Emenda de Eduardo Gomes busca reparação histórica para jogadoras esquecidas da Copa de 1995

Emenda de Eduardo Gomes busca reparação histórica para jogadoras esquecidas da Copa de 1995
Jogadoras da Seleção Brasileira feminina durante os anos 1990 ajudaram a consolidar o futebol feminino em um período marcado por falta de estrutura e reconhecimento institucional.
Fernanda CappellessoPor Fernanda Cappellesso 26 de maio de 2026 0

Proposta apresentada no Senado Federal tenta corrigir uma lacuna histórica no reconhecimento às pioneiras do futebol feminino brasileiro às vésperas da Copa do Mundo Feminina de 2027.

Durante décadas, elas jogaram sem salário, sem estrutura, sem patrocínio e, muitas vezes, sem sequer reconhecimento público. Representaram o Brasil em um período em que o futebol feminino ainda carregava o peso de uma proibição histórica e de um preconceito institucionalizado. Agora, quase 30 anos depois da Copa do Mundo Feminina FIFA de 1995, disputada na Suécia, oito dessas atletas podem finalmente receber um reconhecimento financeiro oficial do Estado brasileiro.

Uma emenda apresentada pelo vice-presidente do Senado Federal, Eduardo Gomes, propõe incluir as jogadoras brasileiras que participaram do Mundial de 1995 no projeto de lei que prevê premiação para pioneiras do futebol feminino no país.

A proposta tramita junto ao PL 1.315/2026, texto que estabelece medidas relacionadas à realização da Copa do Mundo Feminina FIFA de 2027 no Brasil. O projeto está em análise na Comissão de Esporte do Senado e tem como relatora a senadora Leila Barros, ex-atleta da seleção brasileira de vôlei e uma das principais vozes em defesa do esporte feminino no Congresso Nacional.

Atualmente, o projeto prevê premiação apenas para atletas que disputaram o 1988 FIFA Women’s Invitation Tournament — considerado precursor da Copa do Mundo Feminina — e para as jogadoras da edição de 1991. A emenda apresentada por Eduardo Gomes busca incluir também as atletas que defenderam o Brasil no Mundial de 1995.

“A emenda foi apresentada e tem grande chance de ser acatada. Estamos incluindo oito jogadoras que participaram da Copa do Mundo de 1995 e que merecem o mesmo reconhecimento concedido às atletas das edições anteriores. São mulheres que representaram o Brasil em um período em que o futebol feminino ainda enfrentava muitas barreiras”, afirmou o senador.

A proposta reacende um debate histórico sobre memória, reparação e desigualdade estrutural no esporte brasileiro.

O futebol feminino foi proibido oficialmente no Brasil entre 1941 e 1979 por decreto do Conselho Nacional de Desportos, sob a justificativa de que a modalidade seria “incompatível com a natureza feminina”. Mesmo após a revogação da proibição, as atletas seguiram durante décadas sem profissionalização, apoio institucional ou calendário estruturado.

Competir pela Seleção Brasileira nos anos 1990 significava enfrentar condições precárias que hoje parecem incompatíveis com o futebol de alto rendimento. Muitas atletas precisavam conciliar treinos com outros empregos para sobreviver. Não havia salários regulares, contratos robustos, centros de treinamento adequados ou políticas permanentes de incentivo.

Enquanto o futebol masculino já movimentava cifras milionárias, as jogadoras da seleção feminina atuavam praticamente em regime de resistência.

A justificativa apresentada na emenda sustenta que excluir as atletas da Copa de 1995 criaria uma distinção sem fundamento entre gerações que enfrentaram as mesmas dificuldades estruturais.

O texto cita o princípio da isonomia para defender que as jogadoras de 1995 integram o mesmo ciclo histórico das atletas já contempladas no projeto original.

Especialistas em políticas esportivas avaliam que o debate ultrapassa o aspecto financeiro. O reconhecimento institucional das pioneiras também possui peso simbólico em um momento em que o Brasil se prepara para sediar, pela primeira vez, uma Copa do Mundo Feminina.

O país vive atualmente um período de expansão do futebol feminino, impulsionado pelo crescimento de audiência, aumento de investimentos, fortalecimento de competições nacionais e maior presença de atletas brasileiras no exterior. Ainda assim, jogadoras históricas da modalidade seguem relatando invisibilidade e ausência de reparação institucional.

Se aprovada, a emenda permitirá que as oito atletas da Copa de 1995 tenham acesso ao prêmio financeiro previsto na legislação, condicionado à disponibilidade orçamentária da União.

Nos bastidores do Congresso, a proposta é vista como uma tentativa de corrigir uma dívida histórica construída ao longo de décadas de negligência com o futebol feminino brasileiro.

Às vésperas da Copa do Mundo Feminina de 2027, o debate recoloca no centro da discussão mulheres que ajudaram a construir a história da modalidade quando ainda quase ninguém olhava para elas.

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