Guerra pressiona energia no mundo, GLP cresce no Brasil e Sindigás alerta: “Coerência regulatória é essencial para garantir o Gás do Povo no Tocantins”

O avanço das tensões geopolíticas no Oriente Médio e seus reflexos no mercado internacional de energia reacendem o debate sobre segurança energética e preços do gás de cozinha no Brasil. Em meio a uma das maiores projeções de crescimento do setor de Gás Liquefeito de Petróleo (GLP) dos últimos anos, o Sindicato Nacional das Empresas Distribuidoras de Gás Liquefeito de Petróleo defende coerência regulatória para garantir estabilidade operacional e sustentabilidade do programa Gás do Povo, especialmente em estados como o Tocantins.
Dados da Empresa de Pesquisa Energética indicam aumento de 3,5 bilhões de litros na demanda nacional por combustíveis líquidos e GLP em 2026, com previsão adicional de 3,1 bilhões em 2027. No segmento de GLP, o crescimento ocorre em patamar não observado nos últimos anos, impulsionado por fatores como aumento da renda, pleno emprego e ampliação do programa social.
Em entrevista ao Diário Tocantinense, o presidente do Sindigás, Sergio Bandeira de Mello, afirmou que o momento é estratégico. “Estamos diante de um cenário de crescimento relevante do mercado. O Gás do Povo, agora política permanente, pode romper o ciclo da pobreza energética, mas isso exige previsibilidade regulatória e segurança operacional”, declarou.
Preço do botijão no Tocantins
No Tocantins, o preço médio do botijão de 13kg varia entre R$ 110 e R$ 130, podendo superar essa faixa em municípios mais distantes dos centros de distribuição. A média nacional oscila entre R$ 95 e R$ 120, conforme levantamentos de mercado.
Os valores são impactados por fatores como cotação internacional do petróleo, câmbio, custos logísticos e carga tributária estadual. Com a instabilidade internacional provocada pela guerra no Oriente Médio, há preocupação com possíveis oscilações indiretas no setor energético.
Especialistas apontam que, embora o Brasil tenha produção e estrutura logística próprias, o mercado não está isolado das pressões globais, especialmente quando há alta no petróleo e no frete marítimo.
Crescimento do setor e impacto social
O Brasil encerrou 2025 com 7,7 milhões de toneladas de GLP comercializadas, consolidando-se como o sexto maior mercado residencial do mundo. Ainda assim, o país enfrenta desafios relacionados à pobreza energética.
O Balanço Energético Nacional (BEN 2025) aponta que a lenha representa 23% da matriz energética residencial brasileira, sendo o segundo combustível mais utilizado nos lares. No Tocantins, especialmente em áreas rurais, a utilização de lenha ainda é realidade em diversas comunidades.
“O GLP é 98,6% menos poluente no ambiente doméstico. A substituição da lenha pelo gás de cozinha tem impacto direto na saúde e na qualidade de vida das famílias”, destacou Bandeira de Mello.
O Gás do Povo prevê distribuição de até 68 milhões de vouchers por ano, com potencial de elevar a demanda nacional entre 7% e 8%.
Segurança e modelo regulatório
O Sindigás defende a manutenção de dois pilares considerados essenciais: a proibição da venda fracionada de GLP e a exigência de que o envase seja realizado pela distribuidora que ostente a marca comercial no botijão, conforme regulamentação da Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis.
Segundo o presidente da entidade, a marca garante rastreabilidade e responsabilidade civil e criminal sobre o recipiente e a carga. “Em um programa que pode alcançar até 15 milhões de famílias, segurança e clareza de responsabilidade são condições básicas”, afirmou.
O setor opera atualmente com 19 distribuidoras autorizadas pela ANP, 182 bases de distribuição e um parque estimado de 141 milhões de botijões de até 13kg em circulação. Em 2025, cerca de 22 milhões de recipientes passaram por requalificação técnica.
Para absorver a expansão prevista, o mercado estima necessidade de produção entre 5 e 10 milhões de novos botijões, com investimentos próximos a R$ 2,5 bilhões.
Tocantins no cenário nacional
Com presença em 100% dos municípios brasileiros e 91% dos lares, o gás de cozinha é item essencial na cesta básica energética das famílias. No Tocantins, onde a logística encarece parte da distribuição, a estabilidade regulatória é apontada pelo setor como condição para evitar desorganização de mercado e riscos à segurança.
A Lei nº 15.348/2026, que consolidou o Gás do Povo como política permanente, atualizou o marco legal do GLP e revogou dispositivos considerados ultrapassados, permitindo maior adequação à realidade tecnológica atual.
Em meio ao crescimento projetado e à instabilidade internacional, o setor defende que eventuais mudanças regulatórias sejam precedidas de estudos técnicos e análises de impacto econômico e social.
Para o Sindigás, a combinação entre expansão da demanda, programa social e cenário internacional delicado torna o momento decisivo para o futuro do GLP no país — e especialmente relevante para estados como o Tocantins, onde o gás de cozinha é determinante para segurança alimentar e energética das famílias.