Tocantins tem 111,9 mil famílias atendidas pelo Gás do Povo em abril e programa injeta R$ 12,9 milhões no estado

Tocantins tem 111,9 mil famílias atendidas pelo Gás do Povo em abril e programa injeta R$ 12,9 milhões no estado
Fernanda CappellessoPor Fernanda Cappellesso 16 de abril de 2026 0
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O gás de cozinha voltou ao centro da sobrevivência doméstica — e, no Tocantins, isso já aparece em números de escala. Em abril, 111.970 famílias tocantinenses estão sendo atendidas pelo programa Gás do Povo, do Governo Federal, segundo dados oficiais divulgados nesta semana. O recorte chama atenção por dois motivos: o primeiro é o tamanho da cobertura, que alcança mais de 366,3 mil pessoas no estado; o segundo é o perfil social do benefício, já que 94,3% dos lares contemplados no Tocantins têm mulheres como responsáveis familiares. Em um estado onde o custo da alimentação, do transporte e do botijão pesa diretamente no orçamento popular, o programa entra como uma política de alívio imediato e, ao mesmo tempo, como um termômetro da pobreza energética que ainda marca boa parte do país.

O volume de recursos ajuda a dimensionar esse impacto. Apenas em abril, o Tocantins recebe mais de R$ 12,9 milhões em investimento federal para a operação do programa. Na prática, isso significa dinheiro circulando nas revendas credenciadas, alívio parcial para famílias de baixa renda e uma redução do peso que o botijão de 13 kg passou a representar nos últimos anos na renda doméstica. Em um cenário em que o gás deixou de ser um item banal e passou a ser, para muitas famílias, um gasto que disputa espaço com comida e transporte, o benefício se transforma em política social de alto impacto cotidiano.

A capital Palmas concentra o maior número de famílias atendidas no estado em abril: são 14.824 lares beneficiados, com aporte superior a R$ 1,7 milhão. Na sequência aparecem Araguaína, com 9.799 famílias e mais de R$ 1,1 milhão em investimentos; Porto Nacional, com 4.161 famílias e R$ 482,3 mil; Gurupi, com 3.275 famílias e R$ 379,6 mil; e Araguatins, com 3.074 famílias e R$ 356,3 mil. O dado revela que o programa tem peso relevante nos maiores polos urbanos do estado, mas também reforça uma leitura política importante: a pressão do custo do gás não está restrita às capitais. Ela atravessa centros médios, periferias urbanas e cidades que dependem fortemente de renda transferida e consumo básico.

No plano nacional, o Gás do Povo alcança em abril cerca de 15 milhões de lares em todos os municípios brasileiros, com um investimento total superior a R$ 1,5 bilhão. O programa passou a operar em escala nacional após uma expansão em etapas iniciada em novembro de 2025, quando contemplava inicialmente um milhão de famílias em dez capitais. Em janeiro de 2026, avançou para as demais capitais e, em seguida, incorporou automaticamente as famílias que já recebiam o benefício no modelo anterior. O resultado é uma política que hoje se apresenta como uma das maiores iniciativas de cozimento limpo em curso no mundo, segundo o próprio governo federal.

Há um dado que merece atenção especial e ajuda a entender o alcance social da medida: em abril, 105.541 famílias atendidas no Tocantins têm mulheres como responsáveis familiares. Nacionalmente, o índice é ainda maior: 96,1% dos lares contemplados têm liderança feminina. O número não é apenas estatístico. Ele indica que o programa se conecta diretamente com o cotidiano das mulheres mais expostas à gestão do orçamento doméstico, especialmente em famílias de baixa renda. Em contextos de vulnerabilidade, o gás não é apenas um insumo doméstico — ele é uma condição mínima para cozinhar com segurança, evitar improvisos e reduzir riscos sanitários e de acidentes dentro de casa.

Esse ponto é central porque o programa também é apresentado pelo governo como uma política de combate à chamada pobreza energética. Ao garantir a recarga gratuita do botijão de 13 kg, o Gás do Povo busca reduzir o uso de alternativas precárias, como lenha, carvão e querosene, que ainda fazem parte da rotina de famílias empobrecidas em diferentes regiões do país. Essas alternativas expõem sobretudo mulheres e crianças à fumaça tóxica, a doenças respiratórias, queimaduras e acidentes domésticos. No Tocantins, onde coexistem áreas urbanas periféricas e regiões com vulnerabilidades estruturais mais profundas, esse tipo de impacto ultrapassa a lógica do auxílio financeiro e entra no campo da saúde pública.

Mas há um detalhe importante: o benefício cobre a recarga do botijão de 13 kg, não necessariamente todos os custos do processo. O vasilhame e o frete não estão incluídos no valor. Isso significa que, embora a política alivie fortemente a compra do gás, ainda pode haver barreiras práticas para famílias em municípios mais distantes, com menor oferta de revendas ou com custos logísticos mais altos. É justamente por isso que o governo também aposta na expansão do credenciamento das revendas. Hoje, segundo os dados oficiais, o programa já conta com mais de 24 mil revendas credenciadas em todo o país.

No Tocantins, o programa também ajuda a medir a dimensão da vulnerabilidade social. Quando um estado registra quase 112 mil famílias dependendo de uma política pública específica para acessar gás de cozinha, o dado diz muito sobre a pressão do custo de vida. O botijão, que antes era percebido como item rotineiro, passou a integrar o núcleo duro da sobrevivência doméstica. Isso tem impacto direto sobre o orçamento, a alimentação e a saúde. Famílias que deixam de comprar gás tendem a improvisar: cozinham menos, mudam a rotina alimentar, recorrem a soluções mais baratas e mais perigosas. O programa, nesse contexto, não resolve toda a equação da pobreza, mas atinge um dos seus pontos mais visíveis e mais concretos.

O acesso ao benefício depende de critérios específicos. O Gás do Povo prioriza famílias do Bolsa Família e exige renda per capita de até meio salário mínimo, além de Cadastro Único atualizado nos últimos 24 meses. O CPF do responsável familiar precisa estar regular, sem pendências cadastrais, e a família deve ter pelo menos duas pessoas na composição. A consulta pode ser feita pelo aplicativo Meu Social – Gás do Povo, pelo site oficial do programa ou pelo Disque Social 121. Ou seja: embora a política tenha escala, ela continua exigindo organização cadastral, o que pode se tornar uma barreira para parte do público mais vulnerável se houver desatualização ou inconsistência no CadÚnico.

Outro dado relevante é que o governo já anunciou reajuste nos valores de referência do programa, com impacto estimado em R$ 300 milhões. A justificativa oficial é ampliar a adesão de revendas, especialmente em municípios ainda desatendidos ou com cobertura insuficiente. Esse movimento é importante porque a expansão territorial de uma política como essa depende menos do anúncio e mais da capilaridade real. Em outras palavras: o programa só funciona de verdade quando o beneficiário consegue encontrar uma revenda próxima, credenciada e operacional.

No Tocantins, portanto, o Gás do Povo se consolida em abril como mais do que um programa assistencial. Ele vira um retrato social do presente. De um lado, mostra capacidade de alcance, presença nacional e efeito imediato no orçamento das famílias. De outro, escancara o quanto o gás de cozinha se transformou em marcador de desigualdade. Quando quase 112 mil famílias precisam de ajuda pública para cozinhar com segurança, o dado não fala apenas de política social. Fala do custo de viver, do peso do básico e do tamanho da fragilidade econômica que ainda atravessa a rotina de milhares de lares tocantinenses.

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