Nem Lula, nem Flávio: Centrão congela apoio no primeiro turno e transforma neutralidade em poder

Nem Lula, nem Flávio: Centrão congela apoio no primeiro turno e transforma neutralidade em poder
O Globo
RicardoPor Ricardo 23 de julho de 2026 0

Informações obtidas pelo Diário Tocantinense apontam que dirigentes partidários querem preservar alianças estaduais, fortalecer candidaturas ao Congresso e deixar qualquer definição presidencial para um eventual segundo turno

Os principais partidos do Centrão caminham para não apoiar oficialmente nem o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, do PT, nem o senador Flávio Bolsonaro, do PL, no primeiro turno das eleições presidenciais de 2026.

A tendência deverá ser formalizada durante as convenções partidárias, que seguem até 5 de agosto. A orientação em discussão é liberar os diretórios estaduais para construir alianças de acordo com a realidade de cada estado, sem obrigar candidatos a governador, senador ou deputado a carregar um presidenciável que possa prejudicar suas campanhas.

Interlocutores partidários ouvidos pelo Diário Tocantinense, que pediram para não ser identificados, afirmaram que a neutralidade não representa falta de interesse na disputa pelo Palácio do Planalto. Ao contrário: trata-se de uma estratégia para aumentar o poder de negociação das legendas.

As fontes não autorizaram a divulgação dos nomes porque as decisões ainda dependem das convenções e envolvem negociações entre dirigentes nacionais, bancadas parlamentares e lideranças estaduais.

O cálculo é simples. Ao não escolher um lado no primeiro turno, o Centrão preserva seus palanques, evita divisões internas e mantém abertas as portas para negociar com o candidato que avançar ao segundo turno.

A prioridade passou a ser a eleição das bancadas na Câmara dos Deputados e no Senado. Quanto maior o número de parlamentares eleitos, maior será a influência dessas legendas sobre o próximo governo, independentemente de quem vencer a eleição presidencial.

Flávio encontra resistência

O PL intensificou as conversas com Republicanos, União Brasil e Progressistas para ampliar a coligação de Flávio Bolsonaro. A negociação chegou a envolver a possibilidade de entregar a vaga de vice-presidente a uma dessas legendas.

Apesar das investidas, o acordo nacional não avançou.

A convenção do PL, marcada para sábado, 25 de julho, deverá oficializar Flávio Bolsonaro como candidato à Presidência ainda sem a definição de um partido aliado e sem consenso sobre o nome que ocupará a vice.

O Republicanos aparece entre as principais apostas do PL, especialmente por abrigar o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas. A direção do partido, entretanto, vem indicando que a neutralidade é o caminho mais provável.

A legenda também enfrenta divergências internas. Enquanto determinadas lideranças mantêm proximidade com o bolsonarismo, outras administram alianças estaduais com partidos ligados ao governo Lula ou com candidaturas independentes.

A possível indicação da ex-presidente da Caixa Daniella Marques para a vice de Flávio também não conseguiu unificar o Republicanos. Ela agrada ao pré-candidato do PL, mas enfrenta resistência por ter ingressado recentemente no partido e não representar os grupos tradicionais da legenda.

União Brasil e PP querem liberdade nos estados

A federação formada por União Brasil e Progressistas também avalia permanecer fora da disputa presidencial no primeiro turno.

Dirigentes entendem que uma aliança nacional com Flávio Bolsonaro poderia dificultar composições estaduais, principalmente em regiões onde candidatos do Centrão precisam do eleitorado de Lula ou mantêm acordos com partidos próximos ao PT.

No Nordeste, a preocupação é ainda maior. Mesmo políticos ideologicamente ligados à direita evitam assumir compromissos presidenciais que possam afastar eleitores e enfraquecer suas candidaturas proporcionais.

Em outros estados, lideranças do União Brasil e do PP estão próximas de grupos bolsonaristas. A neutralidade permitiria a convivência dessas diferentes posições dentro da mesma federação.

O presidente do PP, senador Ciro Nogueira, chegou a ser procurado pela articulação de Flávio Bolsonaro, mas a posição predominante na federação continua sendo a preservação das candidaturas estaduais e das chapas para deputado federal.

A ex-ministra da Agricultura Tereza Cristina, do PP, também foi procurada e apareceu nas discussões sobre a vaga de vice. A composição, porém, não avançou.

Lula mantém pontes abertas

Do lado do presidente Lula, a aproximação com o Centrão ocorre de forma diferente. Partidos do bloco participaram do governo e ocuparam espaços na Esplanada dos Ministérios, mas isso não se transformou automaticamente em apoio eleitoral.

Lula deverá concentrar sua coligação nacional em partidos de esquerda e centro-esquerda, mantendo negociações locais com lideranças de centro.

A estratégia do PT é garantir palanques estaduais sem exigir, em todos os casos, um compromisso nacional formal. Em estados onde Lula possui maior força eleitoral, candidatos do Centrão poderão se aproximar do presidente mesmo que seus partidos adotem neutralidade.

Essa liberdade também interessa ao Palácio do Planalto. Em vez de enfrentar uma decisão nacional contrária, a campanha petista poderá negociar diretamente com governadores, prefeitos, candidatos ao Senado e lideranças regionais.

Neutralidade tem preço político

Nos bastidores, dirigentes admitem que a posição do Centrão poderá mudar rapidamente em um eventual segundo turno.

Caso Lula e Flávio Bolsonaro avancem, as legendas chegarão à nova etapa com bancadas, estruturas estaduais, tempo de campanha e capilaridade municipal disponíveis para negociação.

O apoio poderá envolver compromissos programáticos, participação no futuro governo, presidências de comissões, espaços administrativos e apoio aos candidatos estaduais das legendas.

Para o Centrão, declarar apoio agora significaria entregar antecipadamente sua principal moeda política.

A avaliação transmitida ao Diário Tocantinense é que nenhum dos dois principais candidatos conseguiu, até o momento, apresentar uma vantagem suficientemente segura para justificar uma adesão nacional.

Lula controla a máquina federal e mantém influência sobre parte do Congresso. Flávio Bolsonaro reúne o eleitorado ligado ao ex-presidente Jair Bolsonaro, mas ainda encontra dificuldades para ampliar sua aliança para além do PL.

Diante desse cenário, o Centrão prefere esperar.

A neutralidade permite que uma mesma legenda esteja ao lado de Lula em um estado, de Flávio em outro e até de candidaturas presidenciais alternativas em determinadas regiões.

Não se trata, portanto, de abandonar a eleição presidencial. O movimento busca colocar o Centrão no centro das negociações.

Sem escolher Lula ou Flávio no primeiro turno, as legendas preservam seus interesses locais, concentram recursos na eleição do Congresso e se preparam para entrar no segundo turno cobrando mais caro pelo apoio.

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