Editorial: escolhas partidárias, dobradinhas, pesquisas e movimentos fora da rota expõem incoerências no tabuleiro de 2026 no Tocantins

Editorial: escolhas partidárias, dobradinhas, pesquisas e movimentos fora da rota expõem incoerências no tabuleiro de 2026 no Tocantins
Solenidade de diplomação dos eleitos e suplentes de 2024 marca o encerramento oficial das eleições municipais em Palmas, Tocantins.
Ricardo Fernandes AlmeidaPor Ricardo Fernandes Almeida 20 de junho de 2026 1

A pré-campanha de 2026 no Tocantins deixou de ser apenas conversa de bastidor. Ela já aparece nas agendas, nas fotos, nos encontros regionais, nas filiações, nas dobradinhas e nos movimentos que, aos poucos, revelam quem tenta caminhar com quem.

O ponto central não é condenar diálogo. A política é feita de conversa, composição, construção e leitura de cenário. Cada liderança tem sua história, sua base, seu projeto e seu direito legítimo de buscar o melhor caminho eleitoral.

Mas também é preciso dizer com clareza: escolher um partido foi uma decisão pessoal.

Ninguém foi colocado em uma sigla por acaso. Cada pré-candidato avaliou cenário, nominata, estrutura, grupo, palanque, viabilidade eleitoral e conveniência política antes de tomar sua decisão. Portanto, quando alguém escolhe um partido, também escolhe uma narrativa pública diante do eleitor.

E é justamente aí que começam as incoerências.

A incoerência não está em dialogar. A incoerência aparece quando o partido aponta para um lado, o discurso tenta agradar outro e a caminhada pública parece seguir em uma terceira direção. O eleitor tem o direito de perguntar: afinal, qual é o projeto? Qual é o grupo? Qual é o palanque? Qual é a coerência entre partido, discurso e fotografia?

Nos últimos dias, veículos de imprensa e bastidores políticos têm mostrado uma lista extensa de nomes que já se movimentam ou são citados para 2026. Entre eles aparecem Dorinha Seabra, Laurez Moreira, Irajá Abreu, Eduardo Gomes, Vicentinho Júnior, Carlos Gaguim, Alexandre Guimarães, Ronaldo Dimas, Paulo Mourão, Eli Borges, Vanderlei Luxemburgo, Fábio Ribeiro, Bernadete Aparecida, Edy César, Lucas Campelo, Gutierres Torquato, Maria Helena, Marcus Duarte e outras lideranças regionais que tentam encontrar espaço no novo desenho eleitoral.

A quantidade de nomes mostra uma eleição aberta, pulverizada e cheia de movimentações cruzadas.

Maria Helena, mesmo sendo do PL, aparece no radar de articulação com Vicentinho Júnior. O movimento pode ter peso regional e eleitoral, mas também levanta uma pergunta legítima: qual é o ponto de união entre esses campos? É convergência programática, cálculo eleitoral ou simples conveniência de palanque?

Vicentinho Júnior, por sua vez, busca ampliar capilaridade no Estado. É natural que um nome com mandato federal tente aumentar presença municipal, atrair lideranças e fortalecer base. Mas toda aproximação política precisa de explicação pública quando envolve campos que, em tese, não caminham no mesmo sentido.

Lucas Campelo também aparece no centro das articulações. Ele já foi citado em movimentações com Gutierres Torquato e também apareceu ao lado de Laurez Moreira. A presença de Lucas ao lado de Laurez e Gutierres não é apenas registro de agenda. É sinalização política.

Gutierres tem ligação forte com o campo laurezista. Laurez tenta consolidar sua pré-candidatura ao Governo do Tocantins. Lucas busca espaço e viabilidade para crescer no jogo proporcional. Tudo isso faz parte da política. Mas a pergunta continua: qual será a dobradinha real? Qual é o palanque principal? Qual é o compromisso assumido diante do eleitor?

Marcus Duarte também passa a ser observado nesse tabuleiro por ser visto próximo de Laurez. Se essa aproximação se consolidar, será mais um movimento a reforçar a tentativa do grupo laurezista de ampliar base, atrair nomes regionais e organizar musculatura política para 2026.

