Entenda por que Cláudio Castro deixou o governo do Rio antes do julgamento no TSE e quem assume o comando do estado

Entenda por que Cláudio Castro deixou o governo do Rio antes do julgamento no TSE e quem assume o comando do estado
Ricardo Fernandes AlmeidaPor Ricardo Fernandes Almeida 23 de março de 2026 6
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Governador renunciou na véspera da retomada do julgamento que já tinha placar de 2 a 0 pela cassação; sem vice em exercício, comando passa ao presidente do Tribunal de Justiça, e Alerj terá de eleger um governador-tampão

A saída de Cláudio Castro do comando do Rio de Janeiro nesta segunda-feira, 23, não foi apenas um gesto político de antecipação de agenda. Foi uma decisão calculada, tomada na véspera da retomada, no Tribunal Superior Eleitoral, do julgamento que pode cassar seu mandato e torná-lo inelegível por até oito anos.

O caso chega à nova sessão do TSE em situação delicada para o governador. Antes do pedido de vista que suspendeu a análise, o placar já era de 2 votos a 0 pela cassação. O tribunal retoma o julgamento nesta terça-feira, 24, em um processo que investiga suposto abuso de poder político e econômico nas eleições de 2022.

A renúncia, nos bastidores, é tratada como uma tentativa de reduzir danos. Ao deixar o cargo antes de uma eventual decisão definitiva da Corte, Cláudio Castro tenta evitar que a perda do mandato se transforme em uma derrota política completa às vésperas do calendário eleitoral. A estratégia mira, sobretudo, a preservação de capital político para 2026, quando aliados avaliam que ele ainda pode tentar disputar uma vaga ao Senado, caso mantenha os direitos políticos.

O processo que ameaça o governador tem como foco as acusações de uso indevido da máquina pública durante a campanha à reeleição. A investigação envolve contratações temporárias sem transparência no Ceperj e na Uerj, em um suposto esquema que, segundo o Ministério Público Eleitoral, teria sido usado para favorecer a campanha de 2022. O caso foi julgado pelo TRE-RJ em 2024, quando Castro foi absolvido por 4 votos a 3, mas recursos levaram o processo ao TSE.

A decisão de deixar o cargo agora, portanto, tem um objetivo claro: mudar a moldura política da crise. Em vez de ser cassado no exercício do mandato, Cláudio Castro tenta reposicionar a própria saída como renúncia voluntária, preservando margem de manobra para seguir relevante na montagem da sucessão fluminense.

Mas a renúncia abre um problema ainda maior para o Rio de Janeiro: não há vice-governador em exercício.

Esse é o ponto que muda toda a sucessão. O antigo vice, Thiago Pampolha, deixou o cargo em 2025 para assumir uma cadeira no Tribunal de Contas do Estado. Com isso, não existe substituição automática dentro da chapa eleita. A vacância é dupla, e o estado entra em um rito excepcional.

Sem vice, quem assume interinamente o comando do estado é o presidente do Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro, desembargador Ricardo Couto. Ele ocupa o cargo de forma provisória, apenas para garantir a estabilidade institucional até a definição do próximo passo político.

A etapa seguinte será a convocação de uma eleição indireta na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj). Como a vacância ocorre na segunda metade do mandato, caberá aos deputados estaduais escolher um governador-tampão para comandar o estado até o fim da atual gestão. O problema é que esse processo também está cercado de incerteza jurídica.

Na semana passada, o ministro Luiz Fux, do Supremo Tribunal Federal, suspendeu trechos da lei estadual que regulamentava essa eleição indireta. Entre os pontos alterados, Fux derrubou a previsão de voto aberto e restabeleceu a exigência de desincompatibilização de seis meses para candidatos que ocupam cargos públicos, o que embaralha a disputa e pode tirar da corrida alguns dos nomes mais cotados.

Na prática, isso significa que a renúncia de Cláudio Castro não apenas muda o comando do Palácio Guanabara. Ela também transfere o centro da crise para a Alerj, que agora se torna o principal palco da disputa pelo poder no curto prazo.

O movimento tem dois efeitos imediatos. O primeiro é institucional: o Rio entra em um período de transição com governo interino e eleição indireta no horizonte. O segundo é eleitoral: Cláudio Castro tenta sair do papel de governador prestes a ser cassado para o de liderança política que ainda busca influenciar a sucessão e preservar espaço em 2026.

Do ponto de vista jurídico, a renúncia não garante blindagem automática. O TSE ainda pode prosseguir com o julgamento e discutir consequências sobre os direitos políticos do ex-governador. Mas, do ponto de vista político, a manobra tenta evitar a imagem de queda definitiva em pleno exercício do cargo.

É por isso que a decisão desta segunda-feira deve ser lida menos como despedida administrativa e mais como movimento de sobrevivência política.

No fim, o recado é claro: Cláudio Castro não saiu apenas porque o calendário apertou. Ele saiu porque o risco de cassação se tornou concreto, iminente e já estava materializado em votos no TSE. E, sem vice, sua saída joga o Rio de Janeiro em uma das sucessões mais incomuns e mais tensas dos últimos anos.

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