Reta final sem dono: convenções podem desmontar alianças e redesenhar disputa pelo Governo do Tocantins

Reta final sem dono: convenções podem desmontar alianças e redesenhar disputa pelo Governo do Tocantins
Foto Ademir dos Anjos
Ricardo Fernandes AlmeidaPor Ricardo Fernandes Almeida 22 de julho de 2026 0

As convenções partidárias costumam ser apresentadas como cerimônias destinadas apenas a confirmar decisões já tomadas. No Tocantins de 2026, porém, elas poderão cumprir uma função bem mais relevante: separar alianças verdadeiras de acordos circunstanciais, revelar quem efetivamente estará nas chapas e reorganizar uma disputa pelo Governo que ainda não tem dono.

Entre 20 de julho e 5 de agosto, os partidos precisam escolher oficialmente seus candidatos e deliberar sobre as coligações permitidas pela legislação eleitoral. É nesse período que os discursos da pré-campanha deixam de ser intenção política e passam a assumir consequências jurídicas e eleitorais.

No Tocantins, as principais forças deixaram as decisões mais delicadas para os últimos dias. Professora Dorinha, Laurez Moreira e Vicentinho Júnior programaram suas convenções para a reta final do calendário. A demora não é casual. Quanto mais indefinida estiver uma chapa, maior será o espaço para negociações, pressões nacionais e mudanças de última hora.

Dorinha chega a esse período com a maior coalizão partidária e uma estrutura política espalhada pelos municípios. Sua pré-candidatura reúne o grupo governista, o apoio de Wanderlei Barbosa e partidos como União Brasil, Republicanos, PL, Progressistas, Podemos, PRD e Solidariedade. A Federação Renovação Solidária, formada por PRD e Solidariedade, já anunciou adesão ao projeto.

Uma aliança numerosa, contudo, produz força e problemas na mesma proporção. Há mais interessados nos espaços majoritários do que vagas disponíveis. A escolha do vice, as duas candidaturas ao Senado e as respectivas suplências exigirão uma engenharia capaz de preservar a unidade sem transformar aliados preteridos em adversários silenciosos.

Dorinha aparece como o nome central dessa composição, mas precisará demonstrar autoridade para concluir a chapa. Uma candidatura ao Governo não pode funcionar como uma assembleia permanente na qual todos possuem poder de veto. Liderar também significa escolher, assumir custos e explicar por que determinada formação representa o melhor projeto para o Estado.

Vicentinho Júnior apresenta uma situação diferente. Seu grupo chega às convenções com a chapa mais desenhada: Vicentinho para governador, Amélio Cayres para vice e Alexandre Guimarães para o Senado. PSDB e MDB marcaram seus encontros para 5 de agosto, em Palmas.

A definição antecipada reduz conflitos internos e oferece ao eleitor uma imagem mais clara. Entretanto, uma chapa organizada não é necessariamente uma candidatura consolidada. Vicentinho precisará mostrar que a disposição de seu grupo vai além da união de lideranças e da realização de grandes eventos.

Seu desafio será transformar mobilização política em uma proposta reconhecível para o Tocantins. É necessário explicar como pretende enfrentar os problemas da saúde, da educação, da segurança, da infraestrutura e do desenvolvimento regional. Sem essa dimensão, a chapa pode ser eficiente como arranjo eleitoral, mas insuficiente como alternativa de governo.

Laurez Moreira, por sua vez, tenta apresentar uma candidatura capaz de reunir setores do centro e da esquerda. O anúncio do coronel Silva Neto como pré-candidato a vice procurou acrescentar segurança pública, combate à corrupção e valorização dos servidores ao discurso do grupo.

A aliança construída entre PSD e PT, com Paulo Mourão trabalhando para disputar o Senado, ampliou a presença de Laurez no interior e deu ao projeto um sentido político mais amplo. Ao mesmo tempo, as divergências dentro do próprio PSD sobre a composição ao Senado revelam uma fragilidade que não poderá ser escondida durante a convenção.

Laurez precisa demonstrar que sua coalizão possui comando, coerência e capacidade de sobreviver às interferências nacionais. Não basta reunir partidos que, em Brasília, ocupam posições diferentes. É preciso dizer qual programa os mantém juntos no Tocantins.

Essa é, aliás, uma das principais questões da eleição estadual. As alianças locais são formadas cada vez menos por afinidades programáticas e cada vez mais pela necessidade de somar tempo de propaganda, recursos, prefeitos, vereadores e estruturas partidárias.

