Entre o Tempo e a Toga: a Justiça que precisa acordar

Entre o Tempo e a Toga: a Justiça que precisa acordar
Fernanda CappellessoPor Fernanda Cappellesso 28 de abril de 2026 0
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No coração do poder, entre mármores que não falam e pilhas de processos que parecem não terminar, Flávio Dino levanta a voz. Não como quem grita, mas como quem compreende que o eco da Justiça já não ressoa — arrasta-se.
Dizem que o tempo é cego.

No Judiciário, por vezes, ele também é lento — e essa lentidão não é neutra: ela escolhe vítimas. Escoa entre carimbos, recursos, ritos e formalidades que, sob o pretexto da cautela, transformam-se em adiamento permanente.

Enquanto o tempo hesita, a dor não suspende seu curso, a injustiça não entra em recesso, o cidadão não pode pausar a própria vida. Há decisões que chegam tarde — e, quando chegam, já não são Justiça: são arquivos com data.
Dino fala em reforma. Mas não se trata de superfície. Não é troca de móveis institucionais nem retoques de linguagem jurídica.

É uma convocação para mexer nos alicerces — naquilo que sustenta o próprio ato de julgar. Porque algo se rompeu quando a lei, concebida como ponte, passou a funcionar como labirinto.
Entre códigos e algoritmos, ergue-se outro impasse.

A promessa de eficiência traz consigo uma pergunta incômoda: até onde a máquina pode decidir destinos humanos? A lógica é precisa, mas não sente; calcula, mas não compreende. Regular a inteligência artificial não é conter o futuro — é impedir que ele se desumanize.

E há o ponto mais sensível, aquele que corrói por dentro: a toga. Símbolo de equilíbrio e sobriedade, ela não pode se converter em escudo para desvios.

Quando a corrupção infiltra a Justiça, o dano não é apenas jurídico — é civilizacional. Punir com rigor não é excesso; é preservar a credibilidade de um dos últimos pilares institucionais.
Mas toda reforma carrega um risco antigo: o de existir apenas como discurso.

O Brasil conhece bem reformas que mudaram a forma, preservando o vício; que alteraram a linguagem, mantendo a prática. Reformas que prometem ruptura, mas entregam continuidade.
Por isso, o momento exige mais que técnica — exige decisão política e coragem institucional.

Coragem para reduzir privilégios, simplificar o que foi deliberadamente complicado e devolver ao cidadão o que nunca deveria ter sido negado: uma Justiça que funcione no tempo da vida real.
No fim, a pergunta ultrapassa o Direito. É uma questão humana.

Que Justiça queremos?
A que se protege no tempo — ou a que enfrenta o tempo para não falhar com quem dela precisa?

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