Mas, novamente, a política exige clareza. Quem se aproxima de um grupo precisa explicar se está apenas dialogando, se está construindo uma aliança ou se já tomou lado. O eleitor não pode ser tratado como alguém que só vê a foto e esquece o caminho.

Edy César é outro caso que merece leitura cuidadosa. Apesar de estar no PT, seu movimento é lido nos bastidores como mais próximo de Dorinha do que de Laurez. Isso chama atenção porque, no plano nacional, o PT buscou Laurez e abriu conversas para uma composição majoritária no Tocantins.

Ou seja: o PT nacional pode ter olhado para Laurez, mas nem todos os nomes ligados ao partido parecem caminhar automaticamente nessa direção. Edy, mesmo vindo do PT, aparece em leitura política mais próxima do campo de Dorinha. Isso mostra que, no Tocantins, a política local muitas vezes não segue de forma automática a orientação nacional.

Esse é um ponto sensível.

Como explicar ao eleitor que o PT nacional busca Laurez, enquanto figuras ligadas ao partido flertam ou caminham com Dorinha? Como explicar lideranças de partidos de direita conversando com campos que não representam exatamente a mesma linha? Como explicar pré-candidatos que escolhem uma sigla por estratégia, mas buscam palanque fora da lógica natural daquele partido?

São perguntas que precisam ser feitas.

Irajá Abreu também aparece nesse cenário como alguém que busca apoio de todos os lados. A movimentação é típica de quem tenta manter viabilidade, preservar pontes e observar o melhor caminho antes do afunilamento eleitoral. É uma estratégia política conhecida: conversar com diferentes grupos, medir forças e não fechar portas cedo demais.

Mas essa estratégia também tem limite. Quem conversa com todos, em algum momento, terá que dizer com quem estará. Política permite diálogo amplo, mas candidatura competitiva exige posição clara.

O caso de Vanderlei Luxemburgo também entra nesse debate. Ele aparece como pré-candidato ao Senado pelo Podemos, partido que está no campo de Dorinha. Porém, nos bastidores, Luxemburgo também estaria buscando conversas fora do Podemos, o que cria mais uma camada de complexidade.

Se o Podemos está com Dorinha, mas Luxemburgo procura diálogo fora dessa rota, surge outra pergunta: ele seguirá a direção partidária, construirá um caminho próprio ou tentará ocupar uma faixa independente dentro da base? É legítimo conversar, mas também é necessário explicar aonde se quer chegar.

Ronaldo Dimas, também ligado ao Podemos, aparece dentro desse desenho como peça importante da aliança com Dorinha. O partido, ao se aproximar da senadora, ajuda a redesenhar o campo político. Mas a presença de Luxemburgo com movimentos paralelos mostra que nem sempre a decisão partidária resolve todas as disputas internas.

Eduardo Gomes, Alexandre Guimarães, Carlos Gaguim, Paulo Mourão, Eli Borges, Fábio Ribeiro e Bernadete Aparecida também aparecem no cenário estadual, especialmente nas discussões sobre Senado e composição de palanques. Cada um representa um campo, uma base, uma leitura e um projeto.

Eli Borges, por exemplo, trabalha o eleitorado evangélico e o apoio de prefeitos como eixos de construção. Eduardo Gomes segue como nome de forte presença no Senado. Alexandre Guimarães, Carlos Gaguim e Ronaldo Dimas aparecem como nomes competitivos dentro de seus respectivos espaços. Paulo Mourão representa a tradição petista e a discussão de esquerda no Estado. Fábio Ribeiro e Bernadete Aparecida aparecem como alternativas em campos menores, mas que também compõem o debate democrático.

O problema não está na quantidade de nomes. Pelo contrário. Democracia se fortalece com pluralidade.

O problema está na falta de clareza.

A política tocantinense parece viver um momento em que muitos querem preservar todos os caminhos ao mesmo tempo. Querem o partido, mas também querem o palanque de fora. Querem a dobradinha, mas sem assumir o custo político. Querem aparecer em fotos com grupos diferentes, mas sem responder qual projeto defendem de fato.

