“Basta de ordens de Washington”: presidente interina da Venezuela critica influência dos EUA após captura de Maduro

“Basta de ordens de Washington”: presidente interina da Venezuela critica influência dos EUA após captura de Maduro
Fernanda CappellessoPor Fernanda Cappellesso 27 de janeiro de 2026 7

A presidente interina da Venezuela, Delcy Rodríguez, fez um discurso no domingo (25) no qual criticou a influência dos Estados Unidos sobre a política venezuelana e afirmou que o país não aceitará mais ordens de Washington. A fala ocorre em um contexto de tensões diplomáticas e reconfiguração de poder na Venezuela após a recente intervenção estadunidense no país vizinho.

Declaração e tom político

Durante um discurso proferido a trabalhadores do setor petrolífero no estado de Puerto La Cruz, na costa norte do país, Rodríguez afirmou que é preciso colocar fim à ingerência estrangeira na política venezuelana. Segundo a mandatária, as divergências internas devem ser resolvidas pelo próprio país, sem imposições externas, em referência direta às ações dos EUA após a captura do ex-presidente Nicolás Maduro.

“Aqueles que se atreveram a ir aos Estados Unidos agradecer pelo bombardeio contra nosso povo não merecem a dignidade deste país nem sua nacionalidade”, declarou Rodríguez, conforme registro da transmissão pela emissora estatal venezuelana.

Contexto da intervenção estadunidense

A retórica de Rodríguez se insere em um contexto de forte pressão dos Estados Unidos sobre a Venezuela. Em 3 de janeiro de 2026, forças estadunidenses realizaram uma operação que resultou na captura de Nicolás Maduro e de sua esposa, sendo ambos levados para os EUA para enfrentar acusações federais, incluindo narcoterrorismo. O presidente dos EUA, Donald Trump, chegou a afirmar que seu governo “está no controle da Venezuela” e que administraria o país até que uma transição fosse possível.

Após a captura de Maduro, o Tribunal Supremo venezuelano determinou que Delcy Rodríguez assumisse as funções presidenciais sob o regime vigente, em meio a uma crise institucional. Ela passou a liderar um governo que, na prática, se equilibra entre manter legitimidade interna e lidar com as expectativas de Washington sobre o futuro político e econômico do país.

Rejeição à tutela estrangeira e apelo ao diálogo

Rodríguez também propôs a realização de um “verdadeiro diálogo” entre atores políticos venezuelanos, com objetivo de buscar soluções internas para as divergências. Embora tenha reforçado a importância de tratar as diferenças políticas com respeito, ela deixou claro que não aceita mais ordens de potências estrangeiras, incluindo Washington, Bogotá ou Madri.

A presidente interina destacou que o país já “pagou um preço elevado” por confrontar as consequências de extremismos, sugerindo que a interferência externa agrava as tensões internas.

Repercussões internacionais

Especialistas em relações internacionais apontam que a declaração de Rodríguez reflete uma tentativa de reafirmar soberania nacional em meio ao que muitos analistas consideram uma crise de legitimidade política e institucional. A operação estadunidense foi interpretada por diversos países e organismos internacionais como uma violação da soberania venezuelana, suscitando debates sobre legalidade e princípios do direito internacional.

Embora Washington tenha argumentado que seu envolvimento visa promover uma transição democrática e combater o narcotráfico, a reação de Caracas sugere que a resistência política pode ampliar rupturas diplomáticas, inclusive com outros países latino-americanos que se posicionaram contra a intervenção.

O que está em jogo

A afirmação de Delcy Rodríguez — de que a Venezuela não aceitará mais ordens de Washington — sinaliza uma tentativa de reafirmação da autonomia política em um momento de grande pressão externa. A intensidade dos desdobramentos políticos, econômicos e diplomáticos dependerá tanto da capacidade interna de negociação quanto da postura dos Estados Unidos e de outros governos com interesses estratégicos na região.

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