Rico Melquiades entra na política, fala em “bolsa maconha” e reacende debate sobre o que a lei realmente permite no Brasil

O influenciador Rico Melquiades, campeão de A Fazenda 13 e dono de uma base de milhões de seguidores, decidiu trocar o entretenimento pelo palanque e já começou a campanha no mesmo idioma que o tornou popular: exagero, provocação e meme. Recém-filiado ao PSDB em Alagoas, ele anunciou que pretende disputar uma vaga de deputado federal em 2026 e viralizou ao prometer, entre outras propostas, “bolsa maconha”, cirurgias plásticas e outras falas em tom de deboche político. A cena, que à primeira vista parece apenas mais um corte de internet, acabou recolocando em evidência um tema que segue cercado de desinformação no país: o que, de fato, a legislação brasileira permite hoje em relação à cannabis.
A filiação foi noticiada nesta semana por veículos nacionais e marcou a entrada formal de Rico no jogo eleitoral alagoano. O influenciador passou a integrar a movimentação política ligada ao grupo do prefeito de Maceió, JHC, em uma estratégia que repete uma tendência crescente da política brasileira: partidos buscando nomes com alta capilaridade digital, forte apelo popular e grande capacidade de transformar polêmica em alcance. No lugar de trajetória partidária, entram números de seguidores. No lugar de debate programático, entram frases de efeito. E no lugar de proposta pública estruturada, entra a lógica do corte viral.
É justamente aí que a fala sobre “bolsa maconha” deixa de ser apenas piada e vira matéria. Porque, no Brasil de 2026, a palavra “maconha” continua mobilizando medo moral, desinformação jurídica e disputa política. Em junho de 2024, o Supremo Tribunal Federal decidiu que portar maconha para consumo pessoal não gera mais repercussão penal, desde que respeitados parâmetros definidos pela própria Corte. O STF fixou como referência até 40 gramas da substância ou até seis plantas fêmeas de cannabis, criando uma presunção relativa de uso pessoal — ou seja, um critério que ajuda a diferenciar usuário de traficante, mas que ainda depende da análise do caso concreto.
Isso não significa, porém, que a maconha tenha sido “liberada”. Esse é o ponto central da pauta e o principal erro que viralizações como a de Rico podem reforçar. A decisão do Supremo retirou a esfera criminal para o porte de uso pessoal dentro desses limites, mas a substância continua ilícita. O usuário pode ter a droga apreendida e ficar sujeito a medidas administrativas, sem registro criminal. Em fevereiro de 2025, o STF ainda confirmou esse entendimento, consolidando a linha de que o porte para consumo não deve ser tratado como crime, mas sem transformar a conduta em algo legalizado nos moldes de países que optaram pela regulação plena.
Ou seja: entre o meme e a realidade jurídica existe um abismo. Rico usa uma expressão que provoca e engaja, mas o Brasil continua longe de qualquer modelo de legalização ampla. O que existe hoje é uma descriminalização parcial e restrita, voltada a reduzir punições penais sobre usuários, enquanto o tráfico continua criminalizado e o Congresso segue dividido sobre os limites dessa decisão. Tanto que, depois do julgamento do STF, o Senado manteve em discussão propostas em sentido contrário e o tema seguiu tensionando a relação entre Judiciário e Legislativo.
Na outra ponta do debate, a cannabis medicinal avança por um caminho diferente e mais institucional. Em janeiro de 2026, a Comissão de Agricultura e Reforma Agrária do Senado voltou a colocar em pauta um projeto que cria um marco legal para o cultivo, a produção, a importação e o comércio de cannabis e derivados para fins medicinais, tanto para uso humano quanto veterinário. Em paralelo, a Anvisa aprovou em janeiro regras para cumprir decisão judicial relacionada à produção de cannabis medicinal com fins farmacêuticos, e o tema também avançou em discussões sobre cânhamo industrial e cultivo não psicoativo.
Esse contraste é o coração da matéria: enquanto o influenciador transforma a palavra “maconha” em slogan eleitoral de fácil viralização, o Estado brasileiro trata o tema em duas frentes muito diferentes — uma criminal, em que o STF reduziu a punição ao usuário; outra sanitária e regulatória, em que Senado, Anvisa e decisões judiciais discutem acesso terapêutico, produção controlada e segurança regulatória. Misturar esses campos é bom para algoritmo. Explicar a diferença é o que torna a pauta jornalística.
A ascensão de Rico também revela outra transformação mais ampla: a política brasileira está absorvendo o repertório da internet sem filtro. A candidatura não nasce de militância, trajetória legislativa ou base comunitária. Nasce da lógica da celebridade, do escândalo e da capacidade de pautar a conversa pública por meio de frases absurdas o suficiente para virar manchete. E isso impõe uma pergunta maior do que a própria figura do influenciador: quando a política vira extensão do entretenimento, o debate público amadurece ou apenas troca programa por performance?
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Créditos: Léo dias