Mulheres, baixa renda e jovens concentram alta da inadimplência no Brasil, mostra retrato de uma década
O Brasil fechou o início de 2026 com um recorde histórico de inadimplência: 81,7 milhões de consumidores com o nome negativado, alta de 38,1% em relação a fevereiro de 2016, quando eram 59 milhões. O volume total de dívidas saltou para 332 milhões, crescimento de 43% no período, enquanto a dívida média por pessoa alcançou R$ 6.598 – um aumento real de 12,2% após correção pela inflação.
Os dados, do Mapa da Inadimplência da Serasa Experian divulgado em março, revelam não apenas o avanço quantitativo do endividamento, mas também mudanças no perfil dos devedores. Mulheres passaram a ser maioria entre os negativados, famílias de baixa renda concentram quase metade do total e, embora a participação relativa dos mais jovens tenha recuado, o Banco Central aponta maior vulnerabilidade nessa faixa etária.
Pela primeira vez em dez anos, as mulheres lideram o ranking de inadimplentes. Elas representam 50,5% do total (cerca de 40,4 milhões), ante 49,8% em 2016. Os homens caíram para 49,5%. A inversão coincide com o protagonismo feminino na gestão das finanças domésticas e maior uso de crédito para complementar a renda, especialmente em modalidades como cartão de crédito.
Levantamentos da Confederação Nacional de Dirigentes Lojistas (CNDL) e do Serviço de Proteção ao Crédito (SPC Brasil) reforçam a tendência: em fevereiro de 2026, as mulheres eram 51,35% dos devedores.
A concentração na base da pirâmide de renda é ainda mais acentuada. Quase metade (48%) dos inadimplentes ganha até um salário mínimo. Outros 30% recebem entre um e dois salários mínimos. O crédito, que se expandiu via fintechs e apps, passou a funcionar como ponte para o pagamento de contas essenciais, como luz, água e gás, em um contexto de juros elevados e inflação persistente sobre alimentos e serviços.
Quanto aos jovens, o quadro é duplo. A participação da faixa de 18 a 25 anos na inadimplência geral caiu de 15,93% para 11,45% entre 2016 e 2026, segundo a Serasa. No entanto, o Relatório de Cidadania Financeira do Banco Central (2025) mostra que a taxa média de inadimplência entre jovens é de 3,3%, contra 2,1% da média adulta. Entre os de baixa renda (até dois salários mínimos), o índice chega a 17,4%. O acesso ao crédito dobrou em oito anos, mas sem planejamento financeiro adequado, o que eleva o risco de superendividamento logo no início da vida adulta.
O envelhecimento da inadimplência também aparece no mapa da Serasa: a fatia de consumidores acima de 60 anos subiu de 12,23% para 19,41% no período, refletindo o impacto de aposentadorias menores e custos crescentes de saúde e moradia.
Especialistas atribuem o cenário a uma combinação de fatores estruturais. “O avanço da inadimplência ao longo da última década reflete uma combinação de fatores econômicos e comportamentais. O período foi marcado por juros elevados e pressão inflacionária, que impactaram diretamente o orçamento das famílias. Ao mesmo tempo, houve ampliação do acesso ao crédito, muitas vezes sem o devido planejamento, levando parte dos consumidores a utilizá-lo como complemento de renda, e não como um recurso pontual”, afirma Aline Vieira, especialista em educação financeira da Serasa.
O relatório do Banco Central reforça que mulheres negras de baixa renda pagam as taxas de juros mais altas do mercado – em média 140% ao ano em algumas modalidades, contra cerca de 97% para homens brancos –, concentrando dívidas no rotativo e no parcelado do cartão, os produtos mais caros.
A reincidência é outro sinal de cronicidade: 42% dos inadimplentes atuais (cerca de 34 milhões) já estavam negativados há uma década. Isso indica que, para muitos, a saída do vermelho não se sustenta sem mudanças no comportamento financeiro ou em políticas de renegociação mais acessíveis.
O cenário ocorre em um momento de Selic ainda elevada e de recuperação gradual do poder de compra, após anos de pandemia e choques inflacionários. Programas como o Desenrola Brasil e feirões de renegociação da Serasa têm ajudado a limpar nomes, mas especialistas defendem educação financeira desde a escola e oferta de crédito mais responsável como medidas de longo prazo para reduzir a vulnerabilidade de mulheres, jovens e famílias de baixa renda.
Enquanto o volume de dívidas não dá sinais de recuo, o “novo retrato” traçado pela Serasa e pelo Banco Central serve como alerta para o peso desproporcional que a inadimplência carrega sobre os grupos mais expostos à instabilidade econômica.