Portelinhando Crônicas: Entre o que se diz e o que se sabe

Portelinhando Crônicas: Entre o que se diz e o que se sabe
João PortelinhaPor João Portelinha 18 de junho de 2026 0

Nos corredores elegantes de Évian-les-Bains, onde as grandes potências se reúnem para discutir o destino do mundo, dois presidentes cruzaram-se por alguns instantes. Um aperto de mão breve.

Algumas palavras protocolares. Nada que a fotografia pudesse transformar em amizade. Nada que a diplomacia pudesse vender como entendimento.

De um lado, Luiz Inácio Lula da Silva. Do outro, Donald Trump.

Mas há encontros que duram segundos e repercutem por meses.

O Brasil chegou ao G7 carregando preocupações concretas: sobretaxas comerciais, barreiras alfandegárias e a necessidade de preservar mercados. Os Estados Unidos chegaram carregando sua velha convicção de que os interesses americanos vêm primeiro, ainda que isso signifique erguer muros tarifários contra parceiros históricos.

Lula entregou documentos. Trump distribuiu opiniões.

Não é novidade. Há políticos que falam para compreender. Outros compreendem para falar. E há aqueles que falam tanto que já não encontram espaço para ouvir.

Ao comentar a situação brasileira, Trump afirmou que o cenário político é desagradável e duro.

Criticou processos judiciais e fez referências à condenação de figuras da oposição. O problema não está em opinar. O problema está em opinar sem conhecer.

A crítica só é valiosa quando se apoia nos fatos.

Ao que tudo indica, o presidente norte-americano demonstrou desconhecer aspectos elementares da realidade brasileira. Misturaram-se nomes, situações e personagens.

O debate internacional exige precisão. Não basta repetir narrativas produzidas por aliados ideológicos ou por redes sociais.

Quem pretende julgar uma nação deve primeiro compreendê-la.

O Brasil tem problemas como toda democracia viva. Mas as instituições brasileiras não funcionam à base de preferências pessoais nem de simpatias políticas. Funcionam segundo a Constituição e as leis brasileiras, e não pelas leis dos Estados Unidos.

Há uma diferença fundamental entre discordar de decisões judiciais e negar a legitimidade do próprio sistema de Justiça.

Também chama atenção o contraste entre os discursos.

Enquanto Trump reafirma a retirada definitiva dos Estados Unidos do Acordo de Paris, argumentando que os compromissos ambientais prejudicam a economia americana, o resto do mundo continua a enfrentar secas, enchentes, incêndios e eventos climáticos extremos que não reconhecem fronteiras nem ideologias.

O clima não vota.

A atmosfera não tem partido. O planeta não distingue conservadores de progressistas.

As nuvens passam sobre todos.

Talvez o episódio do G7 ensine uma lição simples: o poder não dispensa o conhecimento. Pelo contrário. Quanto maior a influência de uma liderança, maior deve ser o seu compromisso com a verdade.

Porque a ignorância, quando ocupa cargos modestos, produz equívocos.

Mas, quando se senta à mesa das grandes potências, pode produzir conflitos, injustiças e incompreensões entre nações inteiras.

E, no fim das contas, os povos não precisam de líderes que falem mais alto.

Precisam de líderes que escutem melhor.

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