Entre crochê, tule e memória: Thear cria vestido de noiva da protagonista de Coração Acelerado
Criação assinada pela estilista goiana Theodora Alexandre veste Agrado Garcia, personagem de Isadora Cruz, e leva a moda autoral de Goiás para a televisão em rede nacional
A moda autoral goiana ganhou vitrine em rede nacional com a exibição do vestido de noiva criado pela marca Thear para a protagonista da novela Coração Acelerado. A peça, assinada pela estilista goiana Theodora Alexandre, foi usada pela personagem Agrado Garcia, interpretada por Isadora Cruz, em cena exibida no capítulo desta segunda-feira (9), consolidando um novo momento para a marca sediada em Goiânia.
Com construção baseada em crochê manual, tule de algodão, fibras naturais e técnicas artesanais, o figurino traduz a identidade criativa da Thear e insere o trabalho da estilista em um espaço de ampla visibilidade dentro da dramaturgia nacional. A novela se passa na cidade fictícia de Bom Retorno, localizada no interior de Goiás, o que amplia a conexão simbólica entre a narrativa televisiva e a origem da criação.
A peça surge como síntese de uma proposta estética que une memória afetiva, arquitetura têxtil, sustentabilidade e saberes manuais, marcas que vêm definindo o trabalho da estilista e da marca nos últimos anos.
Convite surgiu após visita ao ateliê em Goiânia
O vestido nasceu a partir de uma visita da figurinista Sabrina Moreira ao ateliê da Thear, em Goiânia. Durante o encontro, a profissional conheceu o acervo da marca e os processos criativos desenvolvidos por Theodora Alexandre, que têm como base o uso de materiais naturais, técnicas manuais e uma lógica de produção atenta ao ciclo de vida das peças.
Segundo a estilista, foi desse contato direto com o universo da marca que surgiu o convite para desenvolver o figurino da protagonista.
“Ao ver as peças do nosso acervo, ela ficou encantada com o trabalho. Foi ali mesmo que surgiu o convite para desenvolver o vestido da personagem”, afirma Theodora Alexandre.
A criação foi construída em regime de cocriação entre a marca e a equipe de figurino da novela. O processo envolveu diferentes estudos até a aprovação final do vestido, com ajustes que dialogaram com a construção narrativa da personagem ao longo da trama.
Peça traduz a trajetória da personagem e valoriza o fazer manual

Pensado para a trajetória de Agrado Garcia, personagem de origem interiorana, o vestido foi desenhado para dialogar com esse repertório simbólico. O resultado é uma peça que recorre a referências do interior brasileiro e ao repertório do fazer manual, sem abrir mão de uma leitura contemporânea.
A estrutura parte de um corset com amarração nas costas, desenvolvido com linha de algodão sobre base de tule de algodão, revestido por módulos de crochê feitos manualmente com linha 100% algodão, formando desenhos orgânicos. A saia, em tecido encorpado, traz drapeados frontais e franzidos, construindo uma silhueta alongada, com equilíbrio entre estrutura e fluidez.
O visual é finalizado com uma mantilha em tule leve, com acabamento em renda gripir de algodão, elemento que reforça a atmosfera bucólica e o vínculo com a estética interiorana.
Theodora resume o processo como uma extensão da própria filosofia da marca.
“Eu costumo dizer que faço roupas com memória. São peças que carregam histórias: as minhas e as das pessoas que chegam até mim. Por isso, o ouvir foi fundamental para chegarmos ao corset e à saia. Sim, o ‘vestido de noiva’ é composto por duas peças, justamente para que possam ser usadas em novos momentos”, explica.
Esse detalhe — o fato de a criação ser composta por duas peças reutilizáveis — reforça uma dimensão importante do projeto: a sustentabilidade aplicada não apenas ao material, mas ao próprio conceito de permanência e reuso.
Sustentabilidade como linguagem, e não apenas discurso
A presença da Thear em uma novela nacional também projeta um debate cada vez mais central no setor de moda: o da produção autoral com responsabilidade ambiental e valorização do trabalho manual.
Em vez de operar a sustentabilidade apenas como argumento de marketing, a marca a incorpora como linguagem de criação. O uso de fibras naturais, a valorização de manualidades, a produção em escala autoral e a possibilidade de reaproveitamento da peça formam uma cadeia de sentido que acompanha toda a construção do vestido.
