Geopolítica: Especialistas analisam como o Brasil seria impactado por uma guerra entre Venezuela e EUA

Geopolítica: Especialistas analisam como o Brasil seria impactado por uma guerra entre Venezuela e EUA
Fernanda CappellessoPor Fernanda Cappellesso 3 de dezembro de 2025 48

A hipótese de uma guerra aberta entre Venezuela e Estados Unidos, cenário considerado extremo por analistas, teria reflexos imediatos sobre o Brasil. Pela posição geográfica, pelo peso diplomático na América do Sul e pela interdependência econômica regional, o país entraria no centro da pressão internacional. Para entender como o conflito impactaria fronteiras, migrações, economia e diplomacia, o Diário Tocantinense ouviu cinco especialistas em segurança, relações internacionais, energia e defesa.

A fronteira vira linha de contenção — General Carlos Meirelles, ex-chefe do Comando Militar da Amazônia

Para o general Meirelles, qualquer escalada militar colocaria o Brasil sob “estado de alerta permanente” na fronteira com a Venezuela. Ele lembra que, durante a crise do Essequibo, o Exército reforçou Roraima com blindados, inteligência aérea e novos pelotões.
“Num conflito desse porte, o risco não é de invasão ao Brasil, mas de transbordamento: grupos armados cruzando a mata, refugiados em massa e movimentação irregular de armas. A reação imediata seria ampliar efetivos, monitorar espaço aéreo e endurecer o controle de estradas e rios”, afirma.

 Êxodo maior que o da crise humanitária — Carolina Dias, pesquisadora de migrações da UFRR

A especialista avalia que o impacto social seria “sem precedentes” para estados do Norte.
“O Brasil já acolheu mais de 400 mil venezuelanos em dez anos. Numa guerra, esse fluxo pode dobrar rapidamente, com perfis mais heterogêneos: famílias inteiras, classe média urbana, opositores políticos e militares desertores. Roraima não tem estrutura para absorver esse deslocamento sozinha. Seria necessário ampliar a Operação Acolhida e acelerar a interiorização”, explica.

Dias alerta que a pressão sobre saúde, escolas e abrigo tende a aumentar, e que cidades do interior do país seriam incorporadas ao processo de reassentamento.

 Petróleo, inflação e risco para o diesel — Henrique Moraes, economista e consultor do setor de energia

Segundo Moraes, o conflito impactaria diretamente o Brasil pela volatilidade do petróleo.
“A Venezuela tem uma das maiores reservas do mundo. Qualquer ataque ou bloqueio elevaria o preço da commodity. Isso atinge gasolina, diesel e transporte de cargas. Um choque prolongado afeta inflação, safra agrícola e frete rodoviário”, diz.

O economista afirma que os efeitos seriam sentidos em semanas: “Mesmo com autonomia de refino, o Brasil importa parte do diesel. Um conflito altera seguro internacional, transporte marítimo e custo do barril. O consumidor pagaria a conta”.

 Itamaraty sob pressão de Washington e Caracas — Lia Bentes, professora de Relações Internacionais da UnB

Para a especialista, o Brasil seria cobrado a abandonar a neutralidade histórica.
“O país tem relação estratégica com os EUA e fronteira terrestre com a Venezuela. Washington pressionaria por alinhamento político e condenação ao regime de Maduro. Já Caracas exigiria solidariedade regional para denunciar intervenção externa”, explica.

Ela avalia que o Brasil tentaria liderar mediação via CELAC, ONU e organismos sul-americanos, mas enfrentaria desgaste interno: “O conflito repercutiria na polarização brasileira, com grupos defendendo apoio aos EUA e outros acusando o governo de ceder ao imperialismo”.

Crime organizado e risco de expansão do Tren de Aragua — Marcelo Alvim, pesquisador de segurança transnacional

Alvim destaca que a instabilidade venezuelana abre espaço para organizações criminosas.
“O Tren de Aragua já opera rotas no Norte e no Centro-Oeste. Uma guerra enfraquece ainda mais o Estado venezuelano e amplia áreas sob controle de facções. Isso pode aumentar tráfico de armas, pessoas e drogas pela Amazônia”, afirma.

Ele projeta intensificação de operações policiais e militares na fronteira e necessidade de cooperação com EUA e países andinos. “Não é um risco militar clássico, mas um risco de criminalidade transnacional que afeta cidades brasileiras a milhares de quilômetros da fronteira.”

Cenário final: impacto inevitável, mesmo sem o Brasil entrar no conflito

A análise dos cinco especialistas converge em um ponto: o Brasil não entraria na guerra, mas sofreria consequências profundas. O país enfrentaria:

  • reforço militar permanente na fronteira;

  • migração acelerada e pressão social;

  • risco inflacionário causado pelo petróleo;

  • tensão diplomática entre Washington e Caracas;

  • aumento da atividade de grupos criminosos transnacionais.

A política externa brasileira precisaria equilibrar defesa da soberania, estabilidade regional e interesses econômicos com EUA e vizinhos. O conflito, ainda hipotético, deixaria a América do Sul diante de um dos maiores desafios desde o fim da Guerra Fria.

Notícias relacionadas