Portelinhando Crônicas: A Aritmética da Guerra

Portelinhando Crônicas: A Aritmética da Guerra
João PortelinhaPor João Portelinha 2 de junho de 2026 0

Em Nova York, no dia vinte e dois de maio, Donald Trump pronunciou uma frase que merece ser lida devagar, como quem decifra um enigma contábil — ou, talvez, um extrato moral.

Disse o presidente que o petróleo extraído da Venezuela já pagou pela guerra contra o Irã cerca de vinte e cinco vezes. Vinte e cinco vezes.
A repetição não é casual. Ela ecoa como um número que tenta naturalizar o absurdo.

Como se a guerra fosse um investimento modesto, um bilhete de loteria premiado, uma conta que se salda com folga e ainda devolve dividendos. A matemática presidencial dispensa detalhes; não se incomoda com números exatos, tampouco com as vidas que esses números ocultam.

O Pentágono fala em vinte e nove bilhões de dólares, embora análises independentes apontem cifras muito superiores, considerando custos indiretos, logísticos e humanos. Trump não fundamenta — e, no plano retórico, não precisa. Sua afirmação opera mais como símbolo do que como cálculo: a guerra como empreendimento lucrativo, a geopolítica como contabilidade de extração.
Nesse enredo, a Venezuela surge como um cofre involuntário.

Despojada de sua soberania plena sobre o próprio petróleo, transforma-se em caixa registradora de conflitos que não lhe pertencem. O óleo negro, arrancado do subsolo latino-americano, percorre rotas estratégicas, financia operações militares no Oriente Médio e retorna ao discurso político como prova de eficiência.

“Quando foi a última vez que você ouviu algo assim?”, provocou Trump.
A pergunta, ainda que retórica, exige resposta.

 

Talvez nunca tenhamos ouvido com tamanha franqueza aquilo que historicamente se disfarça em eufemismos diplomáticos: que a guerra pode ser sustentada por mecanismos de saque, que a economia internacional, em certas circunstâncias, opera como engenharia de espoliação legitimada.
Não se trata apenas de uma frase infeliz ou de um exagero retórico. Trata-se da exposição de uma lógica.

Uma lógica em que territórios fragilizados se convertem em reservas estratégicas de financiamento indireto; em que conflitos armados deixam de ser apenas disputas ideológicas ou de segurança e passam a integrar circuitos econômicos mais amplos.

O Irã sangra. A Venezuela mingua. E, em algum ponto do circuito global, alguém apresenta o balanço com aparente satisfação.

Há, nisso tudo, uma pedagogia perversa: a normalização da guerra como ativo financeiro. Quando líderes políticos falam nesses termos, não apenas descrevem uma realidade — ajudam a consolidá-la. Transformam o inaceitável em cálculo, o trágico em estatística, o sofrimento em variável de custo.

A aritmética da guerra sempre foi cruel. Sempre envolveu somas de destruição e subtrações de vidas. Mas raramente foi exposta com tamanha clareza, quase com orgulho, como se fosse apenas mais uma operação bem-sucedida.

Talvez o espanto maior não esteja no número — vinte e cinco vezes —, mas na naturalidade com que ele foi pronunciado.
Como se, no fim das contas, a guerra não fosse mais do que isso: uma equação que fecha.
E fecha, quase sempre, contra os mesmos.

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