Isso pode até ser estratégia. Mas também pode parecer incoerência.

Dorinha tenta construir uma frente ampla, com perfil mais institucional, diálogo com prefeitos, lideranças municipais, partidos e setores diversos. Laurez tenta organizar um campo alternativo, consolidar sua presença estadual e transformar a vice-governadoria em projeto competitivo. Irajá busca pontes. Vicentinho busca capilaridade. Eduardo Gomes preserva força no Senado. Luxemburgo tenta ocupar espaço. Edy se movimenta entre a identidade partidária e a leitura local. Lucas, Gutierres, Marcus Duarte e Maria Helena compõem peças regionais importantes nesse xadrez.

Cada movimento tem lógica. Mas toda lógica política precisa ser apresentada ao eleitor com honestidade.

Pesquisas mostram preferência do eleitor, mas também reforçam que o jogo ainda está aberto

As pesquisas eleitorais divulgadas até aqui ajudam a explicar por que tantos nomes estão se movimentando, por que tantas dobradinhas estão sendo testadas e por que muitos pré-candidatos tentam manter portas abertas em mais de um grupo.

A mais recente pesquisa Real Time Big Data colocou a senadora Professora Dorinha na liderança da disputa pelo Governo do Tocantins. No cenário estimulado com Kátia Abreu, Dorinha aparece com 33%, seguida por Vicentinho Júnior, com 23%, Laurez Moreira, com 17%, Kátia Abreu, com 12%, Ataídes Oliveira, com 4%, e Witer Fonseca, com 1%.

Em outro cenário, sem Kátia Abreu, Dorinha sobe para 35%, Vicentinho aparece com 25% e Laurez chega a 22%. Nesse quadro, Vicentinho e Laurez ficam tecnicamente próximos, considerando a margem de erro, enquanto Dorinha segue na frente.

O levantamento também mostra um dado importante: na pesquisa espontânea, quando os nomes não são apresentados ao eleitor, 67% disseram não saber ou não responderam. Isso revela que, apesar da movimentação intensa nos bastidores, boa parte do eleitorado ainda não consolidou voto. Ou seja, há preferência inicial, mas ainda há muito espaço para construção, convencimento e mudança de rota.

Nas simulações de segundo turno da Real Time Big Data, Dorinha também aparece à frente. Contra Laurez, a senadora marca 48% contra 34%. Contra Vicentinho, Dorinha tem 43% contra 37%. Já em um confronto entre Vicentinho e Laurez, Vicentinho aparece com 41% e Laurez com 35%.

A pesquisa também mediu rejeição. Kátia Abreu aparece com 44% de rejeição, seguida por Laurez Moreira, com 36%, Ataídes Oliveira, com 35%, Dorinha, com 31%, Witer Fonseca, com 30%, e Vicentinho Júnior, com 27%. Esse ponto é fundamental porque uma eleição não se decide apenas por quem lidera, mas também por quem enfrenta maior resistência para crescer.

Na disputa ao Senado, a Real Time Big Data mostrou Eduardo Gomes como o nome mais citado, com 25%, seguido por Alexandre Guimarães, com 15%, Irajá Abreu, com 10%, Ronaldo Dimas, com 9%, Carlos Gaguim, com 9%, Paulo Mourão, com 7%, Vanderlei Luxemburgo, com 7%, Eli Borges, com 4%, Bernadete Aparecida, com 1%, e Fábio Ribeiro, com 1%.

Esse cenário reforça a fragmentação da disputa pelas duas vagas ao Senado. Eduardo Gomes aparece em posição mais confortável, mas a segunda vaga segue aberta, com vários nomes tentando ocupar espaço, crescer regionalmente e buscar alianças que possam ampliar musculatura.

Outras pesquisas também ajudam a entender o ambiente político. A Paraná Pesquisas mostrou Dorinha e Vicentinho tecnicamente empatados em cenário de primeiro turno, com 35% para a senadora e 34% para o deputado federal. Em uma simulação de segundo turno divulgada pelo mesmo instituto, Vicentinho apareceu à frente de Dorinha, com 44% contra 37%.

