Fila da angústia: demora em consultas e exames pactuados pelo SUS revolta pacientes no Tocantins e em Colinas
Pacientes de Colinas do Tocantins relatam esperar entre seis meses e um ano por consultas com especialistas, tomografias, exames e procedimentos solicitados pelo Sistema Único de Saúde. Entre as situações apresentadas ao Diário Tocantinense estão casos de doença hemorroidária com dores recorrentes, pessoas que dependem de exames de imagem para concluir diagnósticos e usuários sem previsão para iniciar o tratamento recomendado.
O Diário Tocantinense conversou individualmente que preferiram não se identificar e de forma reservada com pacientes da rede pública. As identidades serão preservadas por envolverem informações pessoais e condições de saúde.
Um dos pacientes afirma aguardar atendimento especializado para tratar um quadro de hemorroidas que provoca dores e desconfortos. Mesmo com o encaminhamento, ainda não recebeu uma data para passar pelo especialista e saber se precisará de tratamento clínico ou procedimento cirúrgico.
Outro caso envolve a espera por uma tomografia. O exame foi solicitado para aprofundar a investigação médica, mas o paciente relata que continua sem previsão de agendamento. Sem o resultado, o diagnóstico e a definição do tratamento permanecem parados.
Também há relatos de espera por consultas especializadas e outros exames de imagem. Alguns pacientes afirmam procurar as unidades de saúde e a Central de Regulação, mas recebem apenas a orientação para aguardar a abertura de uma vaga.
A demora provoca preocupação principalmente entre pessoas que convivem com dores persistentes, limitações físicas ou sintomas que precisam ser investigados. Os usuários ouvidos afirmam não ter condições financeiras de pagar consultas e exames na rede particular.
Como funciona a pactuação do SUS
A pactuação é o acordo que organiza quais municípios, hospitais e unidades ficarão responsáveis por determinados atendimentos do SUS. Como nem todas as cidades possuem especialistas, equipamentos de tomografia, centros cirúrgicos e estrutura para procedimentos de média e alta complexidade, os serviços são distribuídos regionalmente.
No Tocantins, essas responsabilidades são organizadas por instrumentos como a Programação Pactuada e Integrada, que define a oferta de procedimentos e os municípios de referência para atendimento de pacientes de outras localidades.
Em Colinas, o paciente normalmente começa o atendimento em uma Unidade Básica de Saúde. Depois da avaliação, o profissional emite o encaminhamento para consulta especializada ou solicita o exame necessário.
A solicitação é encaminhada à Regulação Municipal, que insere o pedido no sistema e verifica onde o serviço está disponível. Para consultas, a Prefeitura informa que a guia precisa estar preenchida com o histórico clínico do paciente. Para exames, é necessária a solicitação médica correspondente.
Quando o serviço não é realizado diretamente pelo município, o pedido pode depender de vaga disponibilizada pelo Governo do Estado, por outro município pactuado, por um hospital regional ou por uma clínica credenciada.
A regulação analisa a solicitação, a disponibilidade de vagas e a classificação clínica. O Ministério da Saúde define a regulação assistencial como o processo responsável por organizar, acompanhar e controlar o acesso dos usuários, buscando garantir o atendimento adequado à necessidade de cada paciente.
Isso significa que a fila nem sempre segue apenas a ordem de chegada. Casos classificados como mais urgentes podem receber prioridade, enquanto pacientes considerados eletivos permanecem aguardando a abertura de vagas.
Pactuação não significa atendimento imediato
O fato de um procedimento estar pactuado não significa que haverá vaga disponível imediatamente. A pactuação estabelece quem deverá atender e como o serviço será financiado, mas a capacidade mensal pode ser menor que a quantidade de solicitações.
Um município pode, por exemplo, ter direito a determinado número de consultas ou exames por mês. Quando a procura ultrapassa essa quantidade, os novos pacientes permanecem na fila até que sejam abertas outras vagas.
A demora também pode ocorrer quando existem poucos especialistas disponíveis, equipamentos com agenda cheia, contratos limitados, falta de profissionais, necessidade de deslocamento para outra cidade ou dependência de unidades estaduais.
Documentos da própria administração municipal já reconheceram a falta ou insuficiência de determinados serviços na rede pública e a necessidade de contratar empresas particulares para complementar consultas, exames e procedimentos destinados aos usuários do SUS.
Em 2026, o município publicou atos relacionados ao credenciamento de serviços médicos e exames de diagnóstico por imagem, incluindo tomografia computadorizada. Os documentos demonstram que existe previsão administrativa para contratação desses atendimentos, mas não apresentam publicamente quantos pacientes da fila já foram chamados nem quantos permanecem aguardando.
Entre os fatores que podem prolongar a espera estão a demanda maior que a oferta, a quantidade reduzida de vagas pactuadas, a classificação dos casos como eletivos, a ausência de especialistas, a necessidade de atendimento em outro município e problemas na documentação ou no preenchimento do encaminhamento.
Cancelamentos de agenda, indisponibilidade de equipamentos e pacientes que não comparecem também podem afetar o andamento da fila. Cabe aos gestores informar quais desses fatores estão atingindo especificamente os usuários de Colinas.
Números ainda não foram apresentados
O Diário Tocantinense solicita e abre espaço para que a à Secretaria Municipal de Saúde informações sobre quantas pessoas foram encaminhadas para consultas, tomografias, exames e procedimentos especializados.
A reportagem também pediu o número de pacientes atendidos, a quantidade que ainda permanece na fila, as especialidades com maior demanda, o tempo médio de espera e o total de vagas recebidas mensalmente por meio das pactuações.
Até o fechamento desta matéria, esses números não haviam sido encaminhados. Sem os dados oficiais, não é possível dimensionar o tamanho atual da fila nem identificar quantas solicitações estão sob responsabilidade do município, do Governo do Estado ou de unidades pactuadas.
O espaço permanece aberto para que a Prefeitura de Colinas explique o funcionamento da Regulação Municipal, apresente os números dos atendimentos e informe quais providências serão tomadas nos casos em que a espera já chega a um ano.
A Secretaria de Estado da Saúde também poderá esclarecer quantos moradores de Colinas estão inseridos nas filas estaduais, quais serviços são pactuados com o município e quantas vagas são disponibilizadas para consultas, exames e procedimentos.
O Diário Tocantinense abre espaço ainda para que o Ministério da Saúde informe quais medidas estão sendo adotadas para reduzir a espera por especialistas no Tocantins. O Governo Federal mantém programas voltados à ampliação de consultas, exames e cirurgias eletivas, mas a execução depende da adesão e da organização das redes estaduais e municipais.
As manifestações e os dados oficiais serão acrescentados à reportagem assim que forem encaminhados.