Nem diante do morto as bombas se calaram

Nem diante do morto as bombas se calaram
João PortelinhaPor João Portelinha 13 de julho de 2026 0

Há guerras que matam os vivos. E há guerras que parecem não respeitar sequer o direito dos mortos ao silêncio.

No dia 9 de julho, o Irã sepultou o aiatolá Ali Khamenei no santuário do imã Reza, na cidade de Mashhad. Morto em 28 de fevereiro, durante os ataques realizados pelos Estados Unidos e por Israel contra o território iraniano, Khamenei foi enterrado após uma semana de cerimônias fúnebres que passaram por Teerã, Qom e cidades sagradas do Iraque.

Quando multidões acompanhavam o último adeus, a guerra voltou a mostrar que não reconhece cerimônias, lutos ou sepultamentos. Naquele mesmo período, o Irã anunciou ataques contra instalações militares norte-americanas no Golfo, enquanto os Estados Unidos realizaram novas ofensivas contra sistemas de defesa, radares e estruturas navais iranianas.

Era o momento em que se esperaria, se não a paz, pelo menos uma suspensão.

Não uma reconciliação.

Não um tratado.

Não um abraço entre inimigos.

Apenas algumas horas de silêncio. Aquele mínimo de humanidade que, desde tempos antigos, até povos em guerra aprenderam a reconhecer diante da morte.

Mas nem diante do morto as bombas se calaram.

Talvez seja exatamente isso que mais assuste.

Quando uma guerra já não consegue distinguir o tempo de combater do tempo de enterrar, alguma coisa profundamente humana se perdeu pelo caminho.

Não escrevo estas palavras para transformar Ali Khamenei em santo. A História não precisa de santos inventados.

O regime iraniano possui contradições, práticas repressivas, responsabilidades e feridas que não podem ser apagadas por um funeral. As críticas ao poder iraniano não devem ser silenciadas simplesmente porque seu líder morreu.

Mas existe uma diferença fundamental entre criticar um regime e aceitar que uma potência estrangeira transforme sua força militar em licença para decidir quem vive, quem morre, quando se ataca e até se uma população terá tranquilidade para sepultar seus mortos.

Essa diferença chama-se civilização.

E também se chama Direito Internacional.

O que estamos presenciando é a normalização de uma ideia brutal: a de que os países militarmente mais poderosos podem estabelecer, sozinhos, os limites da vida e da morte dos demais.

Os Estados Unidos atacam.

O Irã responde.

Os Estados Unidos voltam a atacar.

O Irã amplia a retaliação.

A cada nova explosão, os governos apresentam as mesmas palavras desgastadas: defesa, segurança, prevenção, retaliação e resposta necessária.

A guerra moderna encontrou uma maneira extraordinária de nunca se considerar culpada.

Cada bomba é apresentada como resposta à bomba anterior. Cada morte é tratada como consequência exclusiva da decisão do inimigo. Cada ataque é anunciado como inevitável.

Assim, a humanidade caminha em direção ao abismo convencida de que apenas está reagindo.

O mais grave é que essa escalada já não cabe nas fronteiras iranianas. Os ataques e contra-ataques alcançaram bases militares, rotas marítimas e países do Golfo. O Estreito de Ormuz, passagem estratégica para o comércio internacional de petróleo e gás, tornou-se novamente o centro de uma disputa capaz de afetar economias em diferentes partes do mundo.

A guerra, quando se espalha, não pergunta quem desejava participar dela.

E tudo isso aconteceu enquanto um povo enterrava seu líder.

Repito: enquanto um povo enterrava seu líder.

Pode-se amar ou odiar Khamenei.

Pode-se condenar o regime iraniano.

Pode-se discordar profundamente da República Islâmica.

Pode-se denunciar a repressão, questionar o programa nuclear, criticar a política regional de Teerã e rejeitar muitas das escolhas feitas pelo poder iraniano.

Nenhuma dessas posições, porém, deveria impedir uma pergunta elementar: até onde estamos dispostos a aceitar que vá o poder militar de uma grande potência?

Hoje é o Irã.

Ontem foi outro país.

Amanhã poderá ser outro povo.

Quando o mundo passa a aceitar que uma potência pode matar dirigentes estrangeiros, bombardear territórios soberanos, estabelecer tréguas e rompê-las conforme sua própria conveniência, já não estamos apenas diante de uma guerra.

Estamos diante da corrosão da própria ideia de ordem internacional.

Donald Trump parece querer ser mais do que presidente dos Estados Unidos.

Quer decidir quem pode governar.

Quem pode resistir.

Quem pode retaliar.

Quem merece sanção.

Quem merece bomba.

Quem merece silêncio.

Agora, parece até querer decidir se os mortos terão tempo para ser enterrados.

Há algo de profundamente assustador nisso.

Os impérios quase sempre começam dizendo que estão organizando o mundo. Depois, passam a escolher os inimigos do mundo. Em seguida, determinam os castigos do mundo. Por fim, confundem sua própria vontade com a vontade da humanidade.

O Irã também responderá.

Já respondeu.

E provavelmente responderá novamente caso os ataques continuem.

Essa é a lógica infernal da guerra.

Uma mãe iraniana perderá um filho.

Uma mãe norte-americana poderá perder outro.

Uma família no Golfo poderá acordar sob o som das sirenes sem jamais ter escolhido participar daquele conflito.

Um trabalhador verá o preço da energia aumentar.

Um navio será obrigado a mudar de rota.

Uma economia distante sentirá os efeitos.

E algum governante, diante das câmeras, afirmará que tudo foi necessário.

Necessário.

Talvez essa seja uma das palavras mais perigosas da História.

Quase todas as guerras encontraram alguém disposto a chamá-las de necessárias. Quase todos os bombardeios encontraram um discurso para justificá-los. Quase todos os mortos foram transformados em números depois que deixaram de ser úteis à propaganda.

Mas naquele funeral havia um caixão.

E um caixão é uma coisa teimosa.

Ele desmente os discursos.

Não conhece geopolítica.

Não lê comunicados militares.

Não distingue mísseis inteligentes de bombas convencionais.

Um caixão apenas carrega a prova de que alguém não voltará.

Por isso, talvez a imagem mais poderosa dessa nova escalada não seja a de um caça levantando voo.

Nem a de um míssil atravessando o céu.

Nem a de um general diante de mapas.

Talvez seja a imagem de um povo acompanhando um morto enquanto, ao longe, a guerra recomeça.

Um funeral sob a ameaça das bombas.

Um sepultamento cercado pela vingança.

Um morto que não conseguiu levar consigo nem mesmo o silêncio.

E então pergunto: que civilização é esta?

Que mundo estamos construindo?

Que ordem internacional restará quando a força substituir definitivamente o Direito?

Que autoridade moral poderá falar de paz depois de transformar até o tempo do luto em tempo de guerra?

Não sei quanto durará essa nova escalada.

Não sei quantas bombas ainda cairão.

Não sei quantos países serão arrastados para o conflito.

Mas sei uma coisa: quando os vivos já não conseguem conceder algumas horas de silêncio aos mortos, a guerra deixa de ser apenas uma disputa entre Estados.

Torna-se uma derrota da humanidade.

Talvez, um dia, quando tudo isso terminar, alguém caminhe entre as ruínas e pergunte por que ninguém parou.

Por que ninguém cedeu.

Por que ninguém esperou.

Por que ninguém respeitou sequer o funeral.

E a História, envergonhada, talvez responda:

Chegou um tempo em que os homens aprenderam a fabricar bombas capazes de atravessar continentes, mas desaprenderam a guardar um minuto de silêncio diante de um morto.

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