No Brasil, água ainda é privilégio: os projetos de Carlos Gaguim que colocam saneamento e dignidade no centro do debate

No Brasil, água ainda é privilégio: os projetos de Carlos Gaguim que colocam saneamento e dignidade no centro do debate
Fernanda CappellessoPor Fernanda Cappellesso 20 de março de 2026 7

Às vésperas do Dia Mundial da Água, propostas defendidas pelo deputado federal Carlos Gaguim reacendem uma pergunta incômoda: como um país gigante em recursos hídricos ainda convive com casas sem banheiro digno, água tratada e esgoto adequado?

Em um país que abriga uma das maiores reservas de água doce do planeta, a falta de saneamento básico ainda empurra milhões de brasileiros para uma rotina silenciosa de precariedade. A água chega de forma irregular em muitas regiões. O esgoto segue sem tratamento em parte relevante do território. E, em pleno 2026, ainda existe moradia popular sem estrutura sanitária compatível com o mínimo de dignidade.

É nesse ponto que o debate sobre saneamento deixa de ser apenas técnico e vira uma questão de saúde, pobreza, infância, moradia e dignidade humana.

Às vésperas do Dia Mundial da Água, celebrado em 22 de março, o tema volta ao centro da agenda pública, impulsionado por discussões no Congresso Nacional e por propostas legislativas que tentam atacar uma contradição histórica do Brasil: um país rico em água, mas ainda desigual no acesso ao básico. Entre essas iniciativas, ganham espaço os projetos defendidos pelo deputado federal Carlos Gaguim, que têm buscado colocar a pauta da água tratada, da infraestrutura sanitária e da moradia digna no centro do debate político.

A pergunta que move esse debate é direta — e incômoda: como o Brasil fala em desenvolvimento, mas ainda convive com famílias sem banheiro adequado, sem água tratada e sem rede de esgoto?

Um país com rios gigantes e desigualdades ainda maiores

O Brasil discute saneamento há décadas, mas os números continuam expondo o tamanho do atraso. O Marco Legal do Saneamento, aprovado em 2020, estabeleceu como meta atender 99% da população com água potável e 90% com coleta e tratamento de esgoto até 2033. O problema é que o país ainda corre contra um passivo histórico enorme.

Na prática, o saneamento continua sendo um dos retratos mais duros da desigualdade brasileira. O acesso à água e ao esgoto ainda varia conforme CEP, renda, região, cor da pele e localização urbana ou rural. Nas periferias, em comunidades isoladas e em áreas de expansão urbana desordenada, o que deveria ser direito segue funcionando como exceção.

E é justamente por isso que a pauta tem deixado de ser apenas um tema de engenharia e infraestrutura para se tornar um tema de justiça social.

Carlos Gaguim aposta em uma pauta que mexe com a vida real

Dentro desse cenário, o deputado federal Carlos Gaguim tem buscado posicionar o saneamento como um eixo central de debate, conectando a pauta da água ao cotidiano das famílias e à ideia de dignidade dentro da própria casa.

Uma das propostas que ganha destaque é o Projeto de Lei 302/2024, apresentado por Gaguim, que trata da exigência de banheiros adequados nas moradias vinculadas ao programa Minha Casa, Minha Vida. A lógica é simples, mas poderosa: moradia popular não pode ser medida apenas pela entrega da chave — ela precisa ser habitável com dignidade.

E isso muda o eixo do debate. Porque, no fundo, a proposta obriga o país a encarar uma verdade desconfortável: não basta entregar casa; é preciso entregar casa com condição sanitária mínima.

O que o projeto de Gaguim escancara

O mérito político do projeto está menos no texto frio da lei e mais no que ele expõe. Quando um parlamentar precisa apresentar uma proposta para reforçar a necessidade de banheiro adequado em habitação popular, isso revela que o Brasil ainda trata como avanço algo que deveria ser pressuposto.

Banheiro digno, ligação de água, estrutura de esgoto e condições mínimas de higiene não são luxo. São o piso da cidadania.

Na prática, o projeto defendido por Gaguim dialoga com uma visão mais ampla de saneamento: a de que a casa não termina na parede. Uma residência sem banheiro funcional, sem escoamento adequado e sem acesso regular à água tratada é uma moradia formalmente entregue, mas socialmente incompleta.

E esse é um debate que tem força para viralizar porque toca em algo que todo mundo entende: ninguém vive com dignidade sem água e sem banheiro.

Saneamento não é só obra: é saúde pública

O problema do saneamento no Brasil costuma aparecer em relatórios técnicos, mas o impacto real se manifesta nos postos de saúde, nas internações e na rotina das famílias.

