentou dificuldades para conseguir assistência legal e segura.

“Foi uma situação extremamente difícil. Fui de hospital em hospital, e ninguém queria me atender. No fim, precisei recorrer a um método clandestino, e quase morri. Se houvesse um atendimento mais acessível, minha história poderia ter sido diferente.”

Para especialistas, a falta de assistência adequada faz com que muitas mulheres recorram ao aborto clandestino, mesmo quando têm direito ao procedimento de forma legal.

O que esperar do STF e os próximos passos

O STF ainda não tomou uma decisão sobre a ADPF que propõe a ampliação do aborto legal para profissionais não médicos. O Conselho Federal de Medicina aguarda o devido processo legal, mas alerta que a mudança pode colocar a vida de milhares de mulheres em risco.

A discussão continua dividindo opiniões entre especialistas da área médica, jurídica e social, enquanto o Supremo deve analisar a questão nos próximos meses. Até lá, o acesso ao aborto legal no Brasil segue limitado aos casos previstos no Código Penal, exclusivamente sob responsabilidade de médicos.

O Ministério da Saúde e o STF foram procurados para comentar sobre o andamento da ADPF, mas até o momento não responderam. O espaço segue aberto.

 

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