Por que milhares de pessoas passam horas criando uma obra que desaparecerá em minutos?
Às 5h30 da manhã, enquanto boa parte da cidade ainda dorme, dezenas de pessoas já estarão ajoelhadas sobre o asfalto da Praça dos Girassóis.
Nas mãos, sacos de serragem colorida, sal, areia, flores e pó de café.
Durante horas, elas trabalharão para criar desenhos que talvez estejam entre as obras mais bonitas produzidas em Palmas neste ano.
Mas existe um detalhe curioso.
Tudo desaparecerá poucas horas depois.
Quando a procissão de Corpus Christi passar, os tapetes serão desfeitos pelos próprios passos dos fiéis.
Em uma sociedade que fotografa tudo, arquiva tudo e transforma quase tudo em conteúdo para as redes sociais, a tradição parece desafiar a lógica dos tempos atuais.
Por que dedicar uma manhã inteira para criar algo destinado a desaparecer?
A resposta ajuda a explicar por que uma celebração criada há mais de 750 anos continua mobilizando milhões de pessoas ao redor do mundo.
Em Palmas, a solenidade deste ano terá um significado especial. Além da celebração religiosa, a Arquidiocese comemora 30 anos de criação e deve reunir cerca de 30 grupos, movimentos, pastorais e paróquias para confeccionar aproximadamente 400 metros de tapetes ao redor da Catedral Metropolitana.
Entre os voluntários estará Luciana Guimarães, de 55 anos.
Moradora da Quadra 210 Sul, ela chegou a Palmas há duas décadas. Natural de São Luís, no Maranhão, cresceu em uma cidade onde Corpus Christi é uma das manifestações religiosas mais tradicionais do calendário católico.
Na infância e juventude, participou inúmeras vezes da confecção dos tapetes. Depois vieram o casamento, o trabalho, a mudança para o Tocantins, os compromissos da vida adulta e, mais recentemente, uma batalha contra o câncer.
Agora, pela primeira vez desde que chegou a Palmas, ela voltará a participar da celebração.
“Quando a gente enfrenta uma doença grave, aprende a valorizar muitas coisas que antes passavam despercebidas. Participar este ano tem um significado muito especial para mim. É uma forma de agradecer pela vida”, conta.
Uma tradição que atravessa séculos
A celebração de Corpus Christi surgiu no século XIII e foi oficializada pela Igreja Católica em 1264. A festa foi criada para destacar a importância da Eucaristia, considerada pelos católicos a presença de Jesus Cristo no pão e no vinho consagrados.
A tradição dos tapetes chegou ao Brasil por influência portuguesa durante o período colonial e se transformou em uma das mais conhecidas manifestações religiosas do país.
Os desenhos costumam representar passagens bíblicas, cálices, pães, peixes, cruzes e outros símbolos ligados à fé cristã.
Mas, para além da religião, a prática também se tornou um raro espaço de convivência comunitária.
Pais trabalham ao lado dos filhos.
Avós ensinam técnicas aos netos.
Vizinhos que raramente se encontram ao longo do ano passam horas compartilhando histórias enquanto ajudam a montar os desenhos.
Corpus Christi: O que permanece quando os tapetes desaparecem
Para estudiosos do comportamento humano, tradições coletivas como Corpus Christi cumprem uma função que vai muito além da religião. Em uma sociedade marcada pela velocidade da informação, pelo consumo individualizado e pelas relações mediadas por telas, rituais comunitários ajudam a fortalecer sentimentos de pertencimento, identidade e continuidade histórica.
Não é por acaso que a celebração continua mobilizando crianças, jovens, adultos e idosos.
Enquanto boa parte das experiências contemporâneas acontece no ambiente digital, a confecção dos tapetes exige presença física, cooperação e convivência. Pessoas que muitas vezes passam o ano inteiro sem se encontrar dividem horas de trabalho para construir algo que pertence à comunidade inteira.
Para o especialista em semiótica Augusto Alencar, o significado dos tapetes vai além da dimensão religiosa. Segundo ele, a tradição funciona como um grande sistema de comunicação coletiva.
“Os tapetes são símbolos visuais carregados de significado. Eles contam histórias, preservam memórias e comunicam valores que uma comunidade considera importantes. Em uma sociedade cada vez mais digital, onde as relações se tornam mais rápidas e superficiais, rituais como Corpus Christi ajudam a reafirmar identidades coletivas e a criar um sentimento de pertencimento”, explica.
A psicologia também ajuda a compreender por que a celebração permanece relevante mesmo após séculos. Estudos sobre comportamento coletivo apontam que rituais compartilhados fortalecem vínculos emocionais, ampliam a sensação de integração social e contribuem para o bem-estar psicológico.
Para o teólogo Samuel Pedreira, a força da celebração está justamente na combinação entre espiritualidade, convivência e memória.
“Corpus Christi tira a fé do espaço privado e a leva para as ruas. É uma celebração que envolve famílias, vizinhos e gerações diferentes em torno de um mesmo propósito. O tapete é importante, mas o mais importante é aquilo que ele representa: a caminhada coletiva da comunidade e a presença de Cristo no cotidiano das pessoas”, afirma.
Outro aspecto que chama atenção dos especialistas é o caráter efêmero da obra.
Em uma época em que quase tudo é fotografado, arquivado e transformado em conteúdo permanente, os tapetes são construídos sabendo que desaparecerão em poucas horas. O valor não está na durabilidade do desenho, mas na experiência compartilhada durante sua criação.
“A sociedade atual valoriza muito o que pode ser acumulado e preservado. Corpus Christi segue a lógica oposta. A beleza do tapete é passageira, mas a experiência vivida permanece na memória das pessoas. Isso ajuda a explicar por que a tradição continua atravessando gerações”, observa Augusto Alencar.
Quando a procissão termina e os desenhos desaparecem sob os passos dos fiéis, permanece algo que nenhuma fotografia consegue registrar completamente: a memória coletiva construída ao longo daquele dia.
Talvez seja justamente essa combinação de arte, fé, convivência e significado que explique por que uma tradição criada há mais de sete séculos continua encontrando espaço em pleno século XXI.
Mais do que produzir imagens para serem admiradas, quem participa de Corpus Christi ajuda a construir algo cada vez mais raro nos tempos atuais: um momento coletivo de sentido.