Essa abordagem se torna ainda mais relevante em um mercado em que a moda nupcial tradicional costuma estar associada a peças de uso único, tecidos sintéticos e baixa reutilização. Ao propor um vestido de noiva dividido em duas partes, com desenho pensado para novos usos, a Thear insere uma lógica de longevidade em um segmento historicamente marcado pelo consumo pontual.
Criação coletiva e rede de profissionais
Embora assinada por Theodora Alexandre, a peça foi desenvolvida a várias mãos, com participação de profissionais e artesãs em diferentes etapas do processo.
A construção da corseteria teve colaboração de Jerônima Baco. A designer Thaís Maciel participou do desenvolvimento criativo. Também integraram a execução profissionais responsáveis por crochê, modelagem, costura, bordado, direção de arte e audiovisual, compondo uma rede que reforça o caráter coletivo da moda autoral.
A ficha técnica reúne nomes como Ailton Gonçalves, Halynne Goulart, Rayane Silva, Roberta Brasil, Yasmin Ohanna, Zélia Cardoso, Evando Filho e Mayara Varalho, além do apoio do projeto Sou de Algodão, iniciativa ligada à valorização da cadeia produtiva do algodão brasileiro.
Vestido marca nova fase da marca goiana
Mais do que uma aparição no figurino de uma novela, a criação marca uma transição estratégica para a Thear.
Fundada há oito anos em Goiânia, a marca amplia sua atuação no mercado de moda autoral brasileira e passa a consolidar com mais força o segmento de criações sob medida e personalizadas, incluindo vestidos de noiva, peças para ocasiões especiais e projetos exclusivos.
Segundo Theodora, o trabalho personalizado parte de uma lógica de escuta e colaboração.
“Os modelos personalizados nascem de um processo de escuta e colaboração com o cliente, traduzindo desejos, histórias pessoais e referências afetivas em peças únicas. A proposta mantém os pilares que definem o trabalho da marca: fibras naturais, manualidades, sustentabilidade e a construção de peças pensadas para atravessar o tempo”, afirma.
A entrada mais estruturada nesse nicho indica um movimento de reposicionamento importante: sair do reconhecimento no circuito autoral e ampliar a presença em um mercado de maior valor agregado, sem abandonar a assinatura conceitual da marca.
De Goiânia para São Paulo e para o exterior
O vestido exibido em Coração Acelerado também antecede um novo ciclo de visibilidade para a Thear. O próximo passo da marca será um desfile solo em maio, em São Paulo, que marcará o lançamento da coleção Elementos 2.
Segundo a estilista, 2026 representa um marco na trajetória da marca, especialmente após a participação anterior na São Paulo Fashion Week (SPFW) e em outros espaços de projeção.
Na Casa de Criadores, a Thear apresentou peças inspiradas no Art Déco. Já na SPFW, levou à passarela uma coleção que articulou referências da poetisa Cora Coralina, do artista Antonio Poteiro e do Cerrado goiano, em leitura simbólica da fauna, da flora e dos elementos fogo e terra.
Em 2025, a marca também participou de uma mostra internacional na Holanda, ampliando a circulação da moda produzida no Centro-Oeste em contextos fora do país.
Esse percurso ajuda a dimensionar o significado da presença da Thear na novela: não se trata de um episódio isolado, mas de mais um passo em uma trajetória de consolidação da moda autoral goiana em circuitos de maior alcance.
Moda goiana amplia presença no imaginário nacional
Ao vestir uma protagonista de novela com uma peça construída a partir de crochê manual, algodão e referências do interior brasileiro, a Thear leva para a televisão aberta uma leitura de moda que se afasta do padrão industrializado e aproxima o figurino de uma narrativa de território, memória e autoria.
A operação é simbólica em dois níveis. Primeiro, porque projeta uma marca goiana em um dos espaços de maior alcance da cultura popular brasileira. Segundo, porque transforma um vestido de noiva — peça normalmente associada à tradição e ao consumo aspiracional — em um objeto de linguagem, processo e identidade.
Entre crochê, tule e memória, o vestido de Agrado Garcia funciona como vitrine de uma estilista e de uma marca. Mas funciona também como um sinal mais amplo: o de que a moda autoral produzida em Goiás disputa, cada vez mais, espaço no centro da narrativa nacional.