O fenômeno não é exclusivo do Tocantins. Ele reflete uma característica da política brasileira: os partidos possuem comandos nacionais, interesses regionais e realidades municipais que frequentemente apontam em direções opostas.

Uma legenda pode integrar o governo federal, apoiar um candidato presidencial de oposição e participar, no mesmo Estado, de uma coalizão que reúne antigos adversários. A legislação permite grande flexibilidade, mas a elasticidade política cobra um preço: o eleitor tem dificuldade para compreender o que cada aliança realmente representa.

As convenções não deveriam servir apenas para resolver essa matemática. Elas deveriam esclarecer compromissos.

Quem pretende governar o Tocantins precisa dizer como financiará suas propostas, quais áreas serão prioritárias, como organizará a administração pública e que relação manterá com os municípios. Precisa também apresentar limites éticos para a ocupação do Estado e critérios para nomeações, contratos e alianças.

O Tocantins conhece as consequências de campanhas construídas quase exclusivamente sobre acordos de cúpula. Governos começam cercados por aliados, mas enfrentam crises quando chega o momento de distribuir responsabilidades, cargos e poder.

Uma coalizão grande pode oferecer governabilidade. Também pode aprisionar o futuro governo numa rede de compromissos contraditórios. Uma aliança menor pode permitir maior unidade, mas enfrentar dificuldades para formar maioria política. Não existe fórmula automática.

É justamente por isso que nenhuma das principais candidaturas pode ser considerada dona da eleição.

Dorinha possui amplitude partidária e capilaridade municipal, mas ainda precisa fechar sua chapa sem provocar rupturas. Vicentinho apresenta uma formação majoritária mais clara, mas precisa ampliar seu alcance e transformar entusiasmo em projeto. Laurez procura ocupar um espaço alternativo, mas enfrenta o desafio de harmonizar forças políticas diferentes e solucionar tensões internas.

As convenções poderão confirmar esses três projetos. Também poderão enfraquecê-los.

Um nome retirado da chapa, uma vaga ao Senado mal resolvida, uma decisão imposta por uma direção nacional ou uma aliança rejeitada por lideranças municipais pode produzir efeitos que nenhuma fotografia de palanque conseguirá esconder.

O risco maior é que os partidos concentrem toda a energia na distribuição das vagas e deixem o conteúdo para depois. Esse comportamento empobrece a democracia. A campanha começa oficialmente, mas o eleitor continua sem saber quais são as diferenças essenciais entre os grupos.

O Tocantins não precisa apenas de candidatos competitivos. Precisa de candidaturas que reconheçam os desafios de um Estado marcado por distâncias regionais, desigualdade no acesso aos serviços públicos e forte dependência das decisões governamentais.

O norte e o Bico do Papagaio não possuem as mesmas demandas do Jalapão. Palmas não resume o Tocantins. O agronegócio é decisivo, mas não elimina a necessidade de atenção à agricultura familiar, ao comércio, ao turismo e às populações vulneráveis. Saúde pública não pode permanecer reduzida a promessas sobre hospitais enquanto pacientes continuam esperando consultas, exames e cirurgias.

A eleição deveria obrigar os candidatos a enfrentar essas questões. Até agora, porém, a maior parte do debate permanece concentrada em adesões, pesquisas, eventos e composições.

As convenções oferecem uma última oportunidade para corrigir essa distorção antes do início formal da campanha. Os partidos precisam apresentar não apenas quem estará em cada vaga, mas o que pretendem fazer com o poder caso sejam escolhidos.

O Palácio Araguaia não deve ser tratado como prêmio entregue à coalizão que conseguir reunir mais siglas. Governar exige direção, planejamento e capacidade de escolher prioridades mesmo quando elas contrariam interesses dos próprios aliados.

Quando as luzes dos eventos se apagarem e as atas forem encaminhadas à Justiça Eleitoral, o Tocantins terá chapas oficialmente constituídas. Só então será possível saber quais alianças resistiram, quais foram desmontadas e quem saiu fortalecido.

Mas a principal resposta ainda dependerá do eleitor: entre grupos que passaram meses discutindo nomes, quais deles estarão preparados para discutir verdadeiramente o futuro do Estado?

A disputa permanece aberta. E isso é saudável.

Eleições sem dono obrigam candidatos a conquistar votos, apresentar propostas e prestar contas. O Tocantins ganhará se as convenções deixarem de ser apenas celebrações do poder partidário e se transformarem no início de uma campanha mais transparente, programática e respeitosa com a inteligência do eleitor.

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