Vice de Flávio, Alfredo Gaspar não empolga o agro; segurança pública vira principal ativo da chapa
A escolha do deputado federal Alfredo Gaspar (PL-AL) para ocupar a vice na chapa presidencial de Flávio Bolsonaro abriu uma nova discussão dentro da direita: até que ponto o nome escolhido consegue ampliar a candidatura entre setores estratégicos, especialmente o agronegócio.
Flávio anunciou Gaspar nesta quarta-feira (5), depois de semanas de negociações em torno da composição da chapa. A definição ocorreu após outros nomes serem avaliados, entre eles o da senadora e ex-ministra da Agricultura Tereza Cristina, uma das principais referências políticas do agronegócio brasileiro.
Na apuração do Diário Tocantinense, a escolha é vista com cautela quando analisada sob a ótica do agro. Gaspar possui trânsito parlamentar e integra formalmente a Frente Parlamentar da Agropecuária, mas sua projeção nacional não foi construída em torno das pautas rurais. Seu principal capital político está concentrado na segurança pública, no combate ao crime organizado, na atuação jurídica e, mais recentemente, nas investigações da CPMI do INSS.
É justamente essa diferença que chama atenção.
Tereza Cristina, que chegou a ser considerada para a vaga, possui relação histórica com produtores, entidades do setor, cooperativas e lideranças políticas de estados onde o agronegócio tem forte peso econômico e eleitoral. Além de ter comandado o Ministério da Agricultura, tornou-se uma das principais interlocutoras do setor no Congresso.
Gaspar chega com outro perfil.
Ex-promotor de Justiça, ex-procurador-geral de Justiça de Alagoas e ex-secretário estadual de Segurança Pública, o parlamentar construiu sua carreira principalmente no enfrentamento ao crime organizado, corrupção e violência. Na Câmara, também passou pela Comissão de Segurança Pública e ganhou projeção nacional como relator da CPMI do INSS.
Para a campanha de Flávio, essa trajetória pode ser utilizada como um ativo importante em dois temas que devem ocupar espaço na eleição: segurança pública e combate à corrupção.
Ao ser anunciado, Gaspar afirmou que pretende enfrentar corrupção, crime organizado e problemas econômicos do país, sinalizando os assuntos que deverão marcar sua atuação durante a campanha.
No agronegócio, porém, a tarefa será diferente.
O desafio de Gaspar será mostrar capacidade de interlocução sobre temas específicos do setor, como crédito rural, Plano Safra, infraestrutura logística, armazenamento, segurança jurídica, regularização fundiária, licenciamento ambiental, exportações e tributação.
Essa discussão ganha ainda mais relevância em estados onde o agro possui peso econômico e eleitoral expressivo.
No Tocantins, por exemplo, produtores rurais, empresários, sindicatos e entidades ligadas ao setor deverão acompanhar de perto como a chapa presidencial pretende tratar agricultura, pecuária, logística e expansão da produção.
O Estado possui uma economia diretamente impactada pela produção de grãos e pela pecuária e integra uma região estratégica para o crescimento da fronteira agrícola brasileira. Por isso, uma candidatura presidencial que queira avançar entre esse eleitorado precisa apresentar propostas concretas para o campo.
A situação é semelhante em Goiás, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Paraná e em estados que compõem o Matopiba, onde o agronegócio possui capacidade de mobilização política considerável.
A escolha de Gaspar também chama atenção porque Flávio terminou optando por um candidato do próprio PL. Isso cria uma chapa chamada de “puro-sangue”, sem utilizar a vaga de vice para incorporar formalmente outro partido à composição presidencial.
A opção pode fortalecer a identidade política da candidatura entre eleitores já ligados ao bolsonarismo, mas aumenta a necessidade de Flávio construir alianças paralelas com partidos e setores econômicos fora do PL.
No caso do agro, essa articulação será fundamental.
Mesmo sem ter sua imagem política originalmente associada ao setor rural, Gaspar não parte completamente distante dessa agenda. Ele consta entre os integrantes da Frente Parlamentar da Agropecuária na Câmara dos Deputados. O ponto central é que essa participação teve menos projeção pública do que sua atuação na segurança e nas investigações parlamentares.
Por isso, a campanha terá de trabalhar para ampliar essa identificação.
Enquanto essa ponte com o campo ainda precisa ser construída, a segurança aparece imediatamente como território favorável ao candidato a vice.
Gaspar passou mais de duas décadas no Ministério Público, atuou no combate às organizações criminosas, comandou estruturas especializadas e esteve duas vezes à frente da Secretaria de Segurança Pública de Alagoas.
Esse currículo permite que Flávio Bolsonaro coloque na chapa um nome capaz de falar diretamente sobre criminalidade, facções, violência urbana e endurecimento da legislação penal.
Outro ativo é a CPMI do INSS. Como relator, Gaspar ganhou exposição nacional durante as investigações sobre descontos irregulares em aposentadorias e pensionistas e protagonizou embates com integrantes da base governista.
A campanha deverá explorar essa atuação principalmente no confronto político com o presidente Lula.
Assim, a escolha produz uma divisão clara na estratégia eleitoral: Gaspar chega forte no discurso da segurança e do combate à corrupção, mas ainda terá de provar capacidade de mobilização junto ao agronegócio.
Para Flávio, esse será um dos desafios da nova fase da campanha. O vice escolhido conversa diretamente com a base mais ligada à segurança pública e ao discurso de enfrentamento ao crime, enquanto a construção de uma ponte mais robusta com o campo dependerá das próximas agendas, propostas e alianças.
No Tocantins, onde o agronegócio terá peso importante no debate presidencial e estadual, o Diário Tocantinense seguirá acompanhando como produtores e lideranças do setor recebem a composição e quais compromissos a chapa apresentará para agricultura e pecuária durante a campanha.