Já a Lucro Ativo mostrou Dorinha com 22,19%, Vicentinho com 17,13% e Laurez com 8,06%, além de um índice alto de indecisos, acima de 32%. A Exata também mostrou Dorinha na liderança, com 22,93%, seguida por Vicentinho, com 19,33%, e Laurez, com 9,72%.

Quando se olha o conjunto das pesquisas, há uma leitura clara: Dorinha aparece como nome recorrente na dianteira, Vicentinho se consolida como adversário competitivo, Laurez tenta crescer e ocupar espaço de alternativa, e o eleitorado ainda mantém uma fatia expressiva de indecisos ou eleitores sem posição definitiva.

Essa preferência inicial do eleitor explica a pressa das articulações. Quem está na frente tenta consolidar vantagem. Quem está próximo tenta polarizar. Quem está atrás busca dobradinhas, apoios regionais e palanques que possam reduzir distância. E quem disputa Senado tenta se apresentar como nome viável antes que o espaço seja ocupado por adversários mais conhecidos.

Mas há uma ressalva importante: o Tocantins também viveu uma sequência de pesquisas suspensas pela Justiça Eleitoral nesta pré-campanha. Esse dado exige cautela. Pesquisa é fotografia de momento, não sentença. Serve para medir tendência, leitura e percepção do eleitor em determinado período, mas não substitui campanha, estrutura, discurso, alianças e presença nos municípios.

Por isso, quando partidos e pré-candidatos usam pesquisas para justificar alianças, dobradinhas ou mudanças de rota, também precisam explicar o projeto. Número ajuda, mas não resolve a pergunta principal: quem está caminhando com quem e por quê?

O eleitor pode até aceitar composições amplas. Pode compreender diálogo entre campos diferentes. Pode entender que política exige soma. Mas dificilmente aceitará, sem questionamento, que pesquisas sejam usadas apenas como desculpa para incoerências públicas.

No fim, os levantamentos mostram duas coisas ao mesmo tempo: existe uma preferência inicial do eleitor, mas ainda há um campo enorme em disputa. E é exatamente nesse espaço aberto que as dobradinhas, as conversas fora da rota partidária e as mudanças de palanque começam a revelar quem está construindo projeto e quem está apenas procurando sobrevivência eleitoral.

O eleitor quer mais que foto

Não basta dizer que “é normal da política”. Pode até ser normal. Mas nem tudo que é normal é coerente. E nem toda aliança conveniente é compreensível para quem está na ponta, esperando resultado concreto em saúde, segurança, educação, infraestrutura, emprego e desenvolvimento.

O eleitor tocantinense não pode ser tratado como plateia desatenta. Ele vê a foto, lembra do discurso, acompanha a mudança de rota e percebe quando uma liderança tenta falar para todos os lados ao mesmo tempo.

A dobradinha, por si só, não é problema. Muitas vezes, ela organiza o voto, fortalece regiões e dá direção a uma campanha. O problema é quando a dobradinha vira apenas cálculo de sobrevivência eleitoral, sem identidade, sem projeto e sem explicação.

Cada um tem o seu caminho. Isso é verdade.

Mas cada caminho escolhido também precisa ser explicado.

Quem escolheu partido, escolheu uma posição. Quem posa ao lado de um grupo, emite uma mensagem. Quem conversa fora da rota partidária, cria dúvida. Quem busca apoio de todos os lados, precisa assumir o custo da indefinição.

O Diário Tocantinense mantém espaço aberto para todos os citados, partidos, pré-candidatos e lideranças que queiram esclarecer seus movimentos, explicar suas alianças, negar especulações ou apresentar sua versão sobre o cenário político.

O objetivo deste editorial não é fechar sentença contra ninguém. É levantar uma questão pública: em 2026, o Tocantins terá muitas dobradinhas, muitas fotos, muitas pesquisas e muitas composições. Mas o eleitor vai querer mais do que isso.

Vai querer coerência.

Porque política não se sustenta apenas com palanque, legenda, número de pesquisa e conveniência.

Política se sustenta com palavra, posição e confiança.

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