PSD e PSDB entram em semana decisiva no Tocantins sob pressão de ato com Dorinha e Wanderlei

PSD e PSDB entram em semana decisiva no Tocantins sob pressão de ato com Dorinha e Wanderlei
Crédito: Montagem
Ricardo Fernandes AlmeidaPor Ricardo Fernandes Almeida 24 de março de 2026 10

A política do Tocantins entra, nesta semana, em um dos momentos mais sensíveis e reveladores da pré-disputa de 2026. O que até aqui era tratado como articulação de bastidor, ensaio de alianças e movimentação silenciosa de grupos começa a ganhar forma pública, calendário e demonstrações concretas de força. Em Palmas, os próximos dias devem funcionar como um verdadeiro teste de musculatura para os principais atores do tabuleiro estadual: de um lado, o PSD, que tenta transformar seu encontro estadual em vitrine de viabilidade para o projeto de Laurez Moreira; de outro, o grupo governista, que acelera a construção da pré-candidatura de Professora Dorinha Seabra com sinais cada vez mais visíveis de convergência com o governador Wanderlei Barbosa. No meio desse jogo, o PSDB aparece como sigla em busca de relevância num centro político em transformação, pressionado a mostrar se ainda tem densidade própria ou se seguirá orbitando composições maiores.

O primeiro grande termômetro será o Encontro Estadual do PSD, marcado para esta quarta-feira (25), às 10h, no auditório da Associação Tocantinense de Municípios (ATM), em Palmas. O ato foi desenhado para ser mais do que um evento partidário protocolar. Sob comando do vice-governador Laurez Moreira, o encontro terá a presença do presidente nacional da sigla, Gilberto Kassab, do senador Irajá, de dois ministros — Carlos Fávaro (Agricultura) e André de Paula (Pesca e Aquicultura) — além do líder da bancada do partido na Câmara, Antônio Brito. A leitura é inequívoca: o PSD tenta mostrar que não está apenas “marcando posição”, mas colocando no Tocantins uma operação de peso nacional para sustentar a pré-candidatura de Laurez ao Palácio Araguaia.

Esse evento, no entanto, chega cercado de pressão. O PSD precisa sair da quarta-feira com algo além de fotografia institucional. Precisa converter presença nacional em percepção real de força local. Em linguagem política: precisa mostrar prefeitos, vereadores, filiações, diretórios, base regional e capacidade de montar nominatas competitivas. Se entregar apenas um encontro bem organizado, mas sem efeito de adesão concreta, o partido corre o risco de reforçar a imagem de estrutura sem tração. E esse risco aumentou nos últimos dias com um movimento que foi lido nos bastidores como sinal de alerta: o deputado estadual Wiston Gomes decidiu deixar o PSD e migrar para o PL, legenda alinhada ao campo que apoia a pré-candidatura de Dorinha. A saída atinge diretamente a narrativa de expansão do partido no momento em que Laurez tenta vender robustez política.

Do outro lado, o grupo ligado ao Palácio Araguaia entra na semana com um ativo que vale mais do que discurso: sensação de fechamento de sistema. A pré-candidatura de Dorinha ao governo deixou de ser apenas uma hipótese bem posicionada e passou a ser tratada, em parte expressiva dos bastidores, como eixo prioritário do campo governista. Nos últimos dias, a senadora ampliou sua agenda política, consolidou a presidência da Frente Parlamentar do MATOPIBA, reforçou presença institucional e, sobretudo, intensificou os sinais de aproximação com Wanderlei. A agenda da noite de segunda-feira (23), em Brasília, em que Wanderlei Barbosa apareceu ao lado de Dorinha, da primeira-dama Karynne Sotero, do deputado federal Carlos Gaguim, do presidente da ATM, Big Jow, e de outras lideranças, foi lida como mais um recado político num momento em que o governador tenta calibrar a sucessão sem formalizar tudo de uma vez.

A percepção de que Dorinha avança em capilaridade também se apoia em números e movimentos regionais. Em março, uma articulação envolvendo gestores do Vale do Araguaia reforçou a narrativa de apoio territorial à senadora. Segundo relato de lideranças locais, 19 dos 20 prefeitos do consórcio da região já estariam alinhados ao projeto dela, num gesto que, se mantido, tem peso estratégico por se tratar de uma região relevante em volume político e por mostrar como a pré-campanha começa a se consolidar a partir da base municipal. Em estados como o Tocantins, onde prefeitos, vice-prefeitos e vereadores seguem sendo peças centrais na formação de palanques, esse tipo de apoio pesa tanto quanto alianças partidárias formais.

É nesse cenário que surge o segundo movimento decisivo da semana: o ato político previsto para sexta-feira (27), em Palmas, tratado nos bastidores como o grande momento de demonstração de força do grupo governista. A tendência é que o evento reúna Dorinha, Wanderlei, o senador Eduardo Gomes e outras lideranças do campo palaciano em um palanque que deve reunir prefeitos, deputados, vereadores e quadros partidários. A própria leitura de bastidor já é de que esse ato pode ser interpretado como algo próximo a um “lançamento ampliado” da pré-candidatura de Dorinha, ainda que, formalmente, as palavras usadas sigam sendo de cautela. A diferença entre os dois eventos, portanto, é clara: enquanto o PSD tentará provar que tem projeto viável, o grupo de Dorinha tentará vender a ideia de que o jogo já começou a se fechar em torno de uma candidatura competitiva e com apoio crescente da máquina política.