A ausência de água tratada e esgotamento adequado está ligada à disseminação de doenças de veiculação hídrica, à sobrecarga do sistema público de saúde e à manutenção de ciclos de vulnerabilidade. Crianças são as mais expostas, especialmente em áreas de moradia precária, onde a combinação entre água irregular, descarte inadequado de esgoto e baixa infraestrutura sanitária agrava o risco de infecções.

Por isso, especialistas repetem uma máxima que a política pública ainda não conseguiu transformar em prioridade absoluta: cada real investido em saneamento reduz custo em saúde, aumenta produtividade e melhora indicadores sociais.

Ou seja: saneamento não é gasto. É prevenção.

O Brasil avançou, mas ainda não universalizou o básico

Desde o novo marco do saneamento, o país passou a operar com metas mais agressivas de universalização e com maior entrada de capital privado no setor. Entre 2020 e 2024, a participação do setor privado no saneamento brasileiro subiu de 5% para 22%, num movimento que reconfigurou concessões e PPPs em diferentes estados.

Mas a ampliação de modelos de concessão e a discussão sobre investimentos não resolveram, por si só, o problema da desigualdade territorial. O desafio continua sendo o mesmo: chegar onde o mercado demora, onde a política falha e onde o investimento historicamente não chegou.

É por isso que o debate sobre água e saneamento segue tão sensível. Não se trata apenas de obras. Trata-se de decidir quem entra primeiro na fila da dignidade.

Quando a casa é entregue sem estrutura, o problema muda de nome — mas continua sendo exclusão

No discurso oficial, programas habitacionais costumam ser apresentados como resposta ao déficit de moradia. E são. Mas a experiência de quem recebe a casa muitas vezes mostra que o problema não termina na entrega.

Se falta água, se o banheiro é inadequado, se não há esgotamento sanitário funcional, a família continua vivendo uma forma de precariedade — agora dentro de uma estrutura formalmente regularizada.

É exatamente nesse ponto que a proposta de Gaguim ganha força política e simbólica. Ela desloca o debate do número de unidades entregues para a qualidade real da moradia entregue.

Isso tem alto potencial de repercussão porque quebra uma narrativa confortável: a de que política habitacional se resume à obra concluída. Não se resume. Moradia sem saneamento é endereço sem dignidade.

A água virou tema moral, social e eleitoral

À medida que o país se aproxima de novos ciclos eleitorais e intensifica o debate sobre infraestrutura, saúde e qualidade de vida, a pauta da água tende a ganhar ainda mais peso.

E isso não acontece apenas porque o Dia Mundial da Água cria uma janela simbólica. Acontece porque água, esgoto e moradia adequada são temas que conectam:

  • saúde pública;

  • infância;

  • desigualdade social;

  • pobreza urbana;

  • desenvolvimento regional;

  • orçamento público;

  • infraestrutura;

  • e dignidade humana.

Carlos Gaguim percebeu isso ao apostar em uma pauta que, embora técnica no papel, é profundamente emocional na vida real.

Porque ninguém precisa ser especialista para entender o absurdo de uma casa sem banheiro adequado. E ninguém precisa ler um relatório para saber que água limpa ainda separa o Brasil oficial do Brasil real.

O caso do Tocantins ajuda a dar força ao debate

No Tocantins, o tema também tem força simbólica e política. Em um estado com forte expansão urbana, crescimento de bairros periféricos e desafios históricos de infraestrutura em algumas localidades, o debate sobre saneamento não é abstrato.

Ele aparece em reclamações sobre abastecimento, em queixas sobre rede, em problemas de esgoto, em demandas de moradia popular e na própria percepção de que o desenvolvimento urbano não pode ser medido apenas por obras visíveis, mas também pela infraestrutura invisível que sustenta a vida cotidiana.

E é exatamente aí que a narrativa pode ganhar tração: falar de água é falar de saúde, de mulher, de criança, de casa, de periferia e de futuro.

Dia Mundial da Água: o Brasil precisa parar de tratar o básico como favor

O Dia Mundial da Água deveria ser uma data de celebração. No Brasil, ainda é uma data de cobrança.

Cobrança por água tratada.
Cobrança por esgoto.
Cobrança por banheiro digno.
Cobrança por moradia que não adoeça.
Cobrança por políticas públicas que não entreguem apenas parede, mas condições reais de vida.

Ao colocar esse debate em pauta, os projetos defendidos por Carlos Gaguim ajudam a deslocar a conversa do simbolismo para a materialidade. O que está em jogo não é só a retórica da sustentabilidade. É algo mais básico — e mais urgente.

Em um país que se orgulha de seus rios, ainda há brasileiros lutando pelo direito de abrir a torneira e ter água limpa.

E talvez seja justamente por isso que essa pauta tenha tanto potencial de repercussão: porque ela não fala apenas de saneamento. Ela fala de um Brasil que ainda não universalizou a própria dignidade.

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