Conclave de 2025: Igreja Católica se prepara para eleger novo papa em meio a divisões internas
Com nomes latino-americanos e africanos em ascensão, cardeais se preparam para eleger um novo papa num dos momentos mais sensíveis da história recente da Igreja
Com o início do Conclave marcado para 7 de maio, a Capela Sistina volta a ser o centro do mundo — não pelo espetáculo, mas pelo silêncio. Durante dias, 133 cardeais eleitores, todos com menos de 80 anos, estarão isolados do mundo exterior, desprovidos de celulares, internet e influências públicas. O objetivo: eleger o novo papa.
Mas antes mesmo da fumaça branca subir, o cenário interno revela uma Igreja dividida, pressionada por dilemas contemporâneos, heranças do pontificado de Francisco e o peso de demandas simbólicas vindas de dois continentes estratégicos: América Latina e África.
América Latina e África: entre o carisma e a urgência
Pela primeira vez desde 2013, cardeais do Sul Global surgem com força real na disputa. Enquanto parte da Cúria ainda busca um nome europeu moderado, o clima entre bastidores indica outro movimento.
Segundo fontes ligadas ao Colégio Cardinalício, a América Latina articula discretamente a ascensão de um papa com traços populares e proximidade com os pobres — uma continuidade pastoral da teologia de Francisco, mas com um olhar voltado à juventude e ao catolicismo periférico. O nome mais citado nesse grupo é o do cardeal hondurenho Oscar Rodríguez Maradiaga, conhecido por seu papel na reforma da Cúria, embora seu nome ainda gere resistências entre alas conservadoras.
Do lado africano, cresce o prestígio de nomes como o cardeal ganês Peter Turkson, que já esteve entre os favoritos no último Conclave, e o nigeriano John Onaiyekan, voz atuante em questões de justiça social e segurança inter-religiosa. Ambos representam o desejo de visibilidade global da Igreja africana, que cresce em fiéis e vocações religiosas, apesar das perseguições religiosas em diversos países do continente.
️ As sombras do Vaticano: grupos, coalizões e pressões
Oficialmente, o Conclave é um evento espiritual. Nos bastidores, trata-se de uma eleição com elementos de articulação política, influência teológica e alianças discretas.
Fontes do setor diplomático apontam que, embora os nomes estejam em aberto, há três grupos principais no Colégio Cardinalício:
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Reformistas: aliados do legado de Francisco, buscam um papa latino ou asiático com traços pastorais.
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Doutrinários: desejam um papa europeu com firmeza moral, voltado ao catecismo tradicional.
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Geopolíticos: focam em um papa do Sul Global como estratégia de reposicionamento institucional.
Há ainda os “reis sem trono” — cardeais influentes que não serão eleitos, mas decidirão quem será. Entre eles, Pietro Parolin (Itália), que concentra votos do setor diplomático, e Luis Antonio Tagle (Filipinas), cujo nome ganha força como síntese entre Oriente e Ocidente.
O que está em jogo além da escolha do nome
A eleição papal de 2025 não é apenas sucessória — é simbólica. A Igreja Católica enfrenta pressões internas como o combate a abusos, perda de fiéis na Europa, tensões com setores ultraconservadores e a urgência de novas formas de comunicação com os jovens.
Além disso, a guerra entre Rússia e Ucrânia, a tensão no Oriente Médio e o avanço de populismos religiosostornaram o papa uma figura cada vez mais demandada internacionalmente — como líder de paz e diplomacia moral.
Por isso, a escolha será também uma resposta estratégica do Vaticano ao mundo: manter a linha de Francisco ou reposicionar o papado em direção a um novo ciclo.
Brasil no Conclave: presença respeitada, influência limitada
O Brasil, país com maior número de católicos no mundo, terá presença garantida, mas influência moderada. O arcebispo de São Paulo, Dom Odilo Scherer, é um nome respeitado, mas não cotado como favorito. Internamente, sua atuação é mais articuladora do que propositiva — um eleitor confiável, mas não protagonista.
Já o nome de Dom Sérgio da Rocha, atualmente em Salvador, aparece em listas periféricas como um latino discreto e de perfil diplomático, embora sem bloco de apoio consolidado.
Um papa do Sul? Simbolismo que pode mudar a história
Se em 2013 a escolha de Francisco — um argentino jesuíta — já representava uma ruptura simbólica, em 2025 a eleição de um papa africano ou latino poderá consolidar um realinhamento global da Igreja.
“Não se trata apenas de geografia, mas de onde virá a espiritualidade dos próximos anos”, explica um vaticanista ouvido sob anonimato. “Se a Igreja decidir por alguém do Sul, ela está dizendo que o futuro da fé virá das margens.”
O mundo católico aguarda. Em silêncio