Portelinhando Crônicas: O Dono da Novela
Nos bastidores da sabatina, diziam que havia muitos personagens,
mas um só autor.
Muitos falavam ao microfone;
um escrevia o roteiro em silêncio.
A novela parecia de Messias,
com câmeras voltadas ao indicado,
holofotes sobre sua biografia,
perguntas afiadas e votos contados como batimentos cardíacos.
Mas certas histórias exibem um protagonista invisível.
E naquele enredo o nome ecoava pelos corredores com passo firme:
Davi Alcolumbre.
Não precisou discursar longamente.
Há homens que governam mais pelo gesto do que pela palavra.
Basta inclinar a cabeça, atrasar uma pauta, acelerar um rito,
fechar uma porta ou abrir um cafezinho no momento exato.
A derrota histórica imposta ao governo não veio como acidente.
Veio como recado dobrado dentro da urna eletrônica do plenário.
Na política, números também falam —
e às vezes gritam.
O Senado ouviu o que o placar dizia:
quem manda na Casa conhece cada corredor,
cada vaidade,
cada dívida antiga,
cada ambição futura.
Alcolumbre sempre repetira a interlocutores próximos
que nada atravessa o Senado sem sua articulação direta.
Há frases que soam arrogantes quando pronunciadas cedo demais.
Mas, quando confirmadas pelos fatos,
passam a ser apenas descrição.
Naquele episódio, mostrou na prática.
Mais do que rejeitar um nome,
rejeitou a ideia de atalhos.
Mais do que derrotar um indicado,
derrotou a fantasia de que se governa o Parlamento por aplicativos de urgência.
Brasília tem dessas liturgias severas:
o Executivo indica,
o Senado sabatina,
mas o poder real costuma morar nos intervalos.
Enquanto o governo contava votos,
o presidente da Casa contava lealdades.
Enquanto ministros faziam ligações,
ele administrava silêncios.
Enquanto uns corriam atrás de apoios,
outros já tinham desenhado o mapa da derrota.
Messias saiu como personagem vencido.
Lula, como patrocinador contrariado.
Mas o plenário deixou claro quem encerrou o capítulo.
Porque certas novelas não terminam no último episódio.
Terminham quando o dono da emissora decide cortar a luz.
E no rodapé daquela sessão,
a República anotou mais uma lição antiga:
quem subestima o Senado
descobre tarde demais
que o roteiro já estava pronto.