Nesse ponto, o PSDB entra menos como protagonista central e mais como símbolo de uma transformação maior do centro político tocantinense. A sigla ainda se movimenta, lançou em janeiro o projeto “Tocantins da Esperança” e tenta manter algum grau de presença programática no debate estadual. Mas, na prática, o partido disputa hoje espaço em um ambiente em que o centro tradicional perdeu densidade e foi parcialmente absorvido por legendas como PSD, MDB, União Brasil, PSB e PL. Por isso, quando se fala que “PSD e PSDB terão de provar força”, a leitura mais honesta é a seguinte: o PSD ainda tenta mostrar que pode liderar um projeto de poder; o PSDB tenta provar que ainda pode ser mais do que uma sigla acessória numa composição alheia.

Mas nenhum personagem concentra tanta atenção estratégica quanto Amélio Cayres. O presidente da Assembleia Legislativa entrou no ano como um nome natural da base governista para a sucessão, mas viu o espaço se estreitar à medida que Dorinha ganhou tração e Wanderlei passou a ser associado, cada vez mais, a uma convergência com a senadora. Nos últimos dias, Amélio passou a ser o centro da especulação mais importante da semana: segue no projeto de disputar o governo ou migra para uma composição ao Senado? Há sinais em direções diferentes. De um lado, o nome dele circula com força para uma vaga ao Senado em uma eventual chapa encabeçada por Dorinha, especialmente se o grupo precisar acomodar interesses sem provocar ruptura. De outro, o próprio Amélio sinalizou em redes e movimentos recentes que ainda não desistiu da corrida ao Palácio. Em linguagem de bastidor: ele ainda não bateu o martelo, e a indefinição dele virou um dos fatores que podem mudar a temperatura desta semana.

É justamente aí que aparece o cenário mais comentado entre aliados e observadores: Amélio como “senador avulso” de Dorinha. O termo, ainda que informal, traduz uma engenharia eleitoral bastante plausível. Caso a composição principal do grupo governista exija encaixes mais rígidos entre União Brasil, PL, Republicanos e outros aliados diretos, Amélio poderia ser acomodado em uma candidatura ao Senado por uma legenda ou arranjo paralelo, sem necessariamente se tornar o nome orgânico de uma única sigla central da chapa. Essa solução permitiria preservar o capital político do presidente da Assembleia, reduzir tensões internas e manter o grupo governista unido em torno de Dorinha. O problema é que, até aqui, isso segue no terreno da construção — e, como todo movimento desse tipo, depende do timing de Wanderlei e da disposição dos partidos em ceder espaço.

Outro fator que torna esta semana especialmente sensível é o calendário. A proximidade do fim da janela partidária, lembrada por articulistas e colunistas locais, aumenta a pressão por definições. Em Tocantins, isso significa que cada evento deixa de ser apenas um encontro político e passa a funcionar como ferramenta de atração ou de deserção. Prefeitos observam para onde o vento sopra. Deputados medem a segurança de suas bases. Vereadores contam quem sobe no palco e quem evita foto. E dirigentes partidários tentam transformar presença em narrativa de inevitabilidade. Quando a política entra nesse estágio, o valor de um ato público não está apenas no número de cadeiras ocupadas, mas na mensagem que ele envia para quem ainda está em dúvida.

No plano mais amplo, o que está em disputa não é apenas quem largará na frente para o governo. O que está em jogo é quem conseguirá convencer o sistema político tocantinense de que já existe uma majoritária viável em formação. E esse é o tipo de percepção que muda tudo. Quando um grupo consegue instalar a sensação de que a chapa está quase pronta — mesmo sem anunciar formalmente todos os nomes — ele passa a atrair apoios por inércia. Prefeitos se aproximam para não ficarem isolados. Deputados negociam para não perder espaço. Partidos médios aceitam composições menos vantajosas para não correr o risco de ficarem fora do arranjo vencedor. Em estados de forte municipalismo, como o Tocantins, esse mecanismo costuma valer tanto quanto uma pesquisa.

Por isso, a semana que começa em Palmas pode ser lembrada, no futuro, como o momento em que a eleição de 2026 deixou de ser um tabuleiro aberto e passou a ganhar contornos mais definidos. Se o PSD entregar um encontro robusto, com adesão real e repercussão além da bolha partidária, Laurez ganha fôlego, Kassab valida o investimento e o partido compra tempo político. Se o ato ficar aquém da expectativa, a legenda corre o risco de sair menor do que entrou. Se o grupo de Dorinha transformar o evento de sexta em um grande gesto de convergência, com Wanderlei no centro da imagem e base municipal em peso, a leitura de bastidor tende a se consolidar: a de que a pré-candidatura da senadora deixou de ser apenas competitiva e passou a ser o eixo organizador do campo governista. E, se Amélio der qualquer sinal mais claro nessa mesma janela, o impacto pode ser ainda maior.

Em resumo, o Tocantins entra agora na fase em que eventos deixam de ser apenas agenda e passam a ser mensagem. O PSD tenta provar que tem tamanho. O PSDB tenta provar que ainda importa. O grupo palaciano tenta provar que já tem rumo. E o eleitorado, embora ainda distante da campanha oficial, começa a assistir ao que realmente define eleições no estado: quem consegue organizar máquina, palanque, partido e narrativa antes